Bastam alguns exemplos do noticiário de A Gazeta para ter a dimensão desta tragédia testemunhada no Espírito Santo com uma recorrência inaceitável.
O último mês de julho começou com a prisão da mãe e do padrasto de duas adolescentes em Linhares, suspeitos de estuprarem as meninas, e chegou ao fim com a notícia da prisão de um homem de 38 anos, suspeito de estuprar a enteada, de 12 anos, e a filha, de 10, em Viana.
Também foi o mês em que um vereador de Vitória foi condenado a 31 anos de prisão pelo estupro de uma criança.
Esses são os casos que vieram à tona, por sorte denunciados por pessoas atentas aos sinais dados por essas crianças, inclusive com uma condenação na Justiça. Mas a sensação que fica é a de que tantas outras vítimas não conseguem romper o silêncio, principalmente quando a violência acontece no ambiente doméstico.
É doloroso demais: as informações sobre crimes contra a dignidade sexual levantadas pelo Observatório da Segurança Pública expõem uma dura realidade. Neste ano de 2026, até o mês de junho, dos 1.352 registros relacionados ao sexo feminino, em 45,4% desses casos as vítimas tinham até 14 anos. Entre elas, 10 crianças de apenas 1 ano. Ou seja, crianças e adolescentes lideram as estatísticas. E em 43,8% dos casos o cenário do crime é a residência.
A indignação é imediata, não é possível encontrar explicação racional para a prática desse crime tão covarde, principalmente nos casos em que as crianças não são protegidas por quem deveria naturalmente zelar pela sua integridade. O maior desafio ainda é impedir que esses crimes aconteçam.
Denunciar é palavra de ordem, sempre, mas como o grito de uma criança consegue ultrapassar os muros desses lares marcados pela violência? Nos casos de exploração sexual infantil esse cenário muda, por ser um crime mais exposto, as denúncias são possíveis.
Para compensar a impotência do poder público diante de um crime que se favorece do silêncio da intimidade, é a comunidade que pode fazer a ponte com as autoridades policiais, conselhos tutelares e a própria Justiça, denunciando quando houver qualquer desconfiança.
Por isso, quem lida diretamente com esse público em consultórios, postos de saúde e escolas deve agir como um elo de escuta, inclusive daquilo que não é falado, mas se expressa em sinais de possível abuso ou violência. Ninguém pode se calar diante da atrocidade.
O que não dá mais para suportar, como sociedade, é essa sucessão infindável de crimes contra crianças e adolescentes.
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