O ato de rolar o feed das redes sociais pode significar mais do que um hábito ou passatempo. Para muitos jovens, tornou-se uma espécie de catálogo de futuros possíveis. No entanto, o que deveria ser fonte de inspiração tem se transformado em armadilha pelas expectativas para lá de irreais.
Enquanto o Instagram e o TikTok exibem o sucesso, as viagens e o glamour, suas publicações frequentemente omitem o suor e a disciplina necessários para se alcançar resultados.
Assim, a geração Z está imersa num mundo onde o excesso de vitrines filtra a realidade, levando muitos a escolherem uma carreira baseada em um estilo de vida editado, e não em afinidade ou propósito real.
A cultura dos influenciadores e youtubers criou uma percepção distorcida sobre o que constitui uma trajetória profissional. Para Cosme Peres, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-ES), o desejo pelo sucesso é inerente ao ser humano, mas as redes sociais tornam-no perigoso ao esconder o processo.
"Vemos muito mais o resultado e raramente aparecem as tentativas que deram errado, a disciplina necessária, a instabilidade e a pressão envolvida", explica. Isso alimenta a ideia de que o sucesso precisa ser rápido e gerar reconhecimento imediato, algo que não condiz com a construção de uma carreira consistente, que exige acúmulo de conhecimento, experiência e resiliência diante dos erros.
Essa busca por "ganhos rápidos" esconde um erro fundamental: confundir a exceção com a regra. O algoritmo privilegia o que gera atenção, não necessariamente o que é sustentável ou compatível com o talento individual. O jovem corre o risco de terceirizar sua escolha para o algoritmo, acreditando que o universo limitado de profissões que aparecem na tela representa todas as possibilidades disponíveis no mercado.
Para fugir da comparação digital, a orientação profissional atual propõe que o jovem saia da "imagem" da profissão e busque a "experiência" real dela. Cosme Peres sugere que uma boa escolha ocorre no encontro de três dimensões essenciais: quem eu sou (identidade), o que eu gosto e consigo desenvolver bem (aptidão) e onde existe espaço para gerar valor para alguém (mercado).
Ele orienta que a pergunta norteadora deve ser honesta. "Eu quero essa profissão ou apenas o estilo de vida que imagino que ela proporciona?". Conhecer o dia a dia real – a rotina menos glamourosa, a pressão e a repetição – é o que separa o sonho da frustração futura.
Isso, segundo o especialista, exige ampliar o repertório, buscando carreiras técnicas e tradicionais que, embora não produzam conteúdo "instagramável", são fundamentais para o funcionamento da sociedade e oferecem estabilidade e crescimento sólido.
Entre os exemplos citados, estão técnicos industriais, profissionais de manutenção, logística, tecnologia, saúde, engenharia, construção, operação e outras áreas que sustentam cadeias produtivas inteiras.
No mundo corporativo, o impacto dessa imersão digital já é visível nos processos seletivos. Fernanda Peroba, porta-voz da Viação Águia Branca, observa que é cada vez mais comum ouvir adolescentes dizerem que querem ser influencers.
No entanto, o mercado busca mostrar que a autonomia e o reconhecimento desejados pelos jovens também podem ser encontrados em carreiras corporativas e industriais, desde que haja conexão com um propósito maior.
Um ponto de atenção para os jovens é o desenvolvimento de competências relacionais. A imersão digital pode resultar em menos experiência em interações presenciais, manifestando-se como timidez ou insegurança no primeiro contato profissional. As empresas, por sua vez, estão adaptando seus ambientes para acolher esse jovem, focando menos o currículo robusto e mais o potencial de desenvolvimento.
Muitos jovens evitam empresas tradicionais por medo de uma progressão de carreira lenta e rígida. Contudo, a realidade tem mostrado o contrário. Na Viação Águia Branca, o conceito de que é preciso esperar anos para assumir responsabilidades está sendo quebrado.
"O crescimento profissional pode acontecer rapidamente, desde que existam entrega, protagonismo e responsabilidade", afirma Fernanda Peroba.
Exemplos reais reforçam essa nova lógica: 95% dos estagiários da empresa são efetivados; há profissionais que entraram como aprendizes e atingiram cargos de gerência. Recentemente, a companhia implementou uma Gerência de Inovação, formada integralmente por profissionais da geração Z, incluindo líderes que conquistaram suas posições com apenas seis meses de casa.
É o caso de Henrique Demoner, de 26 anos, gerente de Processos, Inovação e Clientes do Grupo Águia Branca. Após iniciar na empresa como estagiário, o jovem construiu sua trajetória até a liderança em um ciclo de apenas dois anos.
“Claro que, assim como todos os jovens, também me vejo em alguns momentos vítima do imediatismo gerado pelas histórias contadas na redes sociais de sucessos milionários repentinos gerados pelas criações de conteúdos, e empreendedorismo”, pontua.
Contudo, Demoner não mudou seu foco. “Mais uma vez, a cultura de crescimento e desenvolvimento que foi oferecida para mim e para outros profissionais que acompanho de perto me fizeram sentir que valeria a pena investir meu tempo e me dedicar a essa carreira.”
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