Prevista para 31 de março, a eleição da próxima diretoria da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes) já mobiliza prefeitos pelo Estado e também o governo estadual, que sempre tem grande influência sobre a escolha do comando da entidade máxima de representação dos prefeitos capixabas (algo como um “Sindicato dos Prefeitos”).
O prefeito de Ibatiba, Luciano Pingo (Republicanos), é candidato declarado à presidência, ocupada desde 2019 pelo agora ex-prefeito de Viana Gilson Daniel (Podemos), grande aliado do governador Renato Casagrande. Enquanto isso, três nomes intimamente ligados ao governo e filiados ao PSB são cotados para entrar nessa disputa encabeçando uma chapa apoiada pelo Palácio Anchieta (como foi a de Gilson, há dois anos).
O ex-prefeito de Nova Venécia, Mário Sérgio Lubiana (PSB), admitiu à coluna nesta quinta-feira (18) que foi sondado por Gilson Daniel e que tem interesse em ser candidato à presidência. Tecnicamente, mesmo não sendo mais prefeito, ele pode concorrer, a partir da alteração no estatuto da Amunes efetuada no ano passado. O prefeito de Anchieta, Fabrício Petri (PSB), também diz que foi sondado por Gilson Daniel e que está avaliando a ideia de lançar candidatura.
O único que não respondeu à coluna nesta quinta-feira é o mesmo que pode surpreender nas próximas semanas como o candidato oficial do governo: segundo informações de governistas envolvidos no processo, o prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho (PSB), é o nome preferido do Palácio Anchieta e, após resistência inicial, estaria sendo convencido pessoalmente por Gilson Daniel a assumir a cabeça da chapa (ou até já teria sido convencido).
O presidente estadual do PSB, Alberto Gavini, confirma que, no que depender do partido do governador, o candidato sairá dessa “lista tríplice”: “Enquanto partido, temos alguns prefeitos que achamos que poderiam ter um papel muito interessante na Amunes, inclusive um ex-prefeito: o Lubiana, de Nova Venécia, o Fabrício Petri, de Anchieta, e o Victor Coelho, de Cachoeiro. São pessoas com experiência e capacidade, que poderiam contribuir muito lá.”
Na próxima sexta-feira (26), a Amunes publicará o edital que vai reger todo o processo eleitoral. Veja abaixo o que cada um dos cotados para a presidência diz:
DE NOVA VENÉCIA, BARRIGUEIRA
Conhecido pelo apelido de Barrigueira, Mário Sérgio Lubiana foi prefeito de Nova Venécia por dois mandatos, de 2013 a 2020, pelo PSB, e é, desde 2019, o vice-presidente da Amunes, eleito na chapa de Gilson Daniel. Na ocasião, ele chegou a ensaiar candidatura, mas abdicou em favor do então prefeito de Viana. Agora, com a possibilidade aberta pela mudança no estatuto, confirma interesse em disputar a presidência.
“Sim, posso ser candidato à presidência. Já fui sondado pelo Gilson Daniel. Ele me perguntou se eu tinha interesse. Eu respondi que poderíamos conversar sobre o assunto. Logicamente, também temos uma aproximação forte com o governo do Estado. Na eleição passada, abri mão para o Gilson ser candidato. E tem também alguns prefeitos com quem estamos conversando e que já deram o positivo.”
Independentemente de sua participação na Amunes, Lubiana muito provavelmente passará a compor em breve a equipe de governo de Casagrande. Técnico em agropecuária e produtor de café, ele afirma ter a expectativa de ser chamado a atuar em algum espaço ligado a essa área (como algum cargo no Incaper ou na Secretaria de Agricultura).
DE ANCHIETA, FABRÍCIO PETRI
Eleito pelo MDB em 2016 e reeleito no ano passado pelo PSB, Fabrício Petri inicia seu segundo mandato em Anchieta também como carta na manga do partido e do governo para a presidência da Amunes. Assim como Lubiana, ele diz já ter sido abordado por Gilson Daniel sobre o assunto. Mas a sondagem, por enquanto, não evoluiu para algo mais concreto.
“Fico muito feliz e lisonjeado pelo fato de ter sido lembrado. Isso também decorre do bom trabalho que temos realizado à frente de Anchieta, tendo o nome provavelmente avalizado pelo Palácio e pelo atual presidente da entidade, Gilson Daniel. Mas eu ainda não me decidi. Estou amadurecendo a ideia e aguardando o cenário clarear. O próprio Gilson me perguntou se eu teria interesse, dizendo que futuramente o Palácio iria com a gente. Mas não estive em nenhum momento com o governador, nem com nenhum secretário ou representante do governo para tratar desse assunto.”
DE IBATIBA, LUCIANO PINGO
Único candidato declaradíssimo à sucessão de Gilson Daniel até o momento, o prefeito de Ibatiba já está se movimentando há algum tempo. Confirma estar em plena campanha e diz já ter conversado com cerca de 40 dos 78 prefeitos sobre a sua candidatura à presidência da Amunes. Na gestão do prefeito de Linhares, Guerino Zanon (MDB), de 2017 a 2019, Pingo fez parte da diretoria da associação como secretário-geral. Na atual, é diretor de Agricultura.
Apesar de não ser do PSB (diferentemente dos outros possíveis postulantes), Pingo ressalta que, no ano passado, reelegeu-se com o apoio do partido do governador em sua cidade, na região do Caparaó, divisa com Minas Gerais.
Pregando a união como seu lema político, ele afirma que trabalha para construir uma chapa de consenso na Amunes – "se possível, eleita por aclamação" –, a fim de evitar divisões na entidade que representa os interesses em comum dos prefeitos junto ao governo estadual e a outras esferas de poder. “Sempre busquei construir unidade na vida pública. Trabalho com união, não desagrego na política. Minha história não me deixa mentir.”
Eleito pelo MDB em 2016 e reeleito no ano passado pelo Republicanos, Pingo pode não desfrutar da predileção do governo Casagrande, mas fará sua parte para convencer o Palácio Anchieta a apoiá-lo: “Serei o candidato do Palácio se o governador quiser”. Ele diz não querer criar "clima de disputa política" na Amunes. "Isso pode trazer alguns transtornos para a instituição, para os municípios, para a relação com os Poderes."
O prefeito já apresenta, inclusive, algumas das principais bandeiras de campanha que pretende levar para a Amunes: “Acredito que estou preparado para fazer da Amunes a referência em inovação e gestão que aplicamos em Ibatiba, município que hoje é referência no Caparaó e no sul do Estado. Tanto que, em 2019, foi a 3ª cidade do sul que mais investiu. Perdemos apenas para Anchieta e Cachoeiro de Itapemirim, de acordo com a Revista Finanças dos Municípios Capixabas”.
Curiosamente, em Anchieta e Cachoeiro estão dois dos seus possíveis concorrentes nesse pleito.
O NÓ NO PINGO
Apesar do discurso agregador de Pingo, o maior empecilho para ele nesse processo transcende muito a disputa interna e a pauta específica da Amunes. Está no atual contexto geopolítico capixaba. O prefeito “deu o azar” de se reeleger em 2020 pelo Republicanos. Segunda força política do Espírito Santo no momento (atrás do PSB), o partido foi o que mais cresceu nas últimas eleições municipais. Hoje, comanda 10 prefeituras no Estado, incluindo Vitória, além de ter preservado a presidência da Assembleia Legislativa.
Mesmo com o Republicanos cada vez mais integrado ao governo de Renato Casagrande, o superdimensionamento desse partido gera preocupação no Palácio Anchieta. E, