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Dia Nacional do Livro: leitores dão dicas de como enfrentar obras extensas

Com mais tempo livre na pandemia, capixabas aproveitaram para 'devorar' os livros. Eles contam como iniciar bem e evoluir na leitura

Rede Gazeta
Publicado em 29/10/2020 às 06h00
Atualizado em 29/10/2020 às 17h49
A jornalista e professora de linguagem Rayza Fontes leu 80 livros durante a pandemia
A jornalista e professora de linguagem Rayza Fontes leu 80 livros durante a pandemia. Crédito: Instagram/@rayzagfontes

Nesta quinta-feira, 29 de outubro, é comemorado o Dia Nacional do Livro. Neste ano, ele deve mais do que nunca ser enaltecido. Afinal, o objeto se tornou de extrema importância para as pessoas que se viram "presas" em casa por conta da quarentena estipulada para combater o novo coronavírus.

Com o "tempo livre", leitores capixabas aproveitaram para se aprofundar no lazer da leitura e enfrentaram livros extensos. Um exemplo é a historiadora Renata Costa, que está lendo "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves.

A obra tem mais de 900 páginas, o que para ela é tranquilo de ler, afinal a leitura foi incentivada desde cedo em casa. Além disso, a história sobre a africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas, deixou a historiadora curiosa.

“A pandemia adensou meu interesse pela ficção científica e pelo afrofuturismo, estilos que aguçam a sensibilidade para mundos inventados com novos seres, narrativas e pessoas. [O livro] 2024, de Octavia Butller, por exemplo, pode parecer muito distante de nós, mas aborda temas muito caros ao nosso momento atual, como uso da água e o desemprego”, conta.

A historiadora Renata Costa, que está lendo
A historiadora Renata Costa, que está lendo "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves. Crédito: Acervo pessoal

Muitos devem pensar que introduzir a leitura no cotidiano parece tarefa difícil, mas algumas técnicas podem aperfeiçoar a satisfação em estar acompanhado por um livro. A primeira é reconhecer a importância de ler como parte da experiência humana e valorizá-la, defende a doutora em Educação e mestre em Linguagem Andrea Grijó.

O valor da leitura, segundo ela, está presente em todas as sociedades que se organizam culturalmente pela escrita pois dominar o idioma torna-se essencial para o exercício pleno da existência. O poder da leitura ativa está em incentivar a participação da vida em sociedade e o acesso ao patrimônio cultural, levando à emancipação dos sujeitos.

“Antes de tudo, não devemos falar em hábito de leitura. Hábito é algo com que você se acostuma e nem sabe mais porque faz. Não é assim que se formam leitores. Enquanto tratarmos a leitura como hábito, teremos dificuldade de compreender que podemos nos tornar leitores em qualquer etapa da vida”, explica Grijó.

Reconectar-se a leituras passadas foi a artimanha encontrada pela jornalista e professora de linguagem Rayza Fontes, para evoluir enquanto leitora. Ela conta que leu, no mínimo, 80 livros nesse período.

Um deles é "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. A obra conta com 4.215 páginas divididas em sete volumes e atiçou o lado devorador de livros da jornalista.

“A pandemia me tirou do piloto automático da correria do dia a dia e me mostrou uma oportunidade de retomar antigos hábitos. Eu voltei a ser a leitora voraz, ansiosa para a próxima descoberta literária, que podia ser quando mais jovem e tinha mais tempo. Na pandemia, pude fazer releituras transformadoras, ler de novo histórias clássicas, que ainda não tinham terminado de dizer tudo que poderiam. É muito interessante revisitá-las e poder descobrir coisas novas que passaram desapercebidas na primeira vez”, completa.

O mestre em Estudos Literários Thalles Zaban destaca que o imediatismo é inimigo do prazer de ler. “Hoje existe uma cultura, que nasce nas escolas, de que os livros devem trazer um resultado imediato. Isso não existe na esfera do conhecimento, não se quantifica a inteligência em números de retorno. Ler é uma competência que deve ser incentivada pelas leituras de fruição, que são aquelas fáceis, que divertem e aproximam as pessoas do hábito", comenta.

"Além disso, também é importante inserir leituras complexas, aquelas que abrem a mente para questões existenciais e sociais, e que têm fortes referências literárias. Isso faz com que a competência evolua e o prazer aflore”, reforça.

