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Homem em situação de rua no RJ deixado no ES narra o que aconteceu

Homem em situação de rua no RJ deixado no ES narra o que aconteceu

Pedreiro Júlio César Freire, uma das 12 pessoas em situação de rua enviadas para Linhares, no Norte do Espírito Santo, diz que representante da Casa de Passagem de Cabo Frio (RJ) recomendou viagem

Publicado em 10 de abril de 2025 às 14:08

Júlio César deu entrevista para a TV Gazeta Norte
Júlio César deu entrevista para a TV Gazeta Norte Crédito: Douglas Abreu

“Um representante da Casa de Passagem, da Prefeitura de Cabo Frio, falou que tinham ganhado dinheiro na colheita do café. Fizeram a gente assinar o documento. Nós não lemos. Eles disseram que se não assinássemos, iríamos ficar na rua". Esse é um trecho do relato do pedreiro Júlio César Freire, um dos 12 moradores em situação de rua deixados em Linhares, no Norte do Espírito Santo, por um micro-ônibus fretado pela Prefeitura de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, na última terça-feira (8). O grupo foi transportado para o Estado capixaba com uma falsa promessa de emprego. O caso é acompanhado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual (MPES).

Em entrevista ao Gazeta Meio Dia Regional, da TV Gazeta, Júlio César disse que estava na rua e procurou a Casa de Passagem de Cabo Frio, lugar de acolhimento a pessoas que vivem nas ruas, onde ficou dois dias antes de ser levado para Linhares.

“Houve um boato de que havia colheita de café e falaram para irmos para lá. ‘Já teve gente que relatou que tinha arrumado 20 mil reais em três meses’, foi o que disse o coordenador da casa. Então, pensei em ir. Sou trabalhador, não tenho nada a perder”, comentou Júlio César.

Cheguei aqui, não era nada disso. Ficamos 12 horas no ônibus, sem alimentação, sem nada. Nos largaram e foram embora. Nós pensamos: ‘Como vamos para a colheita?’. Ficamos desamparados, sem ninguém

Júlio César Freire

Pedreiro que vivia em situação de rua em Cabo Frio (RJ)

"Nos mandaram assinar um documento"

Em nota enviada na quarta-feira (9), a Prefeitura de Cabo Frio afirmou que a Casa de Passagem do município enviou as pessoas em situação de rua para o Espírito Santo porque algumas são naturais do Estado capixaba e “manifestaram espontaneamente o desejo de retornar ao seu Estado de origem para buscar novas oportunidades, especialmente na colheita do café, atividade da qual alguns já haviam participado em anos anteriores”, iniciou.

A administração relatou também que as 12 pessoas que vieram para Linhares assinaram um documento, com nome completo, CPF e assinatura, “testando ciência de que a Casa de Passagem se responsabilizaria apenas pelo transporte, não havendo qualquer intermediação de emprego, contato com fazendas, empresas ou oferta de vagas em outro município”.

Em um vídeo publicado no Instagram na manhã desta quinta-feira (10), o prefeito de Cabo Frio, Dr. Serginho, disse que não conhecia Linhares e que as "12 pessoas foram convencidas a ir para Linhares para ganhar dinheiro na safra do café. Várias pessoas na Casa de Passagem são testemunha disso", comentou. Veja abaixo:

Segundo prefeito Dr. Serginho, moradores pediram para ir para Linhares com a perspectiva de trabalhar na safra do café

No entanto, sobre a assinatura desse documento, Júlio César alega que não leu e não entendeu o que estava escrito, mas acreditou que não teria nada a perder, porque queria mudar de vida. Ele destacou que não foi fornecida nenhuma cópia para as 12 pessoas.

“Nós não lemos, não entendemos o que estava escrito. Nós estamos na rua, quem não iria assinar? Não temos nada a perder. Nos mandaram assinar e disseram: ‘Quem não assinar, não vai e vai ficar na rua, não vai ficar acolhido. Vai ficar na rua e vai sair daqui, que o prefeito não quer mais morador de rua’”, afirmou Júlio César.

Quero trabalhar. Sou morador de rua há cinco anos, mas sou um cidadão. Já tive carteira assinada. Nos falaram que pessoas conseguiram mudar de vida na colheita do café, em Linhares. Então pensei, vou arrumar um dinheiro, alugar uma casa e viver a minha vida social de novo

Júlio César Freire

Pedreiro que vivia em situação de rua em Cabo Frio (RJ)

A reportagem de A Gazeta procurou a Prefeitura de Cabo Frio novamente sobre os relatos de Júlio César, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.

Situação das 12 pessoas

Conforme a Prefeitura de Linhares, na manhã desta quinta-feira (10), apenas uma das 12 pessoas teve a família identificada e comunicada, na Bahia. As demais permanecem na Casa de Acolhida São Francisco de Assis, no bairro Aviso, e no Grupo Resgate, no distrito de Farias.

Júlio César comentou durante a entrevista que uma das pessoas é uma mulher grávida. “Ela teve um ataque epiléptico na rodoviária”.

O que dizem Polícia Civil e MPES

Procurada pela reportagem de A Gazeta, a Polícia Civil explicou, em nota, que "a conduta está sendo analisada quanto à tipificação penal. Até o momento, não foi identificado nenhum crime que justifique a atuação da corporação. A situação está sendo acompanhada, e eventuais desdobramentos serão avaliados conforme as legislações vigentes".

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) informou, por meio da Promotoria de Justiça de Linhares, que está "acompanhando com atenção os fatos ocorridos e já atua para garantir o acolhimento das pessoas envolvidas, bem como a responsabilização dos autores".

Também pontuou que trabalha para identificar as pessoas que chegaram a Linhares, para mapear possíveis vínculos familiares e promover o devido acolhimento, e apura "as circunstâncias do transporte e do eventual abandono dessas pessoas, com o acionamento da Promotoria de Justiça de Cabo Frio e demais órgãos competentes".

Ainda conforme o Ministério Público, representantes do órgão se reuniram com a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) de Linhares para definir como será o suporte necessário às vítimas, "assegurando que seus direitos sejam respeitados e que os responsáveis respondam por seus atos".

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