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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Traído, Vandinho detona Amaro Neto: "É um ótimo palhaço de circo"

Pré-candidato a prefeito da Serra, Vandinho antecipa o quebra-pau aguardado para a campanha e explode contra ex-aliado que virou concorrente direto: "Ele só quer o poder pelo poder. A Serra não o aceitará"

Publicado em 02/04/2020 às 05h00
Atualizado em 02/04/2020 às 05h02
Vandinho Leite chamou Amaro Neto de
Vandinho Leite chamou Amaro Neto de "palhaço de circo". Crédito: Amarildo

No romance Dona Flor e seus dois maridos (1966), um dos mais conhecidos de Jorge Amado, a cozinheira Dona Flor se casa em segundas núpcias com o farmacêutico Doutor Teodoro, um homem mais velho e muito conservador, com quem leva uma vida pacata, mas sem grandes alegrias e, hum... "satisfação pessoal". Certo dia ela começa a ter visões do espírito de Vadinho (filho de Exu), seu primeiro marido, de quem enviuvara. Com ele passara muitos dissabores, mas era feliz na cama. Após muito resistir à tentação, Dona Flor acaba “traindo” Teodoro com o espírito de Vadinho.

Na Serra – onde moram muitos baianos que vêm tentar a vida na cidade –, o espírito que baixou foi o de Jorge Amado, que reescreveu a sua obra nas páginas políticas da cidade. Mas, nessa nova versão, Vandinho (com n, diminutivo de Vanderson) não foi cúmplice de uma traição. Foi o próprio personagem traído!

Pelo menos é assim que o deputado estadual Vandinho Leite (PSDB) se sente em relação ao deputado federal Amaro Neto (Republicanos), que decidiu transferir seu domicílio eleitoral de Vitória para a Serra, podendo assim ser candidato à sucessão do prefeito Audifax Barcelos (Rede) nas eleições municipais deste ano. O problema é que Vandinho também pretende disputar o mesmo cargo e contava com o apoio de Amaro para cumprir esse objetivo – ou seja, esperava ter Amaro como apoiador, não como potencial adversário.

Amaro ainda não confirmou se será mesmo candidato (pode fazê-lo até agosto), mas sua transferência de domicílio é um indicativo fortíssimo disso. E foi o suficiente para levar Vandinho, o presidente do PSDB no Espírito Santo, a endereçar declarações duríssimas a Amaro e à possível candidatura do deputado federal a prefeito da Serra, em conversa com a coluna na tarde desta quarta-feira (1°).

Principal prejudicado com a decisão de Amaro, Vandinho está possesso com ele e com Roberto Carneiro (presidente estadual do Republicanos e estrategista político do deputado federal). Chegou a comparar Amaro a um “palhaço de circo”.

Vandinho Leite (PSDB)

Deputado estadual

"Como cidadão da Serra, ver uma jogada política como essa ao mesmo tempo em que temos uma crise gravíssima com o coronavírus… Uma manobra política dessa, a esta altura do campeonato, beira ao circo! É como eu chamo esse movimento. Para mim, o Amaro Neto é um ótimo palhaço de circo."

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Vandinho também enfatizou o fato de Amaro, na realidade, não ser da Serra e, segundo ele, mal conhecer a geografia do município.

“Não acredito em eleição de Amaro na Serra. A Serra não vai aceitar isso. Ele nem conhece os bairros da Serra pelo nome. Diz que morou aqui, mas ninguém sabe, ninguém viu. É aquela prática da velha política. Faz meses que ele fala que está escolhendo em qual município vai disputar a prefeitura… Como assim ‘escolhendo o município’? É poder pelo poder! É não ter capacidade de gestão nenhuma. É não ter projeto nenhum a apresentar ao município”, disparou o deputado tucano. E emendou:

Vandinho Leite

Deputado estadual

"A Serra não vai aceitar um político que mora na elite da Praia da Costa para governar o município. A população não quer conviver com esse tipo de político, um político de jogadas, que vota contra pautas populares como foi o caso da prisão de quem tem condenação em segunda instância."

