O Brasil assiste impassível à carnificina cotidiana do trânsito, na qual imprudência e negligência estatal se entrelaçam em um pacto suicida.
No Espírito Santo, dois crimes disfarçados de "acidentes" — a morte de uma ciclista por motorista alcoolizado e inabilitado em Vitória, e o capotamento fatal para uma universitária em Cariacica, com fuga do condutor após um suposto racha — não são meras fatalidades, mas sintomas de um colapso moral e institucional que clama por repúdio veemente. Tolerar tais barbaridades é conivência com o assassinato serial.
E o pior é que, como sociedade, seguimos tolerando o intolerável, até porque são crimes cometidos por "pessoas de bem". O que precisa mudar é justamente essa percepção: por mais que exista um estigma sobre o que é ser criminoso neste país, qualquer pessoa pode se tornar uma criminosa, basta infringir a lei.
Beber e dirigir é um dos caminhos mais rápidos para entrar no mundo do crime, basta fazê-lo. E, por mais absurdo que pareça, muita gente diariamente segue fazendo essa combinação mortal. A ciclista que perdeu a vida na Norte-Sul nesta semana estava no caminho de uma dessas pessoas.
A prática de racha nas ruas, esse duelo medieval sobre rodas, também é crime. É expor a si mesmo e a terceiros ao risco. No caso desta semana, a namorada do motorista do veículo perdeu a vida. É um absurdo que não encontra palavras. Não é normal uma pessoa passar, em questão de segundos, de namorado a potencial assassino por causa de uma disputa sem sentido.
A segurança pública é uma das maiores preocupações do brasileiro atualmente, como mostram as pesquisas. Medo de passar por um assalto violento, que termine em morte, medo de perdas materiais... medo de ser uma vítima, enfim. Precisamos nos lembrar que o trânsito também é segurança pública, e as pessoas estão cada vez mais expostas ao risco nas ruas.
O tal pacto suicida, no qual regras básicas de trânsito são permanentemente burladas em suposto benefício próprio, precisa se transformar em um pacto coletivo pela civilidade. O trânsito tem mostrado o pior de nós mesmos. As leis estão mais duras, mas isso ainda não é suficiente para pacificar as vias. Talvez porque ainda não as vemos ser aplicadas como deveriam. Como foi dito, continuamos tolerantes demais.
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