Seria frustrante que uma ideia tão boa quanto as bicicletas compartilhadas acabasse se transformando em um infortúnio para a cidade, por conta da falta de senso de coletividade de seus usuários. É justamente o principal diferencial do serviço – a possibilidade de deixar bicicletas e patinetes elétricos em qualquer ponto dentro de uma área de cobertura determinada – que tem se tornado o seu maior tormento, por conta dos abusos, propositais ou não.
Os equipamentos, que auxiliam a mobilidade urbana e promovem o lazer, têm sido largados de qualquer forma em calçadas, atrapalhando o trânsito de pedestres e, principalmente, virando um obstáculo para pessoas com necessidades especiais. A empresa que oferece o serviço, autorizada pela Prefeitura de Vitória desde o início de fevereiro a atuar na Capital, expõe de modo tímido as regras. Os termos de uso do aplicativo, aquele contrato que pouca gente lê no processo de instalação, dão direcionamentos sobre o estacionamento: “Qualquer local onde seja permitido e gratuito estacionar veículos, preferencialmente em vagas comuns ‘de carro’ e perpendicularmente à via, como se fosse uma moto. Não pare em calçadas ou áreas em que a bike possa atrapalhar a circulação de pedestres e veículos”. A especificação, porém, não exime a start-up de suas responsabilidades: precisa ser mais veemente sobre essas determinações, com campanhas educativas mais visíveis.
E a prefeitura tampouco pode lavar as mãos. Já anunciou que vai regulamentar o uso de bicicletas compartilhadas sem estação, prevendo inclusive multas para quem utilizá-las de forma inadequada. É preciso, portanto, que compreenda certas especificidades, porque pode não ser tão simples identificar quem as tenha deixado na rua de forma irregular ou possíveis atos de vandalismo. Dependendo de como a regulação for encaminhada, sem esses cuidados, poderá se tornar inócua ou, o que é ainda pior, injusta.
É uma questão de bom senso. Um sinal amarelo se acende, principalmente para usuários, que devem ter mais responsabilidade no uso desse serviço - pago, é verdade - tão útil. Não resolve todos os problemas de mobilidade urbana, mas é uma ajuda incontestável, principalmente para os microdeslocamentos na cidade. São benefícios coletivos, que dependem também do comprometimento de todos.