Uma tentativa de homicídio no campus da Ufes, cometida naquele que era apenas o segundo dia letivo de 2019, na última terça-feira, reacendeu um importante debate sobre a segurança nos campi da instituição, especialmente no de Goiabeiras, palco de assaltos e até de estupro nos últimos anos. Mesmo antes deste último ataque, a necessidade de adotar medidas mais eficazes contra a violência era óbvia, e a administração da universidade começou a se movimentar ainda no ano passado com o anúncio da contratação de militares da reserva, mas o efetivo prometido ainda não está em operação. Enquanto isso, a comunidade acadêmica divide-se entre aprendizado e apreensão.
O convênio da Ufes com o governo do Estado para atuação dos PMs foi anunciado com pompa em julho do ano passado, e logo foi alvo de polêmica. O problema não era o que fazer, mas como. Havia preocupações, razoáveis, de que a presença ostensiva da polícia poderia não ser o modelo ideal em um ambiente universitário. A Ufes escamoteou as críticas com a promessa de seleção rigorosa e treinamento sensível às especificidades dos campi.
Agora, são justamente a seleção e o treinamento a alegação para a demora para a contratação do número de agentes de segurança firmado na parceria, que é de 117, segundo cópia do documento obtida por este jornal. Uma fonte ouvida pela reportagem também afirmou que caiu a quantidade de seguranças privados. O resultado é que, pelo menos por enquanto, o que já estava ruim ficou ainda pior.
Em 2011, a USP inaugurou o debate sobre modelos de segurança em campi universitários, após a grande repercussão em torno do assassinato de um aluno. A princípio, o modelo adotado foi exatamente o que segue agora a Ufes, com convênio com a Secretaria de Segurança Pública. Após conflitos na Cidade Universitária, o esquema foi remodelado em 2015 para o de policiamento comunitário, mais próximo a estudantes e servidores. Em mais de dois anos de implantação, as ocorrências de roubos não diminuíram, e novos confrontos marcaram a atuação dos PMs, mostrando que a solução ainda não foi encontrada por lá.
O insucesso em São Paulo não significa que, por aqui, a atuação da polícia não possa dar certo. O que não está correto é deixar os espaços desprovidos de segurança. Assusta como, diante de tão grave problema, ações simples ainda não tenham sido implementadas, como a melhoria da iluminação, notoriamente precária. As mais de 20 mil pessoas que circulam pelos espaços da Ufes precisam de tranquilidade para tocar estudos, pesquisas, projetos de extensão. Elas merecem satisfação. Como instituição pública, a universidade deve transparência sobre as medidas para suprimir a violência – que, de preferência, sejam preventivas, e não reativas. Diálogo e envolvimento da comunidade é o primeiro passo para promover uma cultura de paz.