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Invenção do Ifes extrai substâncias de planta do ES que combatem câncer

Invenção do Ifes extrai substâncias de planta do ES que combatem câncer

Inovação patenteada pelo instituto federal e universidades parceiras permite isolar e extrair compostos naturais que se mostraram promissores contra células cancerígenas sem prejudicar as células saudáveis

Sara Ohnesorge

Residente em Jornalismo / [email protected]

Publicado em 7 de outubro de 2025 às 12:03

Flor Rauvolfia Capixabae
Flor Rauvolfia Capixabae Crédito: Náuvia Maria Cancelieri

O Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) conquistou, em agosto deste ano, a patente de uma invenção que consegue isolar compostos farmacêuticos presentes na planta Rauvolfia capixabae, encontrada na Mata Atlântica capixaba. Essas substâncias se mostraram eficazes no tratamento da leucemia e do câncer colorretal e apresentaram menor toxicidade em células normais quando comparadas com os medicamentos já existentes no mercado.

A patente foi concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).

Náuvia Maria Cancelieri, professora do Ifes campus Serra e uma das inventoras do projeto, escreveu as patentes enquanto cursava doutorado em Ciências Químicas na UFMG. Ela esclareceu que a carta-patente é um documento que garante a propriedade intelectual de algo — neste caso, do processo de extração das substâncias.

Moléculas causam menos dano à saúde das células

A invenção desenvolvida pelas universidades e pelo Ifes consegue isolar e retirar do extrato da planta capixaba substâncias como a olivacina e a isositsiriquina. Em laboratório, esses compostos demonstraram sucesso no tratamento da leucemia e do câncer colorretal e são menos prejudiciais a células saudáveis.

“O diferencial é que essas substâncias agem no organismo matando somente as células que têm problemas, ou seja, as células cancerígenas. A seletividade delas é muito grande, e a patente vem como uma proposta de cura saudável e sustentável para a população”, explica a professora.

Alternativas para medicamentos convencionais

A pesquisa descrita na patente também revela outra novidade em termos produtivos: para a extração das moléculas olivacina e isositsiriquina, o processo é mais rápido, eficiente e com maior rendimento em comparação a outros métodos existentes. A pesquisa também mostrou que a olivacina apresentou forte ação contra células leucêmicas, em especial para a leucemia promielocítica aguda e leucemia monocítica aguda, sendo uma nova opção para o tratamento de câncer.

“Fizemos testes com medicamentos que estão no mercado, comparando com essas substâncias que foram isoladas da Rauvolfia capixabae, e foi gritante a diferença. Ela permite fazer o uso de um quimioterápico que não vai cair o cabelo, que não vai debilitar o organismo. Essoefoi o grande avanço nessa questão da inovação e que gerou a patente”, afirma Náuvia.

Planta nativa da Mata Atlântica capixaba

Frutos Rauvolfia capixabae
Frutos Rauvolfia capixabae Crédito: Náuvia Maria Cancelieri

A Rauvolfia capixabae é uma espécie da família Apocynaceae, conhecida popularmente como “grão-de-gato”. Encontrada em áreas de restinga e fragmentos de Mata Atlântica no Espírito Santo, a planta não havia sido utilizada em muitos estudos para explorar seu potencial.

A professora Náuvia conta que o gênero Rauvolfia apresenta quantidades razoáveis de olivacina e isositsiriquina na planta, o que torna a produção de medicamentos mais viável e acessível. Geralmente, as quantidades de princípios ativos isolados das plantas se apresentam em baixas quantidades para serem utilizadas, o que difere dos resultados encontrados na planta da Mata Atlântica capixaba.

“A Rauvolfia capixabae foi aprovada para uso no ano passado pela Anvisa, e nós temos uma extensão territorial gigante para que possamos fazer uso desse potencial”, complementa.

Como os medicamentos contra o câncer funcionam?

Os novos tratamentos contra o câncer funcionam de forma mais precisa quando comparados à quimioterapia tradicional. Enquanto a quimioterapia age como uma bomba que atinge tudo ao redor — destruindo as células doentes, mas também muitas células saudáveis, o que causa efeitos colaterais —, as terapias mais modernas atuam com maior exatidão.

A imunoterapia, por exemplo, ensina o sistema imunológico do próprio paciente a reconhecer e eliminar apenas as células cancerígenas. Já a terapia-alvo funciona identificando o ponto fraco das células do tumor e agindo com precisão no local, interferindo nas moléculas específicas envolvidas no crescimento, progressão e disseminação do câncer.

Outra alternativa existente é o tratamento com anticorpos monoclonais conjugados a drogas (ADCs), que são como um “cavalo de Troia”, levando o remédio direto para dentro da célula doente, sem causar tanto dano às outras. Mesmo com o aprimoramento de diversos tratamentos, a médica oncologista Juliana Alvarenga esclarece que os métodos ainda possuem efeitos colaterais.

A elaboração de técnicas parecidas com a da extração de substâncias da Rauvolfia capixabae é ideal para melhorar a qualidade de vida do paciente: “A ideia é desenvolver terapias cada vez mais direcionadas, que mantenham a eficácia contra o câncer, mas com menos efeitos colaterais e menos toxicidade para o organismo”, explica a médica.

Este conteúdo foi escrito por um aluno do 28º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob supervisão de Gisele Arantes

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