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Cultura pop

Madonna faz novamente a pista de dança de confessionário e mostra que o tempo pode ser o maior aliado de um artista

Continuação do disco lançado em 2005 promete atualizar imagem de Madonna para nova geração enquanto narra histórias da vida da cantora
Vinícius Viana

Publicado em 07 de Julho de 2026 às 08:00

Em novo álbum, Madonna recorre às pistas de dança em músicas eletrônicas com teor existencialista
Em novo álbum, Madonna recorre às pistas de dança em músicas eletrônicas com teor existencialista Rafael Pavarotti

Ter um álbum considerado um clássico da música na própria discografia não é para qualquer um. Revisitar o projeto e prometer uma continuação é um movimento ousado. Ousado até para a artista mais ousada de todos os tempos: Madonna. 


Afinal, os riscos são altos, a expectativa é grande e o espaço para erro é mínimo. Mas quando o assunto é a rainha do pop, pagar para ver é quase que uma máxima na longeva carreira dela e, felizmente, o “Confessions II” faz valer todo o investimento. 

Mas ante, um breve contexto: lançado em 2005, o “Confessions on a Dance Floor”, chegou em uma fase complicada na carreira de Madonna. O projeto foi o sucessor de “American Life”, um disco superpolítico, espinhoso e que rendeu à cantora uma série de boicotes na época, já que ela estava sendo supervocal ao criticar a Guerra do Iraque e os movimentos do presidente dos Estados Unidos da época. 

O que parecia ser, para muitos, um xeque-mate na carreira da Madonna, acabou convertido em um dos discos mais influentes da história recente do pop. O "Confessions original” sampleou ABBA (mesmo após Madonna ter declarado achar o grupo tedioso na década de 90), dominou as pistas com “Sorry”, ensinando como pedir desculpas em diferentes idiomas, e impactou visualmente uma geração que estava quase se cansando da imagem da artista. 

20 anos depois, o “Confessions” ocupa um espaço especial no coração dos admiradores de Madonna e, conscientemente ou não, influenciou notáveis projetos recentes, desde o “Future Nostalgia”, da Dua Lipa, até o “Hold the Girl”, de Rina Sawayama ou a trilogia dance de Jessie Ware (todos projetos com dedo do produtor Stuart Price, inclusive). 

Quando o assunto é a rainha do pop, pagar para ver é quase que uma máxima na longeva carreira dela e, felizmente, o “Confessions II” faz valer todo o investimento
Quando o assunto é a rainha do pop, pagar para ver é quase que uma máxima na longeva carreira dela e, felizmente, o “Confessions II” faz valer todo o investimento Rafael Pavarotti

Talvez seja a nostalgia ou talvez seja o contexto parecido na carreira de Madonna, que vem do conceitual, e um pouco instável, Madame X, e, assim como na época, também teve projetos cinematográficos cancelados (Madonna estava produzindo uma cinebiografia, mas engavetou o projeto que já tinha sido anunciado com Julia Garner interpretando a cantora). De qualquer forma, a ideia surgiu, a concepção ganhou forma e o anúncio gerou dúvidas: é possível manter a qualidade do primeiro “Confessions”? 

O disco original tem muitos pontos ao próprio favor e o principal é o tempo. 20 anos é idade suficiente para que um projeto possa respirar, construir uma conexão afetiva com o público e ser entendido de diferentes formas. Essa relação de apego torna a decisão de conduzir uma sequência do primeiro álbum muito arriscada porque os fãs mais religiosos vão se manter na euforia de sentir algo muito parecido as faixas que já se tornaram marcantes na carreira de Madonna e àqueles que não se envolvem tanto com a carreira da artista vão procurar por comparações a qualquer custo, a fim de descredibilizar o projeto. 

Entretanto, se o Confessions "original" tem 20 anos de lançado, Madonna tem 40 anos de carreira e, da mesma forma que o tempo é o maior aliado do primeiro disco, esse mesmo fato é o que torna o “Confessions II” um disco tão potente. E o motivo já é dado logo de cara por Madonna na faixa “One Step Away”: “as pessoas pensam que a música dance é superficial, mas elas entenderam errado. A pista de dança não é apenas um lugar, é um portal".

A artista islandesa Bjork, e que, querendo ou não, trabalhou com Madonna na faixa “Bedtime Story”, já havia dito algo parecido sobre a música eletrônica. Para ela, engana-se quem pensa que o gênero não tem alma ou profundidade por ser feito majoritariamente no computador. Nas palavras de Bjork, “se a música não tem alma, é porque ninguém a colocou ali". 

O “Confessions II” é, portanto, uma prova sonora de que as batidas eletrônicas ou a pista de dança podem ser elementos e espaços de reflexão, autocrítica e existencialismo. Se o primeiro disco vem de uma Madonna conflituosa com a própria carreira, precisando, mais uma vez, se provar no mundo da música; aqui, temos uma Madonna introspectiva com os acontecimentos de duas décadas, relações familiares e muita atenção ao cosmo. 

“The Test”, por exemplo, é mais uma conversa com a própria filha Lola Leon do que uma música propriamente dita. As duas parecem estar discutindo e resolvendo a própria relação diante dos nossos ouvidos e da produção de Stuart Price. “Danceteria” é uma Madonna relembrando o início da carreira e as noites que passava na boate de mesmo nome em Nova York, nos Estados Unidos. E “School” é a artista admitindo que não gosta apenas de ensinar, mas também é louca por aprender.

Isso é o que difere Madonna da maioria das artistas, e o que permite que um artista possa continuar fazendo arte, independentemente dos anos de carreira. A atenção por adquirir novos conhecimentos e se permitir estar aberto para as mudanças do mundo ao redor dá peso e a possibilidade de contar novas histórias. 

A parceria com Sabrina Carpenter, “Bring Your Love”, por exemplo, é Madonna mostrando que está de olho no novo universo pop e nas artistas que seguem surgindo nos charts. É um aceno à nova geração, mas com a essência de Madonna somando forças com a visão mais moderna de Sabrina. 

O resultado, depois de 16 faixas presentes na versão disponibilizada nas plataformas digitais, é um projeto potente e que soa exatamente como prometido: uma continuação. O Confessions II não busca replicar o que deu tão certo no primeiro disco, o que seria o caminho mais fácil. Muito pelo contrário. Madonna assume todos os riscos, mas com o controle da experiência de uma veterana que não está a tanto tempo no mundo da música à toa. 

A artista mostra que 20 anos é tempo suficiente para construir novas histórias e se confessar novamente no espaço que, para ela, é o mais sagrado de todos: a pista de dança. E se em Hung Up ela já cantava sobre como o tempo passa de forma devagar, o “Confessions II” torna o tempo um personagem principal de uma história que mostra que ele passar não é o problema, na verdade, isso pode ser a solução. O problema é se prender a ele, e sabemos que isso não foi o que tornou Madonna na rainha do pop.

Madonna - Confessions II
Madonna - Confessions II Rafael Pavarotti

  • Artista: Madonna
  • Álbum: Confessions II 
  • Lançamento: 03 de julho de 2026
  • Gênero: EDM/House/Dance Pop/Synth Pop/Disco
  • Gravadora: Warner

Nota: 9/10

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