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Covid: por que usar doses de vacinas de marcas diferentes não faz mal?

O reforço da imunização no combate ao coronavírus pode ser feito com vacinas do mesmo fabricante ou não; fundamental é garantir a aplicação das três doses

Tempo de leitura: 5min
Vitória
Publicado em 05/12/2021 às 08h24
Atualizado em 09/12/2021 às 09h47
Vacina Pfizer-BioNTech
A vacina Comirnaty, da Pfizer, deve ser usada preferencialmente para o reforço na imunização contra a Covid-19. Crédito: Carlos Alberto Silva

Agora que a estratégia de adotar a terceira dose contra a Covid-19 em toda a população adulta passou a ser implementada no Espírito Santo, e com a possibilidade de usar vacinas diferentes das que foram aplicadas na primeira (D1) e segunda doses (D2), muitas pessoas ficaram em dúvida sobre os riscos da combinação. Contudo, não há motivo de preocupação sobre a segurança e eficácia da medida, segundo especialistas.

Para o público apto a tomar o reforço, que deverá ser aplicado com intervalo mínimo de 5 meses da segunda dose, a orientação é usar preferencialmente o imunizante de RNA mensageiro que, no Brasil, é a tecnologia da vacina Comirnaty, da fabricante Pfizer.

Mesmo as pessoas que usaram outras vacinas na D1 e na D2, a primeira opção para a terceira dose é a da Pfizer.  Depois, são os imunizantes formulados com vetor viral, a exemplo da Janssen e Astrazeneca, segundo afirma a coordenadora do programa estadual de imunizações, Danielle Grillo. 

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Essa combinação de vacinas diferentes é chamada esquema heterólogo, ao passo que, nos casos de mesmo imunizante, é homólogo. "Não tem problema se vai ser um ou outro esquema, o importante é a pessoa se vacinar", ressalta Danielle Grillo.

Questionada sobre a eficácia e segurança de se utilizar uma vacina distinta como reforço, a coordenadora de imunizações sustenta que há estudos demonstrando que o esquema heterólogo oferece a resposta adequada para a proteção das pessoas contra a Covid-19. 

Danielle Grillo

Coordenadora do programa estadual de imunizações

"O objetivo da vacinação de reforço é ampliar a resposta imunológica, uma vez que tem sido registrado (no mundo) um aumento de casos em função do tempo de duração da eficácia das vacinas"

Danielle Grillo acrescenta que, com a população no Espírito Santo tomando a dose adicional, a perspectiva é garantir que a virada do ano não apresente uma elevação no número de infectados como tem sido observada em outros países.

Para avançar na cobertura, toda a população com mais de 60 anos já deve ter recebido a dose de reforço até dezembro. Nas outras faixas etárias, a aplicação será gradativa, pois depende do intervalo de 5 meses após a segunda dose (D2). Para quem tomou a D2 em outubro, por exemplo, a dose adicional vai chegar em março pelas regras atuais. 

RESPOSTA IMUNOLÓGICA

Doutor em Imunologia e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Daniel Gomes também sustenta que não há risco na combinação de vacinas e, ainda mais, que tomar um imunizante de reforço diferente do que foi aplicado no esquema inicial é até recomendável. 

Daniel Gomes

Doutor em Imunologia e professor da Ufes

"Por serem diferentes em termos de composição, as vacinas também estimulam de maneiras diferentes o organismo e favorecem a resposta imunológica; é uma alternativa para aumentar a capacidade de resposta do indivíduo ao (eventual) contato com o vírus"

Todas as vacinas disponíveis no país são seguras e capazes de proteger contra o coronavírus. Segundo afirma Daniel Gomes, não é correto estabelecer um ranking indicando que uma é melhor que outra. "Não dá para fazer esse tipo de análise; todas são eficazes."

O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, lembra que o esquema heterólogo já vinha sendo adotado desde que o governo federal autorizou, em julho, o uso da Pfizer em gestantes que haviam recebido a D1 da Astrazeneca porque, para esse público, o primeiro imunizante havia se tornado contraindicado.

