O zagueiro capixaba Jhonata Cruz Ventura, de 15 anos, luta desde sexta-feira (8) para se recuperar dos ferimentos sofridos no incêndio no Ninho do Urubu. Após quatro dias, felizmente saiu do coma. É uma superação diária. Outros dez jogadores das categorias de base do Flamengo não tiveram a mesma chance de batalhar pela própria sobrevivência. Pais e mães que confiaram seus filhos ao clube, esperançosos com uma carreira no futebol, acabaram tendo a pior notícia de suas vidas.
O desenrolar das investigações tem mostrado que a negligência e a irresponsabilidade podem ter andado de mãos dadas, colocando deliberadamente em risco a vida desses jovens que estavam sob a guarda do Flamengo. Não é novidade, como comprovam nossas tragédias mais recentes – e mesmo as mais antigas. Colecionamos infortúnios que poderiam ser evitados com mais comprometimento. A dor e a consternação que protagonizaram os sentimentos de todo o país na sexta-feira já dão lugar à indignação, diante das irregularidades que chegam a público.
Nem mesmo Zico, o maior ídolo do Flamengo, calou-se diante dos fatos. “Se você é multado 30 vezes, não pode empurrar com a barriga para ser mais 20. Alguma coisa tem que ser feita.” O ex-jogador criticava, em entrevista ao canal SporTV, a omissão do clube frente aos 31 autos de infração emitidos pela Prefeitura do Rio, que resultaram em multas. Apenas dez foram pagas. Nada foi feito. A própria prefeitura falhou ao não interditar o contêiner irregular, já que o licenciamento permitia o funcionamento de um estacionamento no local, não de um dormitório.
Isso sem falar na falta de alvarás e na possível vista grossa do Corpo de Bombeiros, que deixou escapar a falta de equipamentos contra incêndio e as instalações elétricas inadequadas. A história é conhecida: a burocracia está sempre lá, marcando presença entre carimbos e documentos, mas o resultado prático, garantindo instalações mais seguras, é só detalhe. É como um livro de fábulas.
E, para piorar, a cúpula do Flamengo se mantém num altar de cristal, evitando o contato com jornalistas. Só faz pronunciamentos, bem ao estilo das lideranças contemporâneas que evitam o contraditório. Ironicamente, ao apresentar o novo módulo profissional do Ninho do Urubu, em novembro do ano passado, um dos destaques era a muito bem decorada sala de imprensa, que deveria ser usada em momentos como este.