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Opinião da Gazeta

Rezar missa era pouco para Dom Silvestre, que viveu tudo que pregou

Morte de arcebispo emérito cobre de luto o Espírito Santo, não apenas a população católica. O religioso foi, até seu último dia, exemplo de solidariedade, combatividade e fé

Publicado em 16 de Fevereiro de 2019 às 20:09

Públicado em 

16 fev 2019 às 20:09

Colunista

Arcebispo emérito de Vitória, Dom Silvestre Scandian Crédito: Patrícia Scalzer
“Que democracia é essa em que o povo não tem nada que falar?” O questionamento é de Dom Silvestre Scandian, sobre um pacote econômico lançado pelo governo federal em 1997. “As medidas são sempre tomadas pelos grandes e em favor deles”, completou. Sereno, mas sempre indignado quando falava das dificuldades da população brasileira em sua luta por sobrevivência. Assim pode ser definido o arcebispo emérito, falecido neste sábado (16).
A morte de Dom Silvestre cobre de luto o Espírito Santo, não apenas a população católica. O religioso foi, até seu último dia, exemplo de solidariedade. Um pastor da misericórdia, que ia às ruas corajosamente defender seu rebanho. Quando chamado, não fugiu à luta e teve papel fundamental no combate ao crime organizado, nos anos 1990. Nunca se calou diante da corrupção que se infiltrava nas instituições públicas, assim como sempre levantou a voz contra as mordomias do poder, o desperdício do dinheiro público.
São bandeiras que unem os bons de coração, independentemente de crenças, mas que no caso de Dom Silvestre foram verdadeiras missões. Recorrentemente, estimulava a comunidade a refletir sobre “o pecado da violência e também sobre a maneira de vencê-la”.
Suas homilias eram sempre combativas, abraçadas às agruras dos mais carentes. “Se as empresas recebem isenção como retribuição pelo financiamento de campanhas políticas; se os funcionários recebem com atraso seus vencimentos minguados; se o nepotismo campeia pelos três poderes e o Poder Judiciário não agiliza os processos; se há a propina, certamente não se glorifica o nome do Pai, mas se ofende o nome de Deus”, pregou, em 1999.
Sobre sua postura ativa, ele mesmo justificou certa vez que “se fosse só para celebrar missa, seria muito pouco”. Vivendo com a mesma intensidade com que pregava do altar na Catedral de Vitória, o religioso seguia à risca seus próprios conselhos, de que “os homens precisam de fé, é verdade. Mas também precisam praticar a caridade”.
Quando alguém falece, para onde vai sua alma? Para o céu? Ninguém pode afirmar com certeza, mas, para aqueles que compartilhavam as mesmas convicções do arcebispo emérito que agora nos deixa, Dom Silvestre despediu-se dos irmãos para retornar à casa do pai, como disse Dom Dario, atual Arcebispo Metropolitano de Vitória.

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