AUMENTO NOS NÚMEROS

Antes da pandemia, reservar tempo para mergulhar num livro parecia difícil até para os leitores mais apaixonados. Na última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, cujos resultados foram apresentados há um mês, os brasileiros indicam a falta de tempo como um dos impeditivos para leitura.

Com as medidas de isolamento social adotadas em combate ao Covid-19, à contramão dos eventos sociais tradicionais no cotidiano do brasileiro, as pessoas se viram em casa, e parecem ter se lembrado de um velho amigo que mora na estante.

A retomada do interesse pelos livros se confirma quando observados os dados do 10º Painel de Varejo de Livros no Brasil, pesquisa feita pelo instituto Nielsen em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, SNEL. O comércio varejista de literatura atingiu o pico anual no mês passado, com alta de 25,63% no volume de exemplares vendidos.

Neste mês de outubro, houve uma elevação de 4,73% no faturamento e de 7,31% no volume de livros em comparação ao mesmo período de 2019. Por outro lado, infelizmente, a pandemia ainda se faz presente no setor, que permanece com queda no valor acumulado em faturamento e volume de 5,26% e 4,68% respectivamente em relação ao ano passado.

Introduzir a leitura no cotidiano parece tarefa difícil, mas algumas técnicas podem aperfeiçoar a satisfação em estar acompanhado por um livro. As fontes ouvidas nesta matéria sugeriram livros e deram dicas para você se apaixonar de vez pela leitura.

NO MOMENTO ESTOU LENDO...

  • Thalles: Dom Quixote de la Mancha, do escritor Miguel de Cervantes, 1605
  • Nesse clássico da literatura o leitor conhece a história de Dom Quixote, um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis preferidos. O romance narra as suas aventuras em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro, que tem uma visão mais realista. “Este é um exemplo de livro clássico que gera novas constatações a cada novo encontro”, conta o professor.
  • Renata: ‘Um Defeito de Cor’, da escritora Ana Maria Gonçalves, 2017, Editora Record
  • A história, que será adaptada para a televisão, conta a história de Kehinde, trazida ao Brasil de Daomé, na Costa do Marfim. O leitor acompanha a trajetória da personagem em uma narrativa que alia história e ficção. O diferencial, segundo Renata, está nas imagens líricas que a autora cria com cadeias associativas de palavras, formando composições belíssimas, ainda que para descrever atos de mais puro terror.
  • Rayza: ‘A vida secreta dos escritores’, do escritor Guillaume Musso, 2020, Editora L&PM
  • Numa história de ficção com crime, suspense e mistério, o escritor bestseller francês Guillaume Musso conta uma história cheia de reviravoltas envolvendo escritores e suas obras.

EU INDICO...

  • Thalles: “Só um livro? Eu indicaria vários livros, todos os livros do mundo (risos)!” Depois de muito pensar, Thalles delimitou um autor para indicar à reportagem. “a literatura dos países lusófonos – que tem no português sua língua nativa, como Moçambique e Angola – tem muito a acrescentar. Podemos ler suas histórias em um idioma compartilhado, o que cria uma identificação e um senso de pertencimento. Indico Mia Couto, autor moçambicano, que possui um lirismo influenciado pela literatura brasileira, porém com uma abordagem única.”

Rayza: “Indico ‘A Menina da Montanha’, a história real de uma americana que, privada pelo pai de conviver em sociedade, só pisou numa sala de aula pela primeira vez aos 17 anos. O livro a acompanha até a conquista do doutorado em Cambridge. É um ótimo exemplar para leitores iniciantes, pois tem uma narrativa gostosa e uma história eletrizante."

Renata: “Indico livros que possam aguçar o interesse sobre a realidade ou a história. Para nos descolonizarmos também precisamos recriar o mundo, repensá-lo. Ficção e não ficção, para mim, andam lado a lado, por isso indico o livro que estou lendo, ‘Um defeito de Cor’ de Ana Maria Gonçalves e o exemplar ‘Negros do Espírito Santo - Coleção do Arquivo Público Estadual’. Não me esqueço do deste no Palácio Anchieta: todos os exemplares esgotaram! Com boa qualidade e repleto de fotos ao lado dos textos, temos ali um exemplo de que há demanda no mercado por livros documentais.”

*Taisa Pereira é aluna do 23° Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação do editor Erik Oakes.

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