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Opinião da Gazeta

Sem confetes para violência

Episódios de brutalidade contra mulheres neste carnaval mostram que há muito ainda a ser feito para garantir a segurança feminina

Publicado em 07 de Março de 2019 às 01:14

Públicado em 

07 mar 2019 às 01:14

Colunista

Jane Cherubim Crédito: Reprodução

É impossível fechar os olhos para a violência contra a mulher ao fim de um feriadão de carnaval marcado por tanta brutalidade no Espírito Santo. Não há contemporizações aceitáveis; o que se viu no noticiário nesses dias foi um show de horrores que lamentavelmente confirma que não há exagero quando se brada que a existência feminina ainda permanece em segundo plano. É uma imposição de poder que segue permeando as relações, tornando as mulheres potenciais vítimas, no ambiente doméstico ou nas ruas.

Dos casos ainda tão comuns de assédio em blocos carnavalescos (como o personificado no relato de uma publicitária no Centro de Vitória), passando pelo terror de um estupro (como o registrado em Manguinhos), ao extremo de um feminicídio (como a morte bárbara de uma jovem, amarrada e assassinada com cinco tiros na cabeça às margens de uma rodovia na Serra), a distância é menor do que pode parecer. Tudo se resume ao desprezo pelo que a mulher representa. Resultado de uma cultura machista, ainda arraigada, que a cada ato considerado “menos grave”, como um toque não autorizado, alimenta a rede de violência que continua tirando tantas vidas.

A fúria que emana do ciúme ou do sentimento de posse se manifestou de formas distintas nos últimos dias, como nas duas ocorrências, na Serra e em Afonso Cláudio, em que ex-companheiros colocaram fogo nas casas das ex-mulheres por não aceitarem o fim do relacionamento. Outra mulher foi agredida com socos, na Serra, pelo mesmo motivo. Em Cariacica, uma manicure foi atingida na cabeça com um golpe de facão. Todas escaparam, mas a marca da violência, essa é indelével.

As agressões sofridas por Jane Cherubim em Pedra Menina, Dores do Rio Preto, tornaram-se o episódio mais emblemático, uma violência inacreditável. Seu rosto desfigurado provoca um choque imediato, e justamente por isso precisa se transformar num alerta para os relacionamentos abusivos. O áudio enviado pelo namorado à mãe da vítima expôs um sentimento de contrariedade que foi o estopim para a monstruosidade que se seguiria. “Pedi para ela ir perto de mim lá e ela não quis, para fazer desfeita da minha pessoa.” A banalidade do mal, em suma.

Um enredo que, no geral, muda pouco. O que precisa se transformar é a noção do respeito, de que relações afetivas não são relações de posse ou poder. De que o corpo feminino não é um pedaço de carne disponível. Há, no Congresso, 425 proposições em tramitação que podem garantir mais segurança à mulher, enrijecendo as estruturas capazes de combater a violência de gênero. É uma transformação que passa pela educação, mas que, enquanto não se efetiva culturalmente, precisa estar amparada por leis mais rigorosas. Na seção “Há 50 anos”, na versão impressa de A GAZETA, está estampada a crueldade de um marido que matou a vizinha com golpes de machado na cabeça após ela ter tentado impedir que ele continuasse agredindo a esposa. Isso lá no distante ano de 1969. Como se vê, pouca coisa mudou desde então. E é justamente isso que precisa mudar.

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