Cada R$ 1 acrescentado ao salário mínimo eleva as despesas da União em R$ 413,2 milhões, segundo estimativa das consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado. Com o piso projetado em R$ 1.741 para 2027, alta de 7,4%, a fatura extra chega a R$ 49,6 bilhões. Pouca gente liga esse número à Selic, que, consensualmente, está elevada.
O salário mínimo corrige o piso das aposentadorias do INSS, a aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada. Quando esse gasto cresce mais rápido do que a economia consegue crescer sem gerar inflação (algo entre 1% e 2% ao ano), o governo disputa com famílias e empresas a mesma capacidade produtiva. O Banco Central responde com juros. O mesmo vale para os pisos de saúde e educação, presos à receita corrente líquida, que costuma andar acima do PIB.
A conta do juro já aparece fora de Brasília. A Serasa Experian registrou 977 pedidos de recuperação judicial em 2025, envolvendo 2.466 empresas, o maior número de empresas da série histórica, com a agropecuária respondendo por 30,1% delas. É o setor que vive de crédito pagando o preço de uma decisão tomada no Orçamento.
A resposta mais comum é cortar subsídio de empresas antes de mexer em benefício. De fato, muitos subsídios são distorções (que pesam no bolso de quem não os tem), mas retirá-los é, na prática, aumentar imposto: melhora o caixa do governo, sem reduzir a pressão sobre a demanda. Segundo Samuel Pessôa, em entrevista ao Livres, com os juros de hoje, estabilizar a dívida pediria um superávit primário de 6% do PIB, algo fora do alcance. Sem juro menor, não há ajuste possível.
Para ele, um ajuste viável seria, por exemplo: ganho real de 0,5% ao ano para o salário mínimo (equivalente ao ritmo da produtividade do trabalho no último meio século) e pisos de saúde e educação corrigidos pelo mesmo índice do arcabouço fiscal. Se a meta de superávit não for cumprida, a correção deve ser limitada à inflação até que ela volte.
O paradoxo é incômodo. O reajuste generoso do salário mínimo parece proteger o mais pobre, mas o juro que ele ajuda a sustentar volta para essa mesma pessoa no cartão, no carnê e no emprego da empresa que pediu recuperação. Talvez a política social mais efetiva do Brasil hoje seja a mais impopular: aceitar que o benefício cresça devagar para que o crédito volte a caber no bolso. Cada real a mais no piso tem um preço para todos nós. Entretanto, fazer com que a população compreenda seus efeitos negativos parece muito mais difícil do que satisfazê-la com benefícios diretos.
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