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Funcionário inusitado

Hospital em Vitória contrata gavião para espantar pombos; saiba como funciona

Shiluba tem seis anos e realiza voos periódicos no Hucam para afastar aves que encontram abrigo nas estruturas da unidade

Publicado em 27 de Outubro de 2026 às 17:01

Redação de A Gazeta

Publicado em 

27 out 2026 às 17:01
Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo
Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo Arquivo/Linha Ambiental

Há cerca de quatro meses, o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), em Vitória, passou a contar com o trabalho de um novo "funcionário". Shiluba, um gavião macho da espécie asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), sobrevoa áreas externas da unidade para espantar pombos que encontram abrigo nos telhados, beirais e outras estruturas do hospital.


Conforme apuração do g1 ES, a iniciativa surgiu após a administração do hospital identificar o aumento da população de pombos na área da unidade, localizada no bairro Maruípe. Um levantamento realizado no local apontou a presença de cerca de 60 aves.


A presença de pombos em áreas próximas a hospitais preocupa, já que as fezes das aves podem favorecer a exposição a fungos, bactérias e parasitas, além de provocar danos a estruturas e sistemas de ventilação e ar-condicionado, expondo uma população que já está vulnerável.


Apesar dos riscos, o hospital não registrou casos de doenças transmitidas por pombos na unidade. A iniciativa tem caráter preventivo e busca reduzir a presença das aves antes que ela se torne um problema.


Antes da chegada de Shiluba, o hospital já havia adotado medidas convencionais para afastar os pombos, como o fechamento de pontos de entrada, uso de repelentes e campanhas de conscientização. As ações, porém, não foram suficientes para resolver o problema.


"A estrutura do Hucam é um dos fatores que favorecem a presença dos pombos. Os prédios estão distribuídos horizontalmente, por uma área com desníveis e oferecem diversos pontos de abrigo, como telhados, beirais e janelas. A unidade já havia tentado fechar pontos de entrada, o uso de repelentes e promover ações de conscientização da comunidade, mas nada havia sido tão efetivo", explicou o biólogo David Salles, responsável pelo controle ambiental do Hucam.

Como o trabalho funciona

A ação é realizada por uma empresa especializada em falcoaria, técnica que utiliza aves de rapina treinadas para afastar outras espécies. Shiluba é um macho de 6 anos que também atua no Aeroporto de Vitória, onde realiza o mesmo serviço ao lado de outras três aves.


Antes do início das atividades no hospital, foi realizado um levantamento da população de pombos, seguido do mapeamento da área e da definição das rotas de voo.


Segundo Gabriel Furtado, médico-veterinário e coordenador do projeto de falcoaria no Hucam, a estratégia utiliza a relação natural entre predador e presa para afastar os pombos. "É uma relação presa e predador mesmo. A espécie é um predador natural de pombos, o próprio animal entende aquilo como uma ameaça", explicou.


As rondas são realizadas preferencialmente no início da manhã, quando os pombos começam a sair dos abrigos em busca de alimento e há menor circulação de pessoas no hospital. Dependendo da necessidade, os voos também podem ocorrer à tarde.


Inicialmente, o trabalho era realizado semanalmente, mas a frequência foi reduzida para uma vez a cada 15 dias após a diminuição da presença de pombos, segundo a equipe do hospital.


"Já deu pra perceber que a quantidade diminuiu, foi mais rápido do que esperávamos. Agora, um novo censo está em andamento para reavaliar o tamanho dessa população e ajudar a definir a frequência das ações", disse o servidor do hospital.

Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo
Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo Divulgação/Hucam
Peso controlado e rotina de atleta

Para desempenhar suas atividades, Shiluba passa por uma rotina de treinamento, alimentação controlada e acompanhamento diário.


O peso ideal de voo do gavião é de aproximadamente 500 gramas. Antes das atividades, Shiluba é pesado pela equipe, que calcula a quantidade de alimento necessária com base no gasto de energia previsto para a rotina.


O controle é importante porque o peso interfere diretamente no desempenho do animal. Se estiver muito leve, o gavião pode ter dificuldade para controlar o voo. Se estiver pesado demais, pode perder o interesse necessário para responder aos estímulos do treinamento.

Técnica busca reduzir impactos ambientais

A escolha da espécie também é importante para evitar impactos sobre outras aves. Segundo Gabriel, o gavião não costuma demonstrar interesse por pássaros menores, e algumas dessas espécies nem sequer se assustam com sua presença.


"Por isso, a falcoaria é considerada uma alternativa de baixo impacto ambiental para afastar aves de locais onde elas podem causar problemas. A técnica é utilizada em aeroportos de diferentes países, além de hospitais, galpões e plantas industriais", apontou Gabriel.


A empresa responsável pelo serviço no Hucam também atua no Aeroporto de Vitória, onde trabalha com quatro aves e realiza as ações com maior frequência. A companhia tem matriz em Belo Horizonte, Minas Gerais, e presta serviços no Espírito Santo e em outros estados.

Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo
Gavião Shiluba é utilizado para afastar pombos de área de hospital do Espírito Santo Arquivo/Linha Ambiental
Riscos e prevenção

Segundo o biólogo David Salles, as fezes dos pombos podem favorecer a exposição a fungos, bactérias e parasitas, além de provocar danos a estruturas e sistemas de ventilação e ar-condicionado.


Entre as doenças associadas a ambientes contaminados por fezes dessas aves estão a criptococose, que pode afetar os pulmões e, em casos graves, atingir o sistema nervoso central; a salmonelose, uma infecção gastrointestinal; e a histoplasmose, infecção fúngica sistêmica causada pela inalação de esporos do fungo Histoplasma capsulatum.


A histoplasmose, inclusive, foi confirmada pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e pela Fiocruz como a causadora de surto de contaminação no hospital Hospital Santa Rita, também na capital, há um ano.


A atuação de Shiluba faz parte de uma estratégia mais ampla de controle ambiental no Hucam. Segundo David, a colaboração de pacientes, funcionários e visitantes é fundamental para evitar que os pombos continuem encontrando alimento na unidade.


O hospital também realiza ações de conscientização para apresentar o gavião e explicar a importância do controle da população dessas aves. 


"Não alimentar os pombos é uma das principais orientações da equipe. O descarte correto de restos de comida, o uso das lixeiras e o cuidado para não deixar alimentos expostos também ajudam a tornar o ambiente menos atrativo para as aves", orientou o biólogo.


A equipe recomenda ainda que ninguém tente tocar em Shiluba durante as atividades e que as orientações dos profissionais responsáveis sejam respeitadas.


*Com informações de Ana Elisa Bassi, do g1 ES

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