A vigilância constante que o tráfico de drogas impõe às comunidades em que se instala é pública e notória. Não são raros os flagrantes de criminosos armados, em pontos estratégicos dos bairros, para antecipar qualquer aproximação da polícia e controlar o ir e vir de moradores, infligindo a eles um medo permanente, muitas vezes paralisante, que dificulta ou mesmo impede denúncias. Por isso, chama atenção a declaração oficial da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) - após reportagem deste jornal mostrar a tranquilidade com que olheiros do narcotráfico fiscalizavam toda e qualquer movimentação em Jesus de Nazareth, em Vitória - de que ocorrências de crime em andamento são apuradas assim que o Ciodes 190 é acionado.
Pode até ser verdade que a polícia investigue todas as denúncias – e a população do Espírito Santo realmente espera que seja. Mas condicionar a ação das forças de segurança a um caso tão patente de dominação do tráfico nas comunidades da Capital é se eximir das responsabilidades. O cenário almejado pelos moradores e que deveria ser perseguido pelo Estado é aquele em que o tráfico de drogas não tenha sentinelas nas entradas e saídas de bairros, traficantes não andem armados constantemente pelas ruas e não vigiem quem entra em quem sai. Enfim, que a comunidade não tenha um posto de controle, praticamente oficial, com sofá para o descanso dos “funcionários”, como é o caso do flagrante mostrado por este jornal. Vale ressaltar que uma equipe da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core) agiu no local na segunda-feira (18), provocando a fuga dos dois olheiros. O que não impediu que voltassem no dia seguinte: reportagem desta terça-feira (19) mostrou que eles seguem na vigília, no mesmo lugar.
Com a palavra, uma moradora, que não quis se identificar por medo: “Pessoas em barraquinha ou casa alugada são constantes. Ficam com rádios vigiando, nas duas escadarias do bairro.” Em 2016, a TV Gazeta já havia exposto a presença de “sentinelas do tráfico” na comunidade, com vídeos e, inclusive, a gravação de conversas. O mesmo ocorre em outros locais, até com a utilização de drones na vigilância.
A população pode e deve compartilhar informações com a polícia, e os canais de comunicação devem ser amplamente divulgados. As denúncias permitem uma capilaridade na obtenção de dados sobre crimes que seria impensada apenas com a atuação policial. Mas cobrar o acionamento do Ciodes como primeiro passo para a ação em um episódio como esse faz parecer que a Sesp ignora um problema óbvio, cotidiano. Esse não é um caso de 190, mas de inteligência e estratégia.