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Chico Buarque assiste ao ensaio da peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso
Chico Buarque assiste ao ensaio da peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso. Crédito: Arquivo Estadão

50 anos do AI-5: Teatro foi importante na revolta contra o regime

Mesmo sob a violência da censura e da repressão, teatro brasileiro foi implacável . No ES, capixabas usaram criatividade para encenar peças emblemáticas

Publicado em 17/12/2018 às 16h32

* Texto foi publicado originalmente em 2014

Pode-se pensar que boa parte da produção artística engajada e revolucionária realizada durante a ditadura militar nasceu como uma resposta à repressão das liberdades. No teatro, no entanto, esse movimento despertou anos antes do Golpe de 1964. Desde a década de 1950, as peças encenadas no Brasil começaram a incorporar preocupações sociais e a retocar seus recursos dramáticos com posturas políticas.

"Eles Não Usam Black-tie" (1958), do ítalo-brasileiro Gianfrancesco Guarnieri, já abordava, por exemplo, a vida dos operários enquanto problema social, e não no sentido de fazer simplórias caricaturas das classes menos abastadas. A peça, encenada pelo Teatro Arena, ficou um ano em cartaz em São Paulo, fato inédito até então.

O que aconteceu, a partir do decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, que encrudesceu o regilme com a suspensão dos direitos constitucionais – entre eles a livre expressão –, foi uma radicalização das posturas já dotadas pelo teatro – tema da quarta e última matéria especial do C2 sobre a produção artística durante a ditadura, que integra uma série de reportagens sobre os 50 anos do Golpe Militar, publicadas em 2014, no jornal A Gazeta. Todo esse material foi republicado no Gazeta Online, em 2018, devido aos 50 anos do AI-5, completados no último dia 13 de dezembro.

Nesse contexto, destacaram-se os grupos Oficina, comandado pelo icônico José Celso Martinez, e o já citado Arena, cria de Augusto Boal. Os dois dramaturgos foram para o exílio (em 1974 e 1969, respectivamente), sintoma da vitória provisória do regime militar sobre as manifestações artísticas pós-AI-5.

De todo modo, antes de sua aniquilação, o teatro brasileiro atormentou continuamente os princípios autoritários da ditadura. Por seu imediatismo intrínseco – o aqui-agora do palco –, foi uma grande arma catalisadora de descontentamento.

Chico Buarque foi presença constante naquelas movimentações. Escrita por ele em 1967, "Roda Viva" foi um grande sucesso no ano seguinte, sob a direção de José Celso Martinez. Como protagonistas da primeira temporada estavam Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro.

No ensaio geral para a censura, segundo afirmou José Celso ao jornal "O Globo", tudo correu bem. "No dia do ensaio, nenhum censor olhou para a peça. Eles só queriam olhar para o Chico, para aqueles olhos! E o texto foi aprovado", brincou. Apesar do sucesso no Rio de Janeiro, o espetáculo foi invadido pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) em São Paulo e Porto Alegre, que destruiu o palco e agrediu os atores.

"Arena Conta Zumbi" (1965), de Augusto Boal, foi outro pilar revolucionário. Marco do Teatro Arena, o espetáculo não só alterou a estrutura tradicional da dramaturgia, como impeliu, apenas um ano após o golpe, um teor mais crítico às peças. Em 1966, o espetáculo seria encenado no Espírito Santo. "O Rei da Vela" e "Morte e Vida Severina" também ficaram no imaginário brasileiro como símbolos de resistência.

Quem se manifestava de maneira favorável àquelas criações também sofria perseguição dos militares. O português João Apolinário (1924-1988), poeta e crítico de teatro, veio para o Brasil para fugir da ditadura portuguesa. Aqui, percebeu a necessidade de apoiar o teatro de protesto.

“O Rei da Vela” foi expoente do teatro de protesto. Crédito: Funarte
“O Rei da Vela” foi expoente do teatro de protesto. Crédito: Funarte

"Ele foi ameaçado de morte pelo CCC em meados de 1968. Iria dirigir um debate sobre 'Roda Viva', então em cartaz no Teatro Galpão", diz Maria Luiza Teixeira Vasconcelos, viúva de João Apolinário, em entrevista ao C2, em 2014.

Maria Luiza disse que, mais tarde, aquela época cobrou seu preço, já próximo à morte do poeta: "Aos sessenta anos, a memória desse tempo sofrido, de grande e constante insegurança, tanto em Portugal como no Brasil, tornou-se muito viva de repente e as consequências foram pesadas."

