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Publicado em 20 de novembro de 2025 às 10:03
Memória e resistência. Essas palavras definem alguns espaços que simbolizam a história preta do Espírito Santo. A Gazeta foi até o Centro de Vitória para conhecer um circuito histórico que resgata parte da luta enfrentada pela população negra capixaba. O roteiro conta com cinco paradas que narram o contexto vivido por esse grupo desde a época da escravidão até os dias atuais (veja no vídeo acima). >
O ponto de partida é a Igreja do Rosário dos Pretos. Depois, segue para a Escadaria Maria Ortiz e passa pelo monumento à Dona Domingas, próximo ao Palácio Anchieta. O trajeto continua em direção ao Museu Capixaba do Negro (Mucane) até chegar à Casa Iemanjá, na Vila Rubim. O historiador, mestre em Estudos Urbanos e pesquisador da cultura capixaba e de manifestações populares brasileiras Marcus Vinicius Sant’Ana é quem reconta os fatos e narra as histórias por trás desse circuito.>
A Igreja do Rosário dos Pretos foi fundada no século 18 e tem importância histórica por ser um lugar onde negros escravizados podiam exercer sua fé católica. O templo religioso era inicialmente dedicado a Nossa Senhora do Rosário e, depois, a São Benedito. As imagens adoradas geravam identificação com esse grupo, justamente por serem figuras religiosas representadas por pessoas negras. >
Um acontecimento marcante envolve a Igreja. Em 1833, há relatos do roubo da imagem de São Benedito do Convento de São Francisco e sua chegada à Igreja do Rosário. Esse episódio deu origem às famosas disputas entre os membros das irmandades, conhecidos como peroás e caramurus.>
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A instituição teve um forte papel na luta pela liberdade dos escravizados por meio da casa de leilão, construção erguida ao lado da igreja, onde objetos de valor doados à instituição eram leiloados e o valor arrecadado era destinado para a compra de cartas de alforria, destinadas a oficializar a libertação de pessoas escravizadas. De acordo com o historiador e pesquisador Marcus Vinicius Sant’Ana, com o tempo, a igreja passou a ser mais do que um local religioso e se tornou um espaço voltado às pessoas pretas da cidade. >
“Nós temos aqui dois símbolos disso. A casa de leilão, que era um local onde a igreja vendia e leiloava tudo o que recebia de doação e esse dinheiro era revertido em compras de carta de alforria, e o cemitério. Inicialmente, as pessoas eram enterradas em igrejas, e os negros não tinham locais para serem enterrados. E aqui surgiu o cemitério do Rosário dos Pretos para que desse um enterro digno às pessoas de cor da cidade”, explica o pesquisador.>
A segunda parada do circuito é a Escadaria Maria Ortiz. O historiador relata que, até 1899, o local era conhecido como Ladeira do Pelourinho. O nome faz alusão ao antigo pelourinho da cidade, um espaço com uma estaca feita de madeira ou de pedra onde os escravizados eram amarrados para serem açoitados. O historiador destaca que, atualmente, não há nenhum tipo de placa ou sinalização que conte a história do que aconteceu nesse local, o que enfatiza o apagamento histórico do período de escravidão e da violência sofrida pela população negra no Espírito Santo e no Brasil. >
“O pelourinho estava localizado no alto dessa escadaria porque era a região central da cidade, cercada de igrejas. As pessoas vinham para cá para assistir aos escravizados serem castigados. Um local que era para ser de memória, hoje em dia é apagamento porque não existe menção nenhuma de que aqui existia o pelourinho da cidade”, destaca o pesquisador.>
Localizado aos pés do Palácio Anchieta, o Monumento à Dona Domingas foi inaugurado na década de 1970 e compõe a terceira parada do roteiro. A estátua de uma mulher pequena e cabisbaixa, segurando um pedaço de madeira e uma sacola em suas costas, representa Dona Domingas, uma mulher negra que viveu durante o século 20. >
“Dona Domingas andava pelas ruas da cidade catando papel e madeira. Ela revendia o material para o seu sustento e o que sobrava ela ofertava aos pavonianos, para serem rezadas missas em intenção aos escravizados que tinham partido”, conta o historiador.>
No local do monumento, também não há placas e nenhum tipo de sinalização que relate a história dessa mulher, nem mesmo informações sobre o seu nome. “Hoje o monumento é um símbolo de descaso com a história do povo preto capixaba. Não tem nenhuma menção de quem foi Dona Domingas, essa mulher que entrou para a história da cidade apenas com com suas andanças em silêncio, tornando-se um dos tipos populares de Vitória.”>
A rota tem continuidade no Museu Capixaba do Negro (Mucane), um espaço próximo ao Parque Moscoso reservado para o reconhecimento e a valorização da cultura, arte e história preta no Espírito Santo. O lugar homenageia a médica psiquiatra, mulher negra, militante e idealizadora do Mucane, Maria Verônica da Paz.
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“Um local que pudesse centralizar tudo o que fosse ligado ao povo preto do Espírito Santo. Algo que era idealizado pelo movimento negro capixaba desde a década de 1980. Esse sonho veio se materializar na década de 1990 com o Museu Capixaba do Negro. Aqui acontecem exposições, seminários e palestras, e tudo o que for ligado à cultura preta do Espírito Santo”, contextualiza o historiador. >
O circuito se encerra na Casa Iemanjá, na Vila Rubim. A loja é especializada na venda de artigos como defumadores, imagens de orixás e entidades, fio de contas e outras mercadorias usadas em ritos e celebrações de religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé. Historicamente, esses grupos são alvos de perseguição e do crime de intolerãncia religiosa. >
De acordo com o historiador, a região antigamente era conhecida como Cidade de Palha. “Esse local tornou-se um mercado na década de 1940, mas ainda informal, com diversas bancas espalhadas. Ele foi institucionalizado como Mercado da Vila Vila Rubim na virada das décadas 1960 e 70”, relembra o pesquisador. >
Em 1994, um acontecimento marcou os comerciantes e moradores da região. Um incêndio tomou conta de boa parte do mercado, deixando quatro mortos e 35 pessoas feridas. “No meio das chamas, uma imagem de Iemanjá apareceu intacta, tornando-se um símbolo significativo para o povo de matriz africana. A imagem segue como simbologia da casa e continua sendo um dos principais locais para encontrar artigos religiosos na Capital”, completa. >
A imagem de Iemanjá permanece de pé na entrada da loja. Na mitologia iorubá, Iemanjá é a orixá das águas foi quem ajudou a fertilizar a terra para que fosse ocupada pelos humanos.>
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