A queda abrupta de aprovação do governo Bolsonaro desde janeiro pode ser uma resposta da população à inércia que ainda toma conta do país, em uma gestão que nem chegou ainda aos cem dias. A falta de habilidade política que se evidencia em cada polêmica sem sentindo e na própria dificuldade de engatilhar reformas essenciais, como a da Previdência, acabou interrompendo a lua de mel que tradicionalmente marca os prelúdios de mandatos. Num país que se encontra à deriva há tanto tempo, é de se esperar que as pessoas queiram ver resultados ou ao menos perspectivas concretas de mudanças que afetem positivamente suas vidas.
Bolsonaro ainda teima em aceitar que nem só de rede social vive um governo. Principalmente por usar essa comunicação direta para se dirigir primordialmente aos convertidos, aqueles que se alinham quase que integralmente a sua ideologia, criou muito rápido um clima de “nós contra eles” que lembra muito um ex-presidente... um erro fatal para quem almeja as glórias de um estadista. Bolsonaro, sem evoluir, ainda age como candidato, mas precisa se lembrar de uma vez por todas que uma parcela relevante do seu eleitorado só se comprometeu com sua eleição por conta das promessas de políticas econômicas mais racionais e de comprometimento ético. Precisa começar a cumpri-las, sob o risco de a insatisfação ganhar proporções indesejáveis.
Bravatas, inclusive de membros de seu círculo mais íntimo, não podem ocupar o lugar do caráter gerencial e propositivo que deveria ser a prioridade do seu governo. Ocupar-se tanto de pautas de costumes pulverizadas também não contribui em nada. Bolsonaro não chegou ao poder em marés de bonança, e por isso deveria estar mais preocupado em manter seu capital político, essencial para a aprovação da necessária Reforma da Previdência. A economia ainda engatinha, ainda faltam empregos. Trabalho também não falta na Educação, na Saúde, na Segurança Pública... nada disso se resolve com postagens em redes sociais.
Foram 15 pontos perdidos na pesquisa do Ibope que avaliou sua aprovação. Sua administração foi considerada boa ou ótima por 34% dos entrevistados em março: um percentual que era 49% em janeiro e 39% em fevereiro. O pior início de mandato registrado desde Fernando Collor. Recuperar o fôlego só depende de uma guinada do próprio governo, que precisa estar mais autocentrado, focado no que importa: a reconstrução de um país.