CENSURA E REPRESSÃO NOS TEATROS DO ES

Sintonizados com o momento contestatório dos palcos brasileiros, artistas do Espírito Santo que atuavam sob a ditadura militar tentaram unir a arte e a postura política em peças que, por sua vez, precisavam driblar a censura prévia.

Expoente do período, Luiz Tadeu Teixeira participou do primeiro "happening" do Estado. A história é a seguinte: a peça "Ensaio Geral", que misturava várias linguagens – entre texto, expressão corporal e música –, estava toda pronta. Quando foi enviada para o crivo dos militares, o texto foi proibido.

A solução pensada pela equipe, então, era apresentar a peça sem o texto falado, apenas com intervenções musicais e corporais. No ensaio para a censura, mais um revés: o espetáculo inteiro foi proibido. Mesmo assim, os artistas decidiram fazer uma apresentação única, na contramão do decidido pelo regime militar.

Atores na escadaria do Teatro Carlos Gomes, na década de 1970: contestação mesmo sob a mira dos militares. Crédito: Arquivo de Milton Henriques
Atores na escadaria do Teatro Carlos Gomes, na década de 1970: contestação mesmo sob a mira dos militares. Crédito: Arquivo de Milton Henriques

No dia 23 de maio de 1970, "Ensaio Geral" reuniu, entre outros, Aprígio Lyrio, Cristina Esteves, Maura Fraga e Amylton de Almeida, sob a direção de Rubinho Gomes. Ao final do espetáculo, os atores resolveram protestar de forma inusitada.

"Destruímos o cenário", contou Luiz Tadeu ao C2, aos risos, em 2014. "Fizemos guerra de trigo e aquarela, misturando o protesto à psicodelia. Foi considerado o primeiro 'happening' do teatro capixaba." Depois do acontecimento, vários integrantes da equipe foram prestar depoimento na Polícia Federal, em Jucutuquara, que ficava próxima ao local do espetáculo, atual Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

Outra incursão polêmica de Luiz Tadeu foi o espetáculo "Exercício", apresentado no final de 1971. A montagem tinha uma cena em que o ator ficava nu, situação oportuna para a censura intervir. O ensaio, dessa vez, foi na própria delegacia.

"Fui apresentar a cena para o delegado, na frente de um monte de policiais, completamente nu. Fiz os movimentos de maneira exagerada", contou. A intenção de Luiz Tadeu era receber uma punição que já imaginava, para então apresentar a peça sem muitos cortes. "Me obrigaram a colocar uma sunga. Ficou como eu queria."

Milson Henriques (1938-2016) foi outro que se destacou pela atuação no teatro de protesto, da criação do Festival de Teatro Capixaba a escrita de peças de cunho político, até sua atuação no teatro infantil. O artista multifacetado concedeu a entrevista, em 2014, para esta matéria, dois anos antes de sua morte. 

Com Luiz Tadeu, aliás, Milson fez a censurada "Mordaça", apresentada sem o seu conteúdo original. A peça tinha trechos do famoso poema "Uivo", do beatnik Allen Ginsberg, símbolo da contracultura.

Mas um espetáculo que marcou Milson foi "Vitória – De Setembro a Setembrino", em 1969, em que havia deboches ao governo da época. Depois de liberada, a peça fez enorme sucesso, lotando sete apresentações. Na última, quando a renda seria revertida para deficientes visuais – eles queriam um rádio de pilha, produto muito desejado no período –, a censura percebeu o deboche de Milson e proibiu a peça, já com pessoas esperando para entrar no teatro.

"Chamei o elenco todo e fomos para a porta do teatro", disse ao C2, em 2014. "Falamos o que estava acontecendo para a plateia, e eles ficaram revoltados." Diante do anseio geral, os militares permitiram a apresentação. "Eles não esperavam o apoio das pessoas. Foi uma vitória", relembrou durante a entrevista, em 2014.

Convite para Milton depor no DOPS, em 1975. Crédito: Arquivo de Milton Henriques
Convite para Milton depor no DOPS, em 1975. Crédito: Arquivo de Milton Henriques

Nos anos seguintes a apresentação de "Vitória – De Setembro a Setembrino", entretanto, Milson não teve vida mansa. Em 13 ocasiões, foi preso. "Eu era chargista de A GAZETA e escrevia em um jornal chamado 'Oposição', então já estava marcado. Eles queriam proibir tudo o que eu fazia."

Em poder dos militares, ele nunca sofreu agressões físicas. "O negócio era mesmo para amedrontar. Se eu ficasse muito tempo preso, sem sair charge minha no jornal, as pessoas perceberiam. Eles queriam que a gente reagisse, para assim ter um motivo para bater", contou Milson, em 2014.

 

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