Desde que explodiram as primeiras acusações de que o ministro do Turismo patrocinou um esquema de candidaturas de laranjas, novas e mais denúncias se empilham na porta do Planalto à espera de uma atitude de Jair Bolsonaro. Até agora, no entanto, o presidente tem varrido o assunto para debaixo do tapete.
A insistência em manter Marcelo Álvaro Antônio no cargo é no mínimo estranha, porque contradiz o discurso de combate à corrupção que o levou à Presidência. Mas o problema não para por aí. Esse dar de ombros cria mais uma crise desnecessária, algo em que Bolsonaro tem se esmerado, em um momento em que o governo precisa de mares tranquilos para articular com o Congresso a aprovação de projetos urgentes e necessários.
A condução do caso Álvaro Antônio é totalmente diversa da dispensada a Gustavo Bebianno, envolvido no mesmo arranjo ilegal com candidatas de fachada. Enquanto o ex-secretário-geral da Presidência foi queimado em praça pública, de maneira novelesca – com filhos intrometendo-se em assuntos de Estado e brigas em redes sociais –, o ministro do Turismo continua intocado.
Ontem, ao ser questionado sobre a permanência do ministro no cargo, o presidente encerrou a questão com um mero “deixa as investigações continuarem”. Eleito sob o slogan de “Deus acima de todos”, Bolsonaro poderia recorrer à máxima bíblica de não carregar dois pesos, um pesado e o outro leve, nem ter à mão duas medidas, uma longa e uma curta, mas usar apenas um peso e uma medida, honestos e francos, para garantir justiça ao julgar atos do mesmo quilate.
Enquanto se cala, as revelações se avolumam. O caso foi exposto pela Folha de S. Paulo e teve início com o fato de que quatro mulheres receberam R$ 279 mil do fundo eleitoral. O desempenho insignificante nas urnas – juntas, somaram menos de 2 mil votos – sugere que apenas serviram para maquiar o uso dos recursos. Parte do dinheiro foi parar na conta de empresas de assessores, parentes ou sócios de assessores de Álvaro Antônio, à época presidente do PSL mineiro, que nega irregularidade.
O silêncio de Bolsonaro diante do escândalo é inexplicável, porque Álvaro Antônio está longe de ser um ativo imexível da gestão. E é também constrangedor, porque parte de um presidente que, em seu discurso de posse, vangloriou-se de montar uma equipe “sem conchavos ou acertos políticos”. Na mesma mensagem, afirmou que, ao governo, cabe ser honesto e eficiente.
Com essa insistência em manter um político investigado no círculo do poder, não tem conseguido demonstrar aos brasileiros ser nem uma coisa nem outra. A manutenção de Álvaro Antônio pode custar caro ao governo e ao país. Ao se negar a exonerá-lo, Bolsonaro desperdiça capital político necessário para negociar com o parlamento pautas como a reforma da Previdência – espinhosa, mas vital para a saúde das contas públicas e para a próprio viço de seu mandato, alcançado com essa promessa.