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Artistas trans, capixabas Dan Abranches e Nick Cruz falam sobre suas experiências na vida e na música

Em conversa com o "Divirta-se", cantores comentam do preconceito que sofrem a como veem a cena cultural capixaba, além de falar sobre novos projetos

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 13/06/2021 às 08h00
Na esquerda, Dan Abranches. Na direita, Nick Cruz
Na esquerda, Dan Abranches. Na direita, Nick Cruz. Crédito: Magu/Bleia

O Brasil não é um país no qual os transexuais vivem em segurança. De acordo com boletim da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram 56 assassinatos somente nos primeiros quatro meses de 2021, sendo 54 de mulheres trans/travestis e dois de homens trans. O documento foi divulgado no dia 13 de maio.

Um outro dado alarmante diz respeito ao Espírito Santo, que, de acordo com dados de 2017 da mesma instituição, figura entre os dez piores estados para ser trans no país. O ES apresenta uma taxa de assassinatos de 9,51 para cada cem mil habitantes, estando em quinto lugar no ranking. O levantamento foi feito a partir de uma pesquisa baseada em matérias de jornais e mídias vinculadas na internet.

Os dados confirmam a intolerância e o preconceito que persistem em nosso país (e Estado), tornando a expectativa e qualidade de vida dessas pessoas muito inferiores em relação a de homens e mulheres cisgênero, ou seja, que se identificam com seu gênero de nascimento.

VIVÊNCIA NA ARTE

No entanto, em meio à violência, a população trans se faz resistência. Neste mês do Orgulho LGBTQIA+, o "Divirta-se" conversou com dois artistas trans capixabas, Dan Abranches e Nick Cruz, para conhecer suas vivências e percepções sobre a realidade capixaba, seja em sociedade ou mesmo no mundo da música. 

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Com relação ao tema transexualidade, ambos se dizem tranquilos. Dan conta que seu momento de revelação pública ocorreu no programa "The Voice", da Rede Globo: “Nessa hora, assim, não foi difícil, não, porque foi na surpresa. Depois tem suas dificuldades, mas nada absurdo”, detalha.

Nick, por sua vez, fazia parte da música quando fez sua transição: “O mais difícil foi descobrir o processo, eu não tinha nenhuma referência trans na vida, até que morei com um rapaz que era trans e eu ainda tinha muitos preconceitos enraizados. Até então, me afirmava como uma mulher cis-lésbica. Quando morei com esse rapaz, pude ter noção, e, aí sim, receber conselhos e tudo mais, saber como eu poderia desenvolver o processo de transição”, relata, abrindo sua intimidade.

O artista Nick Cruz
O cantor Nick Cruz diz sempre ter falado sobre a sua identidade de gênero com muito orgulho. Crédito: Bleia

Os artistas trazem sua potência cada um à sua maneira. Abranches, que participou do reality global em 2019, tem um som com pegada R&B, com diversas canções em inglês, além de trabalhos recentes que caminham pela MPB. Já Nick Cruz vem com o pop, toques de hip hop e funk, em suas produções.

No mercado musical, ambos têm crescido e concordam que o ambiente artístico é acolhedor para as pessoas LGBTQIA+, em contraste com outros mercados de trabalho.  Dan, porém, faz uma ressalva. O cantor natural de Cachoeiro de Itapemirim conta ter sofrido preconceito na cena local.

Dan Abranches

cantor

"Rola muito apagamento, mais do que insulto, uma coisa de a pessoa vir te insultar, é simplesmente dela ignorar a sua existência"

Ainda nesse sentido, Nick comenta acreditar que, para as mulheres trans, é mais complicado: "Tenho certeza que, para as mulheres trans, é muito difícil, muito mais difícil do que para homens trans hormonizados, principalmente pela nossa 'passabilidade'". Linn da Quebrada, cantora trans, é inclusive um dos símbolos de resistência que Cruz e Abranches citam como inspiração.

Nick ainda cita Liniker, Gloria Groove e Lia Clark: “São pessoas que me inspiram muito, diariamente”, pontua. Abranches traz uma referência do ES: “Aqui no Estado, por exemplo, eu admiro demais a Afronta, que é uma rapper. Acho ela muito importante para o Estado, porque a gente está começando uma movimentação agora, não era uma coisa que existia antes. A gente está tendo mais espaço, eu acho, porque estão aparecendo mais pessoas também”, comenta sobre a cena capixaba.

