Repórter / [email protected]
Publicado em 23 de setembro de 2025 às 18:06
Embaixo da Ciclovia da Vida, em Vitória, uma área cercada por tapumes está dando lugar a habitações precárias para pessoas em situação de rua. Situado sob a Terceira Ponte e próximo ao quartel do Corpo de Bombeiros, o espaço recebeu lonas, cobertores e caixas de papelão, sendo dividido em pequenas "casinhas" para hospedar ao menos 11 moradores.>
Em meio ao vaivém de bicicletas, inclusive elétricas, na ciclovia que atende quem sobe para Vila Velha ou desce para a Capital, fica a entrada e saída dos residentes nas moradias, em uma porta que foi recortada na chapa de metal que cerca a área. Segundo uma das pessoas que vivem no cercadinho, o grupo decidiu ficar ali para se proteger, com a intenção de estar menos visível aos olhos de quem passa pela região. O local foi escolhido como refúgio, sendo um espaço para dormir mais protegidos da violência.>
“Ficamos no nosso canto. Alguns trabalham aqui mesmo lavando e vigiando os carros. Com isso, conseguimos um trocado, mas não queremos incomodar ninguém. Ainda que as pessoas se assustem quando estamos saindo do cercado [de tapumes] ou andando pelo bairro, não temos nenhuma intenção de prejudicar os pedestres e ciclistas. Temos ciência de que qualquer ato criminoso pode causar represálias tanto da polícia quanto do tráfico”, explica a pessoa em situação de rua, que preferiu não ser identificada.>
O cenário tem causado insatisfação em quem mora na Enseada do Suá ou precisa passar pelo local diariamente. Entre as queixas estão o mau cheiro de fezes, além da sensação de insegurança.>
>
A Associação de Moradores e Empresários da Enseada do Suá (Amei-ES) chegou a protocolar reclamações na Prefeitura de Vitória. Mas, como não obteve respostas, fez um novo registro, solicitando apoio da equipe de abordagem. Alguns pedestres e ciclistas entrevistados por A Gazeta, na manhã de segunda-feira (22), também pediram providências ao poder público.
>
Para uma administradora que mora em um condomínio da região e não quis ter o nome revelado, quando a área recebeu as placas de alumínio, os moradores da Enseada chegaram a acreditar que seria feita uma obra sob a Terceira Ponte, como a do Parque Linear, na alça de Vila Velha, com pista de skate e áreas de convivência.>
Apesar das reclamações de quem mora ou trabalha na Enseada do Suá, há também quem diz não se incomodar com a situação. É o caso do contador Leonardo Mariano, que usa a Ciclovia da Vida no trajeto de casa para o trabalho e precisa passar sob a Terceira Ponte quando chega em Vitória após sair de Vila Velha.>
“Passo aqui há mais de um ano e nunca tive nenhuma situação de incômodo nem vi ou soube de alguma pessoa reclamando. As pessoas em situação de rua que vejo por aqui, na verdade, são educadas, cumprimentam quem passa e não abordam ninguém”, diz Leonardo.
>
De acordo com a Prefeitura de Vitória, a cidade tem feito um trabalho de sensibilização com as pessoas em situação de rua, destacando não agir de forma coercitiva.
>
“A atuação consiste em um trabalho muito complexo, a começar pela abordagem e pela criação de um vínculo de confiança com as pessoas em situação de rua, passando pela persistência na oferta do serviço até o encaminhamento à rede socioassistencial”, diz a administração municipal, em nota.>
A prefeitura destaca que conta hoje com ações, como visitas para avaliação da saúde por meio do programa Consultório na Rua, e 215 vagas de acolhimento. Não há informações, no entanto, de quantas dessas estão disponíveis no momento para receber novos moradores.>
As pessoas atendidas pelos programas assistenciais da Capital ainda têm direito a kit de higiene, cama, comida e roupa lavada. E são encaminhadas para elaborar um plano de atendimento, para atividades esportivas e até escolares. Solicitações de abordagem à população de rua podem ser feitas pelo telefone 156.>
A Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura afirma acompanhar a situação e aguarda a desocupação para fazer a concretagem do vão para a preservação do espaço público, acrescentando ser papel dos municípios o monitoramento de pessoas em situação de rua.>
Conforme a Polícia Militar, a corporação tem promovido visitas tranquilizadoras e abordagens para garantir mais segurança a quem circula pela região da Terceira Ponte. No entanto, ressalta que o problema é de saúde pública e social.>
“A PM reforça que só pode deter pessoas em flagrante delito e não apenas por estarem em situação de rua. Por isso, caso algum morador presencie algum tipo de crime, é importante que acione imediatamente o Ciodes (no telefone 190)”, recomenda o órgão em nota.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta