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Opinião da Gazeta

Brasil coleciona tragédias que poderiam ter sido evitadas

Enquanto fica mais claro que pode ter havido negligência no Ninho do Urubu, cúpula do Flamengo se mantém distante dos jornalistas

Publicado em 12 de Fevereiro de 2019 às 23:51

Públicado em 

12 fev 2019 às 23:51

Colunista

Fachada do Ninho do Urubu, onde incêndio matou 10 jovens e feriu outros três Crédito: Flamengo/Divulgação
O zagueiro capixaba Jhonata Cruz Ventura, de 15 anos, luta desde sexta-feira (8) para se recuperar dos ferimentos sofridos no incêndio no Ninho do Urubu. Após quatro dias, felizmente saiu do coma. É uma superação diária. Outros dez jogadores das categorias de base do Flamengo não tiveram a mesma chance de batalhar pela própria sobrevivência. Pais e mães que confiaram seus filhos ao clube, esperançosos com uma carreira no futebol, acabaram tendo a pior notícia de suas vidas.
O desenrolar das investigações tem mostrado que a negligência e a irresponsabilidade podem ter andado de mãos dadas, colocando deliberadamente em risco a vida desses jovens que estavam sob a guarda do Flamengo. Não é novidade, como comprovam nossas tragédias mais recentes – e mesmo as mais antigas. Colecionamos infortúnios que poderiam ser evitados com mais comprometimento. A dor e a consternação que protagonizaram os sentimentos de todo o país na sexta-feira já dão lugar à indignação, diante das irregularidades que chegam a público. 
Nem mesmo Zico, o maior ídolo do Flamengo, calou-se diante dos fatos. “Se você é multado 30 vezes, não pode empurrar com a barriga para ser mais 20. Alguma coisa tem que ser feita.” O ex-jogador criticava, em entrevista ao canal SporTV, a omissão do clube frente aos 31 autos de infração emitidos pela Prefeitura do Rio, que resultaram em multas. Apenas dez foram pagas. Nada foi feito. A própria prefeitura falhou ao não interditar o contêiner irregular, já que o licenciamento permitia o funcionamento de um estacionamento no local, não de um dormitório.
Isso sem falar na falta de alvarás e na possível vista grossa do Corpo de Bombeiros, que deixou escapar a falta de equipamentos contra incêndio e as instalações elétricas inadequadas. A história é conhecida: a burocracia está sempre lá, marcando presença entre carimbos e documentos, mas o resultado prático, garantindo instalações mais seguras, é só detalhe. É como um livro de fábulas.
E, para piorar, a cúpula do Flamengo se mantém num altar de cristal, evitando o contato com jornalistas. Só faz pronunciamentos, bem ao estilo das lideranças contemporâneas que evitam o contraditório. Ironicamente, ao apresentar o novo módulo profissional do Ninho do Urubu, em novembro do ano passado, um dos destaques era a muito bem decorada sala de imprensa, que deveria ser usada em momentos como este.

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