Tanto a Rodoviária de Vitória quanto a Segunda Ponte sofrem com um tipo de descaso inconvenientemente comum na administração pública: a terceirização dos problemas. Atribuições que não são bem definidas, e mesmo as que são, acabaram reforçando o abandono das duas grandes construções, marcos imponentes da Baía de Vitória nos arredores da Ilha do Príncipe.
Coincidentemente, são obras inauguradas em 1979 que remodelaram a região após o aterro. Chegam, portanto, aos 40 anos exigindo reparos estruturais para garantir a segurança das milhares de pessoas que as utilizam diariamente.
O caso da Rodoviária de Vitória, com rachaduras e pilares corroídos pela ação do mar, é emblemático desse jogo de empurra. O terminal é administrado por uma terceirizada, mas o contrato de concessão simplesmente não esclarece se a manutenção estrutural da base submersa fica a cargo da empresa contratada ou da Secretaria de Estado de Gestão e Recursos Humanos (Seger).
O texto diz que a área do “aquaviário” não integra o “objeto do contrato”, mas os danos nesse setor anexo podem comprometer todo o terminal rodoviário, por ser o que garante a sua sustentação. Um contrato malfeito, que permitiu que empresa e governo, sem serem cobrados, permanecessem omissos, mesmo após o alerta de risco de colapso emitido pelo laudo dos engenheiros do Crea-ES e as repetidas denúncias feitas por este jornal no último ano.
Situação parecida – e também fartamente noticiada por aqui – é a da Segunda Ponte, na qual a confusão de responsabilidades de Estado e União não é menos absurda. Também apresentando avarias constatadas pelos engenheiros do Crea há mais de um ano, a ponte enfim passará por intervenções mais significativas, prometidas para este ano pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Espírito Santo (DER-ES). A questão é que o órgão só responde pelo viaduto, especificamente o trecho que vai da saída da Avenida Carlos Lindenberg, em Vila Velha, até o acesso de Cariacica.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit-ES) compartilha a administração a partir desse ponto, mas continua fazendo vista grossa para os problemas da ponte. Falta diálogo entre os órgãos. Faltam pontes, no sentido metafórico, para uma solução conjunta. Enquanto cada um se fecha em seu feudo, a Segunda Ponte afunda na incompetência. A incapacidade gerencial, tanto nela quanto na rodoviária, é um desleixo que pode custar muitas vidas.