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Apesar de queixas de Bolsonaro, Guedes diz que não vende Petrobras neste mandato

Ainda assim, Guedes defendeu a venda da companhia e sinalizou a possibilidade de dividir os recursos arrecadados com as famílias mais carentes como um "incentivo político" à aprovação da privatização

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 08/12/2021 às 08h38
O ministro Paulo Guedes
O ministro Paulo Guedes. Crédito: Washington Costa/ASCOM/ME

Após o presidente Jair Bolsonaro (PL) indicar vontade de privatizar a Petrobras no momento em que a alta nos preços dos combustíveis incomoda o Planalto, o ministro Paulo Guedes (Economia) disse nesta terça-feira (7) que a estatal não será vendida, "ao menos neste mandato".

"Todos sabem que eu sou a favor de privatizar todas essas companhias, mas o presidente disse: 'Ok, você pode vender Correios, Eletrobras, subsidiárias que não são o negócio central'. Mas a Petrobras não está na lista de privatizações, ao menos neste primeiro mandato", afirmou o ministro durante evento em inglês promovido pela Eurasia.

Apesar disso, Guedes defendeu a venda da companhia e sinalizou a possibilidade de dividir os recursos arrecadados com as famílias mais carentes como um "incentivo político" à aprovação da privatização, que requer aval do Congresso.

Segundo o ministro, o governo poderia destinar cerca de 20% do valor arrecadado às famílias mais carentes, enquanto os outros 80% serviriam para reduzir a dívida pública brasileira.

"Quando se fala hoje em privatização, os políticos dizem: 'O que eu ganho isso, o que eu ganho politicamente?'. Que tal reduzir a pobreza no Brasil, isso é um incentivo bom o suficiente?", afirmou.

A indicação de que a Petrobras segue nas mãos do governo, ao menos até o fim de 2022, vem pouco mais de um mês após o presidente se queixar publicamente de não poder direcionar o preço do combustível, mas levar "a culpa" pelo aumento dos valores.

"Já tenho vontade de privatizar a Petrobras, tenho vontade. Vou ver com a equipe da economia o que a gente pode fazer", disse Bolsonaro no mês de outubro.

Sucessivos aumentos no preço da gasolina e do diesel alimentaram a inflação e pesam negativamente na popularidade do presidente, que pretende buscar a reeleição em 2022..

A política de preços da Petrobras, por sua vez, acompanha a cotação internacional do barril de petróleo e também é influenciada pelo dólar, que também está elevado diante de um real cada vez mais desvalorizado.

No fim de outubro, rumores de que o governo preparava um projeto de lei para privatizar a companhia animaram o mercado financeiro. Os preços das ações da Petrobras dispararam.

A estatal questionou formalmente o governo sobre a existência desses estudos.

No início de novembro, a Petrobras divulgou comunicado ao mercado informando que tanto o Ministério de Minas e Energia quanto o Ministério da Economia negaram a existência de qualquer decisão relevante nesse sentido.

Apesar da ausência de estudos formais, Guedes disse hoje acreditar que "a opinião pública no Brasil está pronta" para entender que "o ciclo de grandes estatais acabou".

Até agora, no entanto, o governo conseguiu apenas a aprovação da capitalização da Eletrobras no Congresso. Duas estatais foram criadas, uma para cuida de navegação aérea e outra para concentrar a área nuclear da Eletrobras.

O Congresso ainda discute a privatização dos Correios.

"Sou a favor de privatizar a Petrobras. Não faz sentido ter um país em que o estado é muito rico, temos R$ 1 trilhão em imóveis, outro trilhão em estatais, R$ 2 trilhões em recebíveis, um setor público muito rico, com uma população pobre", afirmou.

O ministro incluiu a venda da Petrobras na lista de medidas que fariam parte de um eventual segundo mandato de Bolsonaro, caso o presidente seja vitorioso na eleição de 2022.

Outra proposta que faria parte do programa de campanha, segundo Guedes, é a criação de um regime de capitalização da Previdência, em que os trabalhadores recolhem em contas individuais valores que futuramente bancarão suas aposentadorias.

Esse tipo de regime já foi proposto pela equipe econômica, mas acabou sendo um dos primeiros dispositivos descartados pelo Congresso durante a tramitação da reforma da Previdência, em 2019.

A fala do ministro indica que a equipe pretende insistir na mudança. "Tão logo o presidente seja reeleito, se a coalizão entre liberais e conservadores for renovada, acredito que a agenda é muito clara. Vamos para o segundo round, com o esquema da capitalização para 40 milhões de brasileiros [que estão no mercado informal]", disse Guedes.

A capitalização estaria associada à chamada Carteira Verde e Amarela, proposta do governo que nunca saiu do papel, mas permitiria a contratação de trabalhadores pelas empresas sob a cobrança de menores encargos.

O programa de campanha de Bolsonaro, segundo Guedes, também inclui propostas já apresentadas pelo governo, mas que estão paradas no Congresso. Entre elas estão as reformas tributária e administrativa.

O governo encaminhou dois projetos de alteração de tributos, um unificando PIS e Cofins e outro modificando as regras do Imposto de Renda. Ambos travaram no Congresso diante da falta de consenso em torno dos textos.

Já a reforma administrativa, que altera as regras de contratação na administração pública, foi enviada no fim de 2020, aprovada na comissão especial da Câmara com mudanças, mas ainda não foi votada no plenário.

Lira tem cobrado mobilização do governo para a aprovação da reforma administrativa, cujo avanço é considerado difícil até mesmo dentro da equipe econômica diante da proximidade das eleições.

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