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Corpo, voz e ancestralidade pautam debate sobre estética negra na Rede Gazeta

Corpo, voz e ancestralidade pautam debate sobre estética negra na Rede Gazeta

Encontro aprofundou como a produção artística negra constrói narrativas, reafirma identidades e ressignifica imaginários. O evento está em sua terceira edição e reuniu artistas, pesquisadores e público em geral para reflexões.

Vida Flor

Estagiária - Comunicação Institucional / [email protected]

Publicado em 18 de novembro de 2025 às 16:21

Roda de conversa “Coisa de Preto” promovida pela Rede Gazeta
Roda de conversa “Coisa de Preto” promovida pela Rede Gazeta Crédito: Vitor Jubini

Corpo, voz e arte como parte da estética negra pautaram o terceiro encontro da roda de conversa “Coisa de Preto”, realizado nesta segunda-feira (17) na Rede Gazeta. Firmado como um espaço de resistência e celebração da produção artística negra capixaba, o evento reuniu convidados de diferentes linguagens para discutir como as manifestações culturais constroem narrativas, fortalecem identidades e redefinem imaginários.

O debate contou com a participação de Isabella Baltazar, curadora, idealizadora do projeto “Letra Preta – Escrita e Imaginações” e doutora em Literatura; Irineu Ribeiro, artista plástico e especialista em Arteterapia e autor do monumento à comunidade negra capixaba, intitulado Guerreiro Zulu, que fica em frente a Assembleia Legislativa do Estado (Ales); o maestro e pesquisador Eduardo Lucas, diretor-presidente do Instituto Cultura Viva; e a artista visual, educadora e pesquisadora Yasmin Cerqueira. A mediação foi conduzida pelo repórter João Barbosa, do Núcleo de Reportagens e Conteúdos Especiais de A Gazeta.

Ao longo da conversa, os convidados refletiram sobre a estética negra como linguagem e ferramenta política, destacando de que forma corpo, memória e ancestralidade atravessam suas trajetórias e práticas artísticas.

Isabella ressaltou que seu trabalho é atravessado por múltiplas expressões e por uma perspectiva que une identidade, militância e criação. “Existe um compromisso muito caro. Nosso trabalho parte desse lugar que a gente ocupa, dessa história que é violenta, que tem vínculos quebrados tanto com a ancestralidade quanto com a descendência. Meu fazer artístico nasce dessa dor, mas também da potência”, afirmou.

Nascida em Vitória e criada na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Yasmin compartilhou como sua produção visual revisita memórias afetivas e ressignifica o passado. “Toda vez que eu pintava sobre a minha infância, revivia esse tempo no presente. A memória tem esse poder. Entendendo o passado e vivendo o presente, consigo construir um futuro”, disse. Para a artista, a educação tem papel fundamental nesse processo: “É ensinar a história que foi apagada, ensinar para além da narrativa única e tradicional, reconhecer a ancestralidade e a cultura negra, que é muito rica no Espírito Santo.”

Arte como ferramenta política e instrumento de memória

Responsável pelo monumento em homenagem à comunidade negra capixaba na entrada da Assembleia Legislativa do Estado, o artista plástico Irineu Ribeiro destacou a arte como instrumento de memória e espiritualidade. Ele explicou que sua produção busca dar visibilidade ao corpo da mulher negra, frequentemente apagado das representações artísticas. “Com a argila das paneleiras, um ícone da nossa cultura ligado à ancestralidade, faço esculturas de mulheres negras. Essa é minha forma de militar e tornar visível esse corpo. É dizer: nós resistimos e estamos aqui”, afirmou.

A presença negra que resiste

O maestro Eduardo Lucas, fundador da Orquestra da Quebrada, refletiu sobre como sua pesquisa acadêmica o aproximou de saberes populares e de uma compreensão mais profunda do corpo como fonte de conhecimento. “A voz e a arte são expressões do corpo. Uma das poucas fontes que resistiu para pretos e pretas ao longo da história foi o próprio corpo. Institucionalmente, o Brasil não registrou e não preservou a memória pública do povo preto”, destacou.

Ele lembrou que, apesar do apagamento, a cultura negra encontrou caminhos próprios de permanência: “Registramos nossa memória nos terreiros, nos quilombos, nas religiões afro-brasileiras, em todos os espaços onde nossa ancestralidade pôde sobreviver.”

Ao final, a roda de conversa reforçou a importância de manter vivos esses espaços de escuta, diálogo e afirmação da identidade negra. Entre memórias, afetos e perspectivas, os convidados mostraram como a arte segue sendo um território de resistência, criação e futuro, um lugar onde a ancestralidade não só permanece, mas inspira novas narrativas.

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