Se aprofundando no mercado do Espírito Santo, Dan diz que a cena, apesar de pequena, é bem diversa e versátil. “Acho que não falta representatividade, acho que falta espaço, estrutura, porque tudo é muito pequeno. A gente ainda não tem a estrutura para fazer o melhor”, afirma.

Mas Abranches também pontua que o público dos artistas LGBTQIA+ é muito de nicho e reduzido, “Essa outra galera daqui não consome a nossa arte, é uma barreira a se quebrar. E é aquela coisa, os artistas acabam ficando em um corte muito pequeno e não conseguem alcançar coisas novas”, comenta sobre a população mais conservadora do ES. Para o músico, uma melhora seria possível a partir de uma maior veiculação da mídia sobre os artistas locais.

Dan Abranches no clipe de
Relando maior visibilidade para a cena local, o cantor Dan Abranches diz que é uma minoria no Estado que acessa a arte capixaba. Crédito: Divulgação

Pensando ainda a questão de espaço, surge o mês que dá visibilidade à causa LGBTQIA+ como pauta. Cruz, que acredita que ser um músico trans capixaba que simboliza resistência, fala a respeito do período. “Representa muita luta e de fato uma luta que está muito longe de acabar. Mas representa também muito orgulho da gente ter chegado até aqui e sempre colocando a cara, sem ter medo”.

Dan Abranches traz a visão sobre a data, de que ainda existe pouca visibilidade trans nas comemorações do mês. “Eu nem acompanho mais, fico triste, são sempre as mesmas pessoas, não vejo a gente ganhando muito espaço nem no nosso próprio meio, que deveria ser um pouco mais acolhedor. Então é isso aí, se nem no nosso próprio meio abre, dificilmente os outros abrirão”, critica.

MÚSICA E RESISTÊNCIA

É através de suas canções que os artistas levam as suas vivências aos ouvintes. Nick lançou recentemente a música “Sol no Peito”, onde fala abertamente sobre a experiência de ser um homem trans. Na letra, o cantor traz a questão do medo que as mães sentem por seus filhos, devido ao preconceito da sociedade, os detalhes do processo de transição e a angústia de viver sendo julgado.

“Olha, foi um mega processo, a gente ficou uns quatro, cinco messes preparando a música, porque, por ela ser muito íntima, saiu muito do meu jeito. Eu sou uma pessoa, assim, eu saí de casa cedo, tenho muito rancor de algumas coisas, de pessoas, de violências que sofri na rua, então quando coloquei ‘Sol no Peito’ para fora, ela era outra canção, era uma canção agressiva, cheia de rancor, de ódio, até o BPM da música era diferente ”, conta o artista sobre a composição, que foi fechada com a transmutação desses sentimentos relatados pelo cantor. Ele relata que tem recebido muitos retornos de identificação com a música, inclusive de mães que sofrem pelos seus filhos.

Diferentemente de Cruz em sua mais recente canção, Dan, que já lançou três músicas de seu novo álbum “Titan”, conta que fala sobre suas experiências de forma mais indireta em sua poesia.

“Ele é legal porque fala especificamente sobre transição, lógico que de um jeito um pouco mais poético, eu não costumo falar diretamente. Mas ele fala sobre transição, libertação e os preconceitos também”, comenta sobre o novo trabalho, com previsão de lançamento completo para o final de agosto. Esse disco será o primeiro do cantor que também chegará de forma física.

"É um álbum importante porque, basicamente, estou fazendo ele mais para outras pessoas trans também se identificarem e se verem ali. E é um álbum que estou fazendo questão de chamar o máximo de pessoas trans também para trabalhar comigo, nas participações em vídeo, em tudo que eu puder”, pontua, comentando que, entre essas pessoas, estão Pe Lopes, Afronta e MK Paiva.

Na última sexta-feira (11), Dan laçou a terceira música do álbum, que será composto em sua maioria por faixas em inglês. "Come" foi feita em parceria com Pe Lopes. 

Com toda essa potência, vale ficar de olho nos lançamentos que virão dos artistas. Nick adiantou que nos próximos meses lançará novos singles. 

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