O quanto de ficção é preciso para que seja possível suportar a realidade? Desde o dinheiro e às leis até a arte e literatura, o ser humano usa da imaginação como forma não só de se organizar em sociedade - mas também para sobreviver quando a vida parece dura demais.
Essa foi a pergunta que norteou o debate levantado pelo baiano Itamar Vieira Junior, neste último sábado (04), no Sesc Glória. Em sua primeira visita a Vitória para falar de literatura, o autor de obras como “Coração sem medo”, “Salvar o fogo” e “Torto Arado” - este último com mais de 1 milhão de cópias vendidas - trouxe a palestra “Ficção ou realidade?”.
No debate, falou sobre como narrativas literárias, ainda que fictícias, fazem sucesso pela semelhança com nossas próprias vivências.
Na hora de aprender mais sobre vivências e tradições indígenas, por exemplo, podemos recorrer a pesquisas e teóricos. Mas porque escolhemos a literatura, se ela não tem esse compromisso com a verdade?
Itamar Vieira Junior Escritor
"A literatura dá conta de uma dimensão subjetiva da vida, a dimensão das emoções, dos sentimentos, das contradições. Por isso, ela é um meio importante para repensar o país e refletir sobre a nossa história, sobre a nossa trajetória", complementa.
Início na escrita
Em um bate-papo com os fãs na palestra, Itamar falou sobre sua relação na escrita, que começou ainda na infância, passada em Salvador, na Bahia. O autor, inclusive, é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
“Eu aprendi a ler e comecei a escrever. Me alfabetizei cedo, com cinco anos e meio, por uma vizinha que era professora. A leitura me encantava e eu tinha vontade de escrever histórias parecidas com as que eu lia. Falo isso, mas sem querer dizer que era um dom ou uma predestinação. Acho que tudo é habilidade, que podemos desenvolver ou não ao longo da vida”, conta.
Em suas obras, Itamar retrata, principalmente, a relação do homem com o território, abordando temas sociais, conflitos de terra e a luta pela sobrevivência. E a escolha pelos temas não é feita por acaso.
“Meu pai foi criado pelos avós paternos dele, que eram agricultores sem terra que passaram por imensas dificuldades. Muitos de nós não tiveram essa oportunidade de ter suas histórias registradas da maneira que deveriam, com fotografias, documentos, a família falando abertamente sobre isso. Todo mundo quer saber de onde vem, não é? E para mim, a literatura ocupou esse lugar de recriar mundos”, complementa.
Além disso, o escritor atribui boa parte de seu processo criativo à experiência vivida como servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), período em que trabalhou tanto no Maranhão quanto no interior da Bahia.
Foi no interior que as pessoas me relataram como era a vida nesses lugares. Assim, unindo a literatura com a vida real, fui me permitindo a reimaginar essas histórias.
Itamar Vieira Junior Escritor
"Por isso, também me preocupo em não abordar esses relatos pela tragédia, mas sim como uma recordação de que, apesar de tudo, a vida continua, e continua com luta, mas também com festa, celebração, dor e amor", afirma.
Dicas para escritores
E, para quem quer escrever, o recado foi claro: “Não há atalho. Para escrever é preciso ler, porque nossa ferramenta de trabalho é a linguagem E aí é importante que se leia, leia tudo, leia coisas diferentes, que é para você encontrar sua voz, sua maneira de escrever”, afirma.
Por fim, o autor ainda elencou três habilidades necessárias a quem quer começar a pôr as ideias e sentimentos no papel.
Primeiro, a capacidade de observar o mundo à nossa volta, pois o escritor precisa ver além do óbvio. Em segundo, treinar a capacidade de evocar memórias: como é que se corre, como é que se chora, como é que se come, o que é sentir fome, o que é sentir dor, o que é ter coragem? Todos nós carregamos essas memórias e vamos precisar evocá-la para transmitir a verdade. E, por último, a capacidade de imaginar.
Itamar Vieira Junior Escritor