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'Quaresma das galinhas' faz ovo ficar mais caro? Entenda

'Quaresma das galinhas' faz ovo ficar mais caro? Entenda

Época é associada a uma menor produção, mas impacto ocorre sobretudo em aves criadas soltas

Publicado em 28 de março de 2023 às 10:12

SÃO PAULO, SP - O ovo está mais caro no Brasil. A alta de preço tem várias razões, mas uma peculiar costuma circular nas feiras: a de que galinhas botam menos ovos durante a quaresma.

A afirmação tem algum fundamento, o que não significa que os animais tenham entrado numa espécie de recesso religioso. A explicação, na verdade, é bem terrena.

Produção de ovos na Serra
Produção de ovos na Serra Crédito: Prefeitura da Serra/Divulgação

O processo biológico que leva as galinhas a produzirem ovos é desencadeado pela luminosidade. Como os dias ficam mais curtos entre dezembro e junho, o estímulo necessário para a regulação hormonal diminui nessa época do ano, provocando uma queda ou até interrupção na produção de ovos.

Daniela Duarte de Oliveira, médica veterinária e conselheira do Instituto Ovos Brasil, explica que as galinhas começam esse processo de menor produção no período que coincide com a quaresma — mas destaca que a relação entre os dois fenômenos não passa de um mito.

Março e abril marcam a transição do verão para o outono, quando o sol começa a nascer mais tarde e se pôr mais cedo. A redução do estímulo luminoso passaria a ter algum efeito já nesta época, com o ápice ocorrendo perto de junho — mês que registra o dia mais curto do ano.

Segundo Oliveira, a menor produção de ovos é mais perceptível nas galinhas caipiras, criadas soltas. Isso porque, no regime industrial, os animais recebem luz artificial para simular dias constantes, evitando que a produção de ovos seja prejudicada.

"Com a galinha caipira não. Toda parte de regulação hormonal para a produção de ovos é desencadeada por um período específico de luz. Como os dias estão ficando mais curtos, o estímulo vai diminuindo e as galinhas param de botar. Quando chega agosto, em que os dias começam a aumentar, elas voltam a ter o estímulo novamente", explica.

Algumas aves chegam efetivamente a parar de botar ovos, diz Oliveira, mas isso varia de animal para animal, bem como da região do país. "No Nordeste, os dias são constantes e de muita luminosidade. Então lá as galinhas são menos afetadas do que em Minas Gerais e São Paulo, por exemplo."

Valdir Avila, pesquisador de aves da Embrapa, lembra que a grande produção de ovos no Brasil é feita em sistemas intensivos.

Nesse modelo, o produtor garante uma média diária de 16 horas de luz. Se em determinada época o dia dura 11 horas, por exemplo, ele acrescenta mais 5 horas de luminosidade artificial para manter a produção constante.

Em função desses ajustes, o efeito sazonal é praticamente zero para a maior parte da produção de ovos brasileira.

O oposto ocorre com as galinhas criadas soltas, principalmente naquelas regiões onde a diferenciação de duração do dia é mais marcante.

Avila lembra que entramos na época decrescente de luminosidade no fim do ano passado, quando foi registrado o dia mais longo do ano, em 21 de dezembro.

A quaresma coincide com a metade desse período — que dura até junho —, o que pode explicar a associação que algumas pessoas fazem entre a tradição religiosa e a menor oferta de ovos.

Fatores conjunturais também podem ajudar a entender a origem dessa relação. José Fernando Menten, professor titular de avicultura da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), ressalta que muitas pessoas diminuem ou deixam de comer carne durante a quaresma, substituindo a proteína por ovo.

"As pessoas tendem a comprar mais ovos e notam mais facilmente a subida de preço, justamente na época em que elas querem consumir mais"

José Fernando Menten

Professor titular de avicultura da Esalq

Segundo Juliana Ferraz, analista de mercado de ovos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o produto costuma ficar mais caro na quaresma, época em que tradicionalmente o consumo aumenta.

No entanto, ela diz que a diminuição da oferta é o que está pesando mais para a alta dos preços neste ano.

"Parte disso pode estar atrelado à questão biológica das aves", afirma. "Mas o principal é que o produtor tem alojado menos aves. O custo de produção cresceu muito nos últimos anos, principalmente em relação à nutrição, que é (feita a base de) milho e farelo de soja."

Em Bastos (SP), principal região produtora do estado de São Paulo, o preço do ovo branco tipo extra teve aumento de 20,6%, passando de R$ 145,90 a caixa com 30 dúzias em março de 2022 para R$ 175,97 no mesmo período deste ano.

Para os ovos vermelhos, houve alta de 22%, com o produto passando de R$ 165,69 a caixa para R$ 201,94.

Em grandes centros consumidores, como a grande São Paulo, a caixa com 30 dúzias do ovo branco era negociada na faixa de R$ 151,85 em março de 2022. Neste ano, o produto passou a ser vendido por R$ 185,60, na média.

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