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Capixaba registra cenas raras da Via Láctea nas Cataratas do Iguaçu

O cachoeirense, que hoje mora na Bahia, escolheu então as cataratas do Iguaçu, no Paraná, para levar um grupo de onze alunos e captar, entre os dias 11 e 14 de março, a beleza do céu no local

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 13/04/2021 às 21h15
Fotógrafo capixaba registra estrelas e rastro da Via Láctea sobre as Cataratas do Iguaçu
Imagens noturnas revelam uma paisagem diferente . Crédito: Divulgação | Victor Lima

O astrofotógrafo capixaba Victor Lima, formado originariamente em Engenharia Civil, atua promovendo cursos e expedições fotográficas para registrar estrelas e belas paisagens. O cachoeirense, que hoje mora na Bahia, escolheu então as Cataratas do Iguaçu, no Paraná, para levar um grupo de onze alunos e captar, entre os dias 11 e 14 de março, cenas raras no céu do local. Esta foi a primeira expedição fotográfica noturna dentro do Parque Nacional.

Para explicar como foram feitas as fotos, ele explicou que foram usadas técnicas como a longa exposição, que é quando se captura a imagem por mais de um segundo. Também é feito uso de tripé, bem como de câmera que permita ajustes manuais de exposição. As lentes utilizadas são do tipo grande-angular, com abertura do diafragma bastante ampla (ou para quem entende: f2.8, f1.8, f4), fazendo capturas com o ISO (sensibilidade à luz) bastante alto e um sensor com ganho bastante elevado, já que o local é escuro.

O importante neste tipo de fotografia é o conjunto, unindo paisagem às estrelas. "Se chama 'Astrofotografia de Paisagem', nela a intenção é registrar os astros, de maneira geral, em conjunto com a paisagem do local em que se está fotografando", iniciou.

POR TRÁS DOS BASTIDORES

Para conseguir atingir o objetivo à noite, o astrofotógrafo precisou solicitar uma autorização especial para a administração do Parque Nacional do Iguaçu e para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de ter ficado hospedado no único hotel dentro da área do parque, junto aos pupilos.

A organização de todo o evento ficou por conta do profissional. "Ministro workshops e expedições fotográficas dentro e fora do Brasil. Essas capturas das cataratas à noite foram feitas dentro de um workshop que ministrei no Parque Nacional do Iguaçu. Buscamos um local com apelo cênico forte, com paisagens bonitas. O local é uma das sete novas maravilhas do mundo", afirmou.

Depois da escolha do local, Lima explica que é avaliada a qualidade do céu para capturas de astrofotografia. "E aí existem mapas de poluição luminosa em que é possível identificar, em uma escala de 1 a 7, a qualificação do céu. O nível 1 é o melhor céu possível, com poluição luminosa nula, como é o caso de um deserto como o do Atacama. O 7 seria o centro da cidade de Salvador ou de Vitória, por exemplo. São lugares com maior dificuldade de visualizar estrelas", acrescentou.

De acordo com ele, a gradação do céu no local fotografado, no Paraná, fica entre 3 e 4, como se fosse uma área rural. "Usamos mapas para identificar se nos lugares onde se pretende ir é possível a realização de fotografias desse tipo. Tendo identificado que é possível fazer as fotografias lá, deve-se escolher a melhor época do ano. Usamos alguns aplicativos que têm o mapa do céu dentro deles e que permite situar como se fosse a câmera um determinado ponto do globo, para saber o posicionamento dos astros em cada dia do ano, em determinados horários. É ciência exata, muito preciso", contou.

Outro fator determinante para encontrar o local ideal para fotografar é a questão do clima. Segundo Lima, o fotógrafo deve avaliar usando curvas de precipitação e nebulosidade ao longo dos anos, para saber se o local pretendido tem épocas específicas em que o tempo é mais firme, contando com menos nebulosidade e menos chuva.