Gradativamente, a medida foi sendo estendida a outros grupos, sobretudo pela falta de algumas vacinas, e, constata Juarez, mesmo neste curto período já foi possível demonstrar que a intercambialidade era segura.

Agora, ressalta o presidente da SBIm, a estratégia da terceira dose se mostrou necessária porque se verificou que todas as vacinas, com o passar do tempo,  perdem sua capacidade de defender o organismo do vírus, algumas mais rapidamente que outras. Nos imunodeprimidos, inclusive, trata-se como D3, isto é, o esquema padrão dessas pessoas é de três doses e não de duas pela necessidade da aplicação adicional de proteção.

Dos estudos já realizados, Juarez conta que foi observado que as pessoas que recebiam outras vacinas e completavam com a Pfizer tinham melhor resposta imunológica e, por essa razão, essa vacina é indicada preferencialmente para o reforço. "Mas isso, de maneira alguma, indica que as outras vacinas são ruins", frisa. 

JANSSEN

Questionado sobre a Janssen, uma vez que ela foi apresentada como uma vacina de dose única e, agora, recomenda-se a dose extra (segunda dose), Daniel Gomes aponta que novos estudos com o imunizante indicaram a necessidade de mudança de estratégia. 

Uma das pesquisas revelou que a administração da segunda dose da Janssen potencializa a resposta protetora do organismo contra o Sars-Cov-2. Outro estudo indicou que a essa vacina perde cerca de 50% de sua capacidade de proteção após seis meses da aplicação. As demais têm perda menos acentuada, de no máximo 30%. 

Juarez Cunha acrescenta que a Janssen não pode mais ser tratada como uma vacina de dose única porque a dose de reforço é necessária. 

Nesse contexto de hesitação sobre as vacinas, que ganha escala devido a movimentos negacionistas, o presidente da SBIm reafirma que, independentemente do fabricante, todos os imunizantes no país são seguros e eficazes, e as novas estratégias visam prolongar a proteção. 

"É preciso estimular esse percentual de pessoas que ainda estão indecisas, que não tomaram a primeira dose, ou estão hesitantes sobre a segunda e o reforço. Do contrário, poderemos ter uma epidemia de não vacinados", adverte. 

Juares Cunha destaca que é necessário olhar a situação de outros países, como os da Europa que registram aumento de casos,  para não repetir os erros. "Vendo esses eventos de fora, é importante ficar claro que preconizamos a vacinação, é ela que está possibilitando a redução de casos, hospitalizações e mortes, mas não vai proteger integralmente. Por isso, é fundamental adotar também medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras e evitar ambientes fechados", finaliza. 

Atualização

9 de Dezembro de 2021 às 09:47

A Secretaria da Saúde (Sesa), por meio da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), atualizou, nesta quarta-feira (08 de dezembro), as recomendações para a aplicação da dose de reforço na população que recebeu a dose única da Janssen. Ficará válido em todo território capixaba o uso do imunizante Pfizer e AstraZeneca como opção à dose de reforço na indisponibilidade da vacina Janssen (esquema heterólogo) à população de 18 anos a 59 anos que recebeu a dose única no intervalo de cinco meses e de idosos acima dos 60 anos que receberam a dose única no intervalo de três meses (90 dias).

A definição é uma estratégia estadual em virtude do longo tempo para resposta por parte do Ministério da Saúde em relação ao envio necessário de doses da Janssen ao Estado para contemplar os 104 mil capixabas que receberam a dose única anteriormente. 

A medida está embasada em dados epidemiológicos, evidências científicas e discussões com especialistas da Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis no uso do sistema heterólogo entre imunizantes para a vacinação contra o novo Coronavírus (Covid-19).

Entretanto, havendo doses da Janssen disponíveis, o reforço homólogo poderá ser feito para quem tomou a dose única, com exceção das gestantes e puérperas que devem ser imunizadas com a Pfizer. 

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