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Entrevista exclusiva

Comandante-geral da PM sobre reajuste: "Governador quer fazer justiça"

Coronel Sartório, que não acredita em risco de nova greve, espera que Casagrande cumpra a promessa de aumento "diferenciado" não só para praças, mas também para oficiais da tropa. "Oficiais não são uma casta"

Publicado em 06 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

06 jan 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Coronel Márcio Sartório, comandante-geral da PMES Crédito: Amarildo
Com o cargo assumido por ele em novembro de 2019, o comandante-geral da Polícia Militar do Espírito Santo, coronel Márcio Sartório, assumiu também uma missão: fazer a mediação entre a cúpula do governo Casagrande e as tropas, que reivindicam aumento salarial. Nesta conversa exclusiva com a coluna, Sartório defende que os integrantes da PMES recebam de fato, em 2020, uma recomposição salarial “diferenciada” em relação a outras categorias do Estado, conforme o governador Renato Casagrande (PSB) indicou, em entrevista ao podcast “Papo de Colunista” publicada em 19 de dezembro. “O governador quer fazer justiça”, afirma o comandante-geral.
Segundo Sartório, esse reajuste num percentual diferenciado deve valer não só para os praças da PMES como também para os oficiais. “A questão não é só o soldado. Os salários da Polícia Militar do Espírito Santo como um todo, de todos os postos e graduações, estão muito abaixo da média nacional.” O comandante-geral, inclusive, demonstra preocupação especial em não distinguir os membros da corporação de acordo com a patente e em apresentar uma força policial unida:
“Há quem diga que ‘os oficiais são uma casta diferente’. Não, não são. São planejadores e são executores, até porque nós participamos de policiamento, de operações policiais. E não existe uma cisão dentro da PM.”
Sartório defende que a valorização salarial é importante para aumentar a motivação dos policiais em atividade, até por conta da defasagem de efetivo - segundo ele, atualmente, faltam cerca de 2,5 mil policiais. “A gente tem que aumentar a motivação do policial, para continuar dando os excelentes resultados que tivemos em 2019 e nos anos anteriores.”
Não só por isso, mas também para que não tenhamos, nas palavras dele, “tragédias como tivemos em 2017”. Aliás, será que o comandante enxerga algum risco de repetição da greve de fevereiro daquele ano? “Não, neste momento não, até pela sensibilidade do governo Renato Casagrande em ouvir as categorias”, refuta Sartório.
Confira, abaixo, a entrevista na íntegra:

Os policiais militares do ES, sobretudo os soldados, frequentemente reclamam de receberem um dos piores salários do Brasil, se não o pior, considerando os salários pagos à categoria nas 27 unidades federadas. Em entrevista recente ao podcast “Papo de Colunista”, o governador afirmou que, em 2020, pode dar um aumento salarial “diferenciado” para categorias que recebam abaixo da média nacional daquela mesma categoria. Como o senhor avalia essa situação? Acha possível e realmente necessário que os PMs, sobretudo os soldados, recebam um reajuste acima da média das demais categorias do funcionalismo público estadual?

A questão não é só o soldado. Os salários da Polícia Militar do Espírito Santo como um todo, de todos os postos e graduações, estão muito abaixo da média nacional. Todas as patentes estão abaixo da média nacional. E o salário do soldado também está. Então o governador, nessa sua entrevista, fala do soldado e oficiais. Ele completa a fala. Então, o salário está defasado como um todo. E também nos diz o governador que agora, a partir de janeiro, já vai estar dando continuidade às tratativas, para realmente fazer essa recomposição salarial, que é fundamental. Pela nossa defasagem de efetivo, a gente tem que aumentar a motivação do policial, para continuar dando os excelentes resultados que tivemos em 2019 e nos anos anteriores. Então, são 2,5 mil policiais a menos. E esses homens e mulheres que hoje estão na atividade estão se sobrecarregando para dar o resultado que a população capixaba precisa. E o interessante nisso é que sim: todos são importantes no sistema. Há quem diga que “os oficiais são uma casta diferente”. Não, não são. São planejadores e são executores, até porque nós participamos de policiamento, de operações policiais. E não existe uma cisão dentro da PM. Não existem grupos separados. Oficiais e praças não são grupos. Eles fazem parte de um mesmo organismo. Tanto que usamos os mesmos uniformes, fazemos as mesmas atividades. Uns têm mais responsabilidade em comandamento, responsabilidade administrativa e operacional, e outros na execução da atividade, como em qualquer grande empresa. Então a importância do soldado e do coronel da polícia é a mesma. Todos são importantes.

O governador já anunciou, algumas vezes inclusive, que neste ano de 2020 dará, sim, um reajuste para todas as categorias do Estado e espera fazer isso em todos os anos do governo dele, até 2022. O senhor espera, no entanto, que para praças e oficiais da Polícia Militar esse reajuste seja num percentual acima do que será dado para as demais categorias do funcionalismo público estadual, que não recebem um salário tão abaixo da média nacional?

É, segundo o nosso governador, ele quer fazer justiça com essa avaliação. Então as secretarias de Estado estão fazendo essa apuração, para fazer a apresentação das tabelas e ver as variações. Então pode ter outras categorias. Eu digo que o policial não tem uma importância diferente de um professor, de um médico, de um enfermeiro... Todos têm importância fundamental. E essa avaliação da diferença que cada um tem para a média nacional é fundamental para que se faça justiça.

Já há alguma estimativa de percentual de reajuste?

Não. As tabelas ainda não foram apresentadas, e a equipe do governo está tentando trabalhar o mais rápido possível para que essas tratativas tenham continuidade.

Agora na posição de comandante-geral da PMES, o senhor está fazendo esse meio de campo entre a cúpula do governo e as tropas e entidades que as representam, sobretudo as associações, agora também reunidas na Frente Unificada de Valorização Salarial. Como tem sido essa sua atuação? E como o senhor está se sentindo nesse papel de mediador?

Nós respeitamos muito o governo do Estado. Aceitamos o convite do governador Renato Casagrande para assumir o comando da PMES, até com esse propósito. Tem algumas pessoas que pensam que o comandante da PMES não deveria interferir nessa relação salarial. Mas, sim, é obrigação minha interceder e ser o interlocutor entre as equipes de governo e a nossa tropa, até porque as forças militares não são sindicalizadas. Então nós não temos direito a greve. Nós temos restrição de diversos direitos. Por isso o comandante, quando responsável, tem que assumir esse papel e tem até que se desgastar em alguns momentos para buscar melhorias para sua tropa. Então é fundamental essa atuação, para que não tenhamos tragédias como tivemos em 2017.

Falando em tragédia e na grave de 2017, o senhor acredita em algum risco de repetição de um movimento como aquele?

Não, neste momento não, até pela sensibilidade do governo Renato Casagrande em tratar, em discutir, em conversar e em ouvir as categorias. Então creio que essa solução será dada no menor prazo de tempo possível.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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