Você desliza o dedo pela tela do celular. Assiste ao próximo vídeo. Depois a mais um. E outro, em looping. O gesto já é automático. Perder a noção do tempo nas redes sociais tem relação direta com um recurso de design chamado scroll infinito, criado em 2006 por Aza Raskin, que eliminou a necessidade de clicar para carregar mais conteúdo em uma página. Presente em plataformas como TikTok, Instagram e Facebook, o mecanismo se tornou uma das estratégias mais eficientes para manter a atenção do usuário. Tão eficiente que Raskin já declarou se arrepender de ter ajudado a desenvolvê-lo.
Na prática, essa engrenagem ativa um circuito infinito de recompensa para o cérebro. Com o tempo, é preciso cada vez mais estímulos para ter a mesma satisfação. Isso é o que detalha Marcelo Santos, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“O scroll remove os pontos de parada na cognição comportamental. Ou seja, o pico da dopamina não ocorre pelo consumo do conteúdo, e sim pela expectativa de quando a próxima recompensa virá. É isso que mantém a pessoa sempre esperando o vídeo seguinte”, explica.
Segundo ele, essa “desativação do freio mental” faz com que a pessoa passe horas em frente à tela sem ao menos perceber: "A ausência do limite virtual da página leva a um modo de economia de energia, e o córtex pré-frontal, área responsável pelo autocontrole e pela decisão de parar, é silenciado.”
Embora o circuito de recompensa seja comum a todas as pessoas, algumas são mais vulneráveis ao scroll infinito. Confira:
Crianças e adolescentes: o córtex pré-frontal ainda não está amadurecido, processo que só se completa por volta dos 25 anos
Pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): têm tendência à busca de alto estímulo
Pessoas em quadros de ansiedade, depressão ou semelhantes: o scroll, frequentemente, vira fuga emocional
A doutora Fabiana Pinheiro Ramos, docente do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), alerta para o caso das crianças e dos adolescentes.
“Em casa, é importante estabelecer combinados prévios sobre o tempo de tela e o que pode ser acessado. Essas regras devem vir sempre acompanhadas de explicação sobre os motivos das limitações, para que os filhos sintam que estão sendo protegidos, e não punidos”, sinaliza.
A atenção também vale para os pais e responsáveis. “Antes de estabelecer regras para as crianças, os adultos devem monitorar o próprio uso das telas e servir de modelo”, recomenda a professora.
O que fazer | Por que funciona |
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Colocar isso em prática exige paciência. A mudança de hábito acontece de forma gradual, conforme aponta o psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Marcelo Santos.
“Nos primeiros dias, é comum haver maior resistência à mudança. Com a repetição, entre duas e três semanas, o corpo começa a se adaptar à nova rotina. Entre 60 e 90 dias, esse processo tende a se consolidar. No entanto, esse período varia de acordo com cada indivíduo”, ressalta.
Em casos mais graves, os especialistas lembram: buscar ajuda especializada não é fraqueza, e sim o caminho mais seguro para recuperar o controle sobre a dependência do scroll.
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