Publicado em 14 de maio de 2025 às 14:25
BRASÍLIA - O governo colocou na mesa de negociação a sua proposta para renovar, por mais 30 anos, a concessão da FCA (Ferrovia Centro-Atlântica), hoje controlada pela VLI, empresa formada pela Vale, Brookfield, Mitsui e BNDESPar, além de fundos de investimentos.>
A proposta está em discussão entre a cúpula do governo e executivos da VLI para definir o destino de 7.857 km de ferrovias, a maior concessão do país. O plano prevê a devolução de pouco mais de 3.000 km abandonados, trechos que o governo retomará e que poderá oferecer a outras empresas, por meio de autorizações, em vez de novas concessões, o que agiliza o processo.>
Como indenização financeira por este abandono, a proposta prevê que a VLI pague cerca de R$ 5 bilhões à União, dinheiro que poderá ser aplicado pelo governo em novos projetos ferroviários.>
O acordo inclui, ainda, o repasse de aproximadamente R$ 3 bilhões para o governo. Uma parte diz respeito à outorga, que é o valor que a concessionária paga ao poder público pelo direito de continuar a explorar economicamente a ferrovia. O restante é o adicional de vantajosidade, ou seja, um valor extra que o governo exige para justificar essa renovação antecipada, mostrando que ela traz mais benefícios do que fazer uma nova licitação.>
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A VLI teria de assumir, ainda, o compromisso de investir cerca de R$ 40 bilhões nos trechos de concessão que manteria sob seu comando, ao longo de mais três décadas. Uma última condição colocada pelo governo diz respeito ao trecho da malha.>
O traçado que ficaria com a VLI teria, necessariamente, de incluir a modernização e operação de mais de 1.100 km da malha localizada entre Minas Gerais e Bahia, um trecho que, até então, tinha previsão de ser devolvido pela empresa. A preocupação do governo é evitar o isolamento logístico da Bahia, comprometendo o transporte ferroviário de cargas no estado.>
O Ministério dos Transportes não comenta o assunto. Havendo acordo, a proposta será encaminhada para a Secretaria de Consenso do TCU (Tribunal de Contas da União), que atua na mediação de contratos entre a União e o setor privado, como forma de evitar litígios e analisar possíveis acordos.>
A atual concessão, que tem prazo de 30 anos, foi assinada em agosto de 1996 e acaba em agosto do ano que vem. Antes disso, o governo precisa tomar uma decisão final, sobre renovar o contrato atual ou deixar que vença, para realizar novas licitações.>
"A autorização para que novas empresas assumam os trechos abandonados pode ser uma boa saída. Os interesses econômicos mudam e as regiões, também. Há outros interessados em explorar essas áreas, com o crescimento econômico em diversas regiões do país", diz Paulo Henrique Dantas, especialista em infraestrutura, sócio do escritório Castro Barros Advogados. "O que não podemos é seguir com o privilégio de não fazer, mantendo o trajeto nas mãos de uma empresa que não utiliza mais o trecho.">
Como revelou a Folha, a área técnica do Ministério dos Transportes estudou o assunto e concluiu que a melhor opção para o governo e a população seria deixar com que a concessão atual acabasse e partisse para oferta de trechos diferentes, desmembrando em ao menos dois lotes o traçado total da malha.>
O governo avalia, porém, que, se a empresa concordar com as suas condições, já teria nas mãos o resultado financeiro e estratégico que teria de buscar em novos leilões, o que também demandaria mais tempo e incluiria imprevisibilidades.>
Por meio de nota, a VLI declarou que as negociações sobre a renovação antecipada da concessão seguem regularmente, com "diálogo entre governo e companhia" e que, neste processo, já adaptou suas propostas para cumprimento integral da nova portaria de diretrizes do Ministério dos Transportes, para obter a prorrogação.>
"Ao longo do tempo, por meio de um processo aberto e transparente, a VLI apresentou um conjunto de propostas equilibradas nos aspectos operacional e econômico, de amplo espectro e com volume expressivo de investimentos (dezenas de bilhões de reais), que podem gerar desenvolvimento e renda para milhões de brasileiros", afirmou a empresa.>
Essas propostas, segundo a companhia, "abrangem muitos pontos de confluência entre o interesse público e privado", sinalizando que o acordo tende a ser a melhor opção.>
"A renovação antecipada representa os interesses de seus clientes, fornecedores e sociedade, além de reduzir riscos de atrasos em investimentos críticos para a transformação da logística brasileira", declarou a VLI.>
Os 7.857 km de linhas da FCA interligam Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Bahia, Sergipe e Distrito Federal, conectando-se às demais concessões que operam no país.>
Uma auditoria concluída no fim do ano passado pelo TCU mostrou que, dos 7.857 km de extensão da FCA, cerca de 3.000 km estão inutilizados. Em outros 2.700 km, o tráfego foi classificado como "baixíssimo", com menos de um par de trens passando pela malha diariamente. O uso mais regular, portanto, limita-se a apenas 2.157 km de toda a concessão, ou seja, apenas 27% da rede é explorada com regularidade.>
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