Ninguém disse que fazer política é fácil, especialmente a boa política da qual o país tanto precisa nesta fase de fragilidade econômica que ainda se estende. O ministro Paulo Guedes sentiu na pele a dificuldade nas seis horas em que esteve Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para fazer a defesa da reforma da Previdência. Ao tomar a frente da missão, Guedes deveria ter adotado métodos mais objetivos de apresentação do projeto e deixado os números apontarem a gravidade da situação. E deveria ter trabalhado o próprio temperamento, na direção de finalmente compreender o papel político que representava ali, diante dos deputados.
Faltou paciência, portanto, o que no jogo político é uma das cartas mais valiosas. Vitórias nem sempre são imediatas, são construídas com a articulação, algo que tem faltado ao governo Bolsonaro. Também não se entra de sola na briga com uma oposição que nem sequer possui uma contraproposta para um problema que é real. Uma oposição cujo maior mérito é traçar estratégias vazias para inviabilizar as mudanças no sistema previdenciário, indiscutivelmente deficitário. Sobra demagogia, falta projeto.
A política não é algo descartável, e o Planalto tenta sair da rota de colisão em que se meteu por falta de tarimba. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, já fala até mesmo em “boa política”, dando novos direcionamentos semânticos à relação do governo com o Legislativo. O presidente Jair Bolsonaro começou a receber os líderes das siglas para tentar pavimentar um novo convívio. É possível que tenha entendido que a reforma da Previdência não vai se aprovar sozinha, sem diálogo, sem negociação. O que não tem nada a ver com ceder à política subterrânea, dos acordos escusos, estes sim maléficos para a saúde democrática do país.
E o governo precisa urgentemente organizar a própria base, para que as ameaças de fogo amigo deixem de pairar sobre a reforma. O bate-boca que se viu na CCJ poderia ter sido minimizado com uma defesa mais articulada, que impedisse que o ministro permanecesse tanto tempo sob o ataque da oposição. Essa omissão não ocorreu por acaso; é o mais evidente resultado do desprezo pela política até agora alimentado pelo governo. Se não mudar efetivamente, deve estar preparado para colecionar derrotas.