Vandinho faz questão de deixar claro: com ou sem Amaro, o PSDB terá candidato a prefeito da Serra (no caso, ele mesmo): “O PSDB com certeza terá candidato. Em momento algum coloquei essa candidatura condicionada a Amaro ou a quem quer que seja. O partido tem projeto para a cidade, e isso continua da mesma forma. Não muda uma vírgula”.

Vandinho esperava poder ser o único candidato do grupo politico do próprio Amaro na Serra. Nesse caso, teria o apoio do Republicanos na cidade e, em contrapartida, levaria o PSDB a apoiar o próprio Amaro em Vitória (ou o deputado estadual Lorenzo Pazolini, pelo Republicanos, se Amaro não quisesse se candidatar a nada).

Mas, com a surpreendente decisão de Amaro de transferir seu domicílio eleitoral para a Serra, muda completamente o jogo. Amaro, de certo modo, “invade” e dá um “chega pra lá” em Vandinho no território do próprio tucano.

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Removidos todos os excessos – as ofensas pessoais etc. –, um dos principais argumentos de Vandinho para criticar Amaro tem, sim, pertinência: as movimentações e declarações de Amaro no período que antecede as eleições denota, por vezes, certo casuísmo político. Assim como em 2016, o apresentador de TV passou este período pré-eleitoral mantendo abertas, até o último momento, as possibilidades de ser candidato a prefeito em dois ou mais dos municípios da Grande Vitória. Em nenhum momento falou: “Sou daqui. Minha cidade é essa. Meu projeto de governo é para ela”.

Em vez disso, manteve novamente aquela dinâmica de “posso ser candidato aqui, ou lá, ou acolá”... Assim fica parecendo, mais uma vez, que o mais importante para ele é se tornar prefeito, seja onde for, e que a cidade que ele vai governar, se eleito, não passa de um detalhe menor.

A aspiração eleitoral é legítima, é lógico, assim como a justa ambição de crescer politicamente. Mas realmente esse jogo de Sarney (que é do Maranhão, mas foi eleito senador pelo Amapá) transmite falta de compromisso sincero com a cidade e uma escolha baseada, fundamentalmente, em probabilidades de sucesso nas urnas. Ponto.

Por outro lado, o tom muito elevado e passional adotado por Vandinho e a agressividade do teor de suas palavras revelam uma propensão precoce a “abaixar o nível” da disputa eleitoral na Serra. Vandinho adota agora, no dia 1º de abril, uma tática de ataque frontal que candidatos costumam guardar para o auge da campanha propriamente dita (geralmente quem está perdendo e só em caso de extrema necessidade).

Vandinho, assim, parece ter morrido com o barulho do tiro. Ao dar a ver suas armas assim com tamanha prematuridade, no dia 1 tendo Amaro como potencial concorrente direto, também queimou cartuchos antes da hora e permitiu a Amaro antever os argumentos que terá que rebater durante a campanha. Acabou o “elemento surpresa”.

E outra: Amaro, a rigor, pode mesmo acabar não sendo candidato. Embora seja menos provável, isso pode mesmo acontecer. E, se acontecer, o deputado federal passará a ser um cabo eleitoral cobiçado na Serra. Mas, depois desta entrevista e de publicações de Vandinho sobre Amaro no mesmo tom em suas redes sociais, o apoio de Amaro dificilmente será franqueado a Vandinho. Ficará muito feio para os dois…

Aliás, isso vale não só para a eleição deste ano. A política dá muitas voltas e, se no futuro Vandinho vier a precisar do apoio de Amaro, essa explosão dele agora, dizendo tantas “verdades” sobre o deputado em tom tão acalorado, será sempre recordada. É daqueles rompantes que deixa sequelas para sempre.

Por fim, não se pode deixar de fazer um registro: se, em vez de "invadir a Serra", Amaro tivesse decidido se candidatar em Vitória ou em qualquer outra cidade, Vandinho não o chamaria de "palhaço de circo". Na verdade, apoiaria o "palhaço".

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