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Metais pesados são encontrados em alimentos cultivados no Rio Doce 10 anos após rompimento de Fundão

Metais pesados são encontrados em alimentos cultivados no Rio Doce 10 anos após rompimento de Fundão

Análise mostra presença de chumbo, cádmio, cromo e níquel em alimentos produzidos nas ilhas do povoado de Regência

Pedro Paulo Rocha

Residente em Jornalismo / [email protected]

Publicado em 14 de novembro de 2025 às 14:31

O rompimento da barragem de Fundã, em Mariana , levou rejeitos até o estuário do Rio Doce
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana , levou rejeitos até o estuário do Rio Doce Crédito: Felipe Werneck/Ibama via Flickr

Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, os impactos da lama de rejeitos continuam avançando sobre o estuário do Rio Doce. Um estudo realizado pela engenheira agrônoma Amanda Duim Ferreira, em parceria com pesquisadores da USP (Esalq) e da Ufes, encontrou elevadas concentrações de metais pesados em alimentos cultivados nas áreas que foram tomadas pelo rejeito na região de Regência, em Linhares.

Como o estudo foi feito

A pesquisa analisou banana, mandioca e polpa de cacau produzidos em pequenas plantações de subsistência em ilhas formadas pela própria lama da barragem e em áreas alagadas pelo Rio Doce. As coletas foram feitas em agosto de 2021, mas fazem parte de um acompanhamento iniciado em 2015, logo após a chegada da lama ao Espírito Santo.

Segundo Amanda, o cenário é claro: “a cada estação de cheia, mais rejeito chega ao estuário”, aumentando as camadas depositadas nas margens do rio, que hoje chegam a ultrapassar 50 centímetros de acúmulo, muito acima do observado nos primeiros anos pós-rompimento, entre 5 a 10 centímetros.

Plantação de bananas
Plantação de bananas são diretamente impactadas por rejeitos trazidos pelo Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão Crédito: Portal Summit Agro

As análises laboratoriais encontraram concentrações elevadas de cádmio, chumbo, cromo, níquel e cobre, além de ferro, manganês e alumínio, todos acima dos limites considerados seguros pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). A equipe também realizou uma avaliação de risco considerando idade, hábitos alimentares e frequência de consumo.

Risco maior para os mais novos

O alerta maior recai sobre as crianças: para elas, o risco associado ao consumo de banana cultivada nessas áreas foi considerado potencialmente significativo. Entre os adultos, o risco calculado ficou abaixo de 1, indicando menor impacto imediato, embora isso não signifique segurança total.

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O resultado reforça uma conclusão apontada repetidamente pelos pesquisadores: falta monitoramento contínuo. “Nossa coleta foi suficiente para indicar um problema, mas não para afirmar que toda a banana de Regência está contaminada. Precisamos de avaliações do solo, da água e de outras culturas”, explicou Amanda durante entrevista à CBN Vitória.

O enfrentamento ainda é raso

Outro ponto crítico levantado pela pesquisadora é a ausência de ações de remediação. Embora haja grupos monitorando o avanço da contaminação, quase não existem iniciativas para reduzir os metais acumulados no ambiente. Uma das alternativas estudadas pela equipe é a fitorremediação, técnica que utiliza plantas que conseguem absorver os metais do solo. Nesse caso, a taboa, espécie comum em brejos capixabas, mostrou grande eficiência em acumular níquel, cromo, chumbo e cobre na raiz. “A solução está na natureza”, destacou Amanda.

Apesar da gravidade das descobertas, o cenário observado é de cultivos pequenos e voltados à subsistência, conduzidos por pescadores e moradores tradicionais da região. Alguns vendem o excedente, o que reforça a necessidade de acompanhamento por parte dos órgãos federais. “Não é não dar a banana para a criança, é o poder público começar a monitorar os solos dessas regiões.”, explicou a pesquisadora.

*Este conteúdo foi escrito por um aluno do 28º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob supervisão de Murilo Cuzzuol.

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