Ao notar a insegurança da filha de 16 anos, Ana Luiza, que se preparava para prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez, o professor de história Paulo Alexandre Ferreira decidiu estudar e também se inscrever na prova. Além de servir de incentivo a ela, a decisão o aproximou de seus alunos, que passavam pela mesma situação, e ainda lhe rendeu uma vaga na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Paulo leciona há 15 anos, oito deles no ensino médio, e costuma aconselhar os alunos a faerem o Enem antes do terceiro ano, como treineiros, para se familiarizar com o ritmo e a pressão da prova. Em 2025, optou por fazer o exame com eles. Além da motivação pessoal relacionada à filha, a experiência também permitiu que realizasse um objetivo profissional: vivenciar, na prática, o que os alunos sentiam no dia da prova.
Um dos objetivos para eu fazer a prova foi justamente esse [se colocar na posição de aluno]. Já tem tanto tempo que a gente fez vestibular, que acaba falando para eles que 'não precisa se preocupar, tem que ficar calmo, vai ser tranquilo'. Mas para um aluno de 18 anos que vai escolher a sua profissão, o clima é hostil. Fazer a prova me ajudou a compreender melhor o lado deles
Paulo Alexandre Ferreira Professor de história e graduando em Filosofia
Ana Luiza Ferreira contou à reportagem de A Gazeta que estava no primeiro ano do ensino médio quando realizou o Enem em 2025 e não pretendia usar a nota para entrar na faculdade.
Até aquele momento, todas as provas que havia feito tinham sido realizadas na própria escola. "Eu sempre tive muito medo de fazer vestibular. Era uma coisa que me preocupava e sempre me deixou nervosa. Acho que o principal motivo para meu pai ter feito a prova junto comigo foi para me deixar mais calma, porque eu já estava ansiosa. Quando ele me falou que ia fazer também, eu consegui focar e relaxar um pouco, porque eu sabia que ele ia estar lá, ia estar passando por aquilo tudo comigo", contou.
Ana Luiza avalia que o apoio do pai fez a diferença não só no rendimento e na preparação para a prova, mas também na sua relação com os estudos em geral. Ela diz que passou a estudar com antecedência, em vez de deixar tudo para a véspera das avaliações, o que também melhorou suas notas na escola. Neste ano, repete o Enem como treineira.
Apesar de terem feito a prova nos mesmos dias e com os mesmos conteúdos, pai e filha não tiveram muitos momentos para estudar juntos. Paulo só chegava em casa à noite, quando também precisava corrigir provas e preparar materiais. "Meu tempo de estudo era muito limitado, a no máximo uma ou duas noites por semana, quando chegava em casa, após preparar as aulas e materiais para a escola onde trabalho. Meu foco maior era na redação e em disciplinas em que eu tinha mais dificuldade, como matemática", afirma.
Ana, que não fazia pré-vestibular, estudava sozinha em casa e frequentava uma oficina de redação. Como ainda não tinha visto todo o conteúdo do ensino médio, também priorizou a redação, área em que acreditava ter mais chance de pontuar.
A divisão de áreas entre os dois resultou em uma troca de conhecimentos. Nas disciplinas de humanas, o pai explicava, enquanto em química, física e matemática, era a filha quem respondia às dúvidas dele. "Como ele já é dessa área de humanas, eu me esforçava mais em exatas para a gente conseguir ter essa troca. Também passava para ele muito do que eu aprendia na oficina de redação", diz Ana.
"Fui pegando dicas com ela. Na verdade, fui pegando mais dicas com ela do que ela comigo, e isso acabou me ajudando a conseguir uma nota tão boa que fui aprovado", afirma Paulo.
Essa também foi a primeira vez que Paulo fez o Enem. Quando prestou vestibular para cursar história, o modelo de avaliação ainda era outro. Ele acredita que, em comparação a provas antigas, o exame atual pareceu mais acessível, pela articulação de todas as áreas. Mas também se atentou a outros detalhes mais puxados: a divisão do tempo entre as questões, o sono no meio da prova, a sensação de ser observado até para ir ao banheiro.
Neste ano, passou a tratar esses pontos de forma mais direta com suas turmas, junto ao conteúdo. A dica dele para as disciplinas de Ciências Humanas é praticar bastante a leitura antes da prova, já que as questões são longas e exigem atenção. Diz também que notou diferença na percepção dos alunos.
Eles têm mais confiança quando a gente fala: ‘Eu fiz ano passado, sei como é o clima, sei como é a pressão do ambiente’. Eles sabem que a gente não está falando só de uma ideia ou teoria
Paulo Alexandre Ferreira Professor de história e graduando em Filosofia
A rotina mudou com a aprovação, e a correria aumentou. A escolha do curso de licenciatura em Filosofia não foi pensando numa transição de carreira, mas, sim, pela vontade de estudar os pontos em que as duas áreas dialogam e pela possibilidade de assumir, também, aulas de Filosofia.
Dentro da sala de aula, Paulo divide o espaço com muitos estudantes recém-saídos do ensino médio e alguns poucos colegas que, como ele, já passaram dos 40 anos. "É engraçado porque você vê os mais novos sonhando, romantizando como vai ser a vida de professor. Nós os vemos cheios de esperança, imaginando que podem mudar o mundo", afirma.
Antes da primeira graduação, Paulo trabalhava com prestação de serviços e manutenção geral e diz que enfrentou resistência quando decidiu dar aula. "Recebi muitas críticas de pessoas que me diziam que ser professor não dava dinheiro e que eu estava 'doido'. Mas eu fui e, de todas as profissões, dar aula, para mim, foi a melhor escolha", conta.