Nem no pior pesadelo, o liberalismo da política econômica comandada por Paulo Guedes admitiria a intervenção do governo no sistema de preços do mercado. Mas foi exatamente o que fez o presidente Bolsonaro ao impedir o reajuste do óleo diesel na última quinta-feira. A ordem foi dada por telefone à Petrobras, que monopoliza o refino no país.
O aumento seria de 5,7% e chegaria no momento em que o Palácio do Planalto recebe informações sobre insatisfação dos transportadores de cargas com as constantes elevações do preço do diesel. Bolsonaro interveio sob a justificativa simplória de que “não entende de economia”, mas, na verdade, prevaleceu a percepção de que assim estaria evitando um desastre político e econômico de grandes proporções.
Na sua visão, agiu para desarmar o estopim de nova greve nacional dos caminhoneiros. Recuou diante dos fantasmas de maio de 2018, lembrando que caminhões parados travaram a produção no país, causaram ondas de prejuízos, afetaram o PIB e destroçaram o governo de Temer.
O vice-presidente Hamilton Mourão avalia que a interferência governamental no preço do combustível é “fato isolado”. E garante que não se cogita repetir a política demagógica do governo Dilma, que quase quebrou a Petrobras pelo achatamento de preços. De fato, seria um absurdo. Durante longo período, a estatal “desconheceu” a variação do câmbio e vendeu combustível a preço mais baixo do que importou. Isso tolheu investimentos em todo o país e afetou o crescimento do PIB.
Mas o recuo amedrontado de Bolsonaro não se esgota em si mesmo. Tem consequências. Faz a Petrobras deixar de faturar R$ 14 milhões por dia. A perspectiva é de que o congelamento dure 15 dias, provocando perda de receita de R$ 210 milhões. Na sexta-feira, o valor de mercado da Petrobras despencou R$ 32 bilhões na Bolsa. Para o Executivo, o grande prejuízo é a corrosão da credibilidade da política econômica. Já é motivo suficiente para perturbar decisões empresariais em diversas áreas.
É provável que o escorregão do governo no diesel amplie pressões pela privatização da Petrobras. Mas o momento não parece apropriado para essa pauta, que se misturaria à reforma da Previdência e ao debate que está sendo iniciado sobre uma possível reforma tributária.
Um bom aceno para o mercado seria anunciar, de forma concreta, o propósito de vender refinarias e acabar com o monopólio da Petrobras no setor. A concorrência geraria investimentos, ajudaria a regular preços, aboliria subsídios governamentais e desarticularia novas greves de transportadoras.