Victor Lima

Astrofotógrafo

"Precisamos do céu limpo para fazer esse tipo de fotografia. Temos um planejamento bem minucioso para garantir que ao chegar no local haja boas chances de conseguir esse tipo de captura. Principalmente por serem locais distantes, que normalmente requerem viagens, não se pode arriscar chegar lá para depois ver se vai conseguir fazer foto ou não"

No caso das cataratas, o fotógrafo afirma que é um dos mais belos destinos naturais a se visitar no país e, por se tratar de um parque nacional, há no local um nível relativamente baixo de poluição luminosa.

"Para fazer esse tipo de imagem, é preciso se afastar das cidades e ir para um lugar que tenha uma característica de céu rural, que tenha pouca interferência da poluição da cidade. O Parque Nacional do Iguaçu é bastante grande e, apesar de estar próximo da área central de Foz do Iguaçu e da divisa com Puerto Iguazú, na Argentina, o céu permite esse tipo de captura, pela baixa poluição luminosa", descreveu o cachoeirense.

CORPOS CELESTES

De acordo com o observador experiente, nas fotografias como estas feitas das cataratas é possível visualizar uma série de corpos celestes e nebulosas — que são nuvens interestelares de poeira e gases.

"Vimos o arco da Via Láctea, planetas como Júpiter e Saturno, nebulosas de emissão (nuvens de gás com temperatura alta), entre outros. Através das câmeras a gente capta as nebulosas com uma coloração rósea, meio avermelhada. Há também nas imagens algumas estrelas importantes, como Antares (estrela supergigante vermelha) e galáxias mais distantes", pontuou Lima.

Fotógrafo capixaba registra estrelas e rastro da Via Láctea sobre as Cataratas do Iguaçu
Registro mostra braço da Via Láctea, Cruzeiro do Sul, nebulosa Eta Carinae, grande e pequena nuvens de Magalhães. Crédito: Divulgação | Victor Lima

Segundo ele, alguns desses elementos podem ser vistos inclusive a olho nu, em especial em locais de céu escuro, distante das grandes cidades. No entanto, não é possível enxergar os corpos da mesma forma que a fotografia permite, pois através da câmera é possível fazer exposições por tempo maior, usando câmera hipersensível, que acumula luz. "Já o olho humano trabalha em tempo real, não sendo capaz de acumular a luz. A gente consegue ter uma visualização desse céu, mas de maneira muito sutil, que não se aproxima do que mostramos nas fotografias, com mais detalhes, mais brilho e nitidez", disse.

É OU NÃO É MONTAGEM?

Segundo o astrofotógrafo, é muito comum que algumas pessoas pensem que esse tipo de fotografia é necessariamente fruto de montagem, mas isso não corresponde à verdade. Dentro da astrofotografia de paisagens há modalidades:

  1. 01

    O 'single shot', ou captura única

    Acontece quando a paisagem e o céu são capturados na mesma foto, o que foi o caso das imagens das Cataratas do Iguaçu. Este tipo permite também a fotografia panorâmica, que é quando se deseja ampliar o campo de visão e, para isso, é preciso fazer uma fotografia que tenha mais de 180 graus. Para fazer a panorâmica, geralmente com uma fotografia só não se consegue o resultado, então são feitas várias fotografias girando ligeiramente a câmera, para ampliar o campo de visão que quer cobrir. "Depois pega as imagens e costura para alinhá-las, colocando lado a lado, ficando mais estreita e esticada. São vários 'single shots' costurados para ampliar o campo de visão", definiu.

  2. 02

    Composição de imagens

    Normalmente, neste tipo de captura, o terreno acaba ficando escuro devido à falta de luz do local e o céu, pelo contrário, fica com exposição boa. Nesse caso é comum as pessoas fazerem capturas com tempo de exposição mais longo para o terreno, ou fazer em um horário mais cedo a foto, e depois manter o equipamento neste mesmo alinhamento, para quando escurecer fazer outra imagem pegando o céu todo escuro. Depois disso, são unidas as duas fotografias, mostrando o terreno de forma mais clara, em conjunto com o céu.

Fotógrafo capixaba registra estrelas e rastro da Via Láctea sobre as Cataratas do Iguaçu
Núcleo da Via Láctea foi registrado próximo ao mirante das Cataratas do Iguaçu. Crédito: Divulgação | Victor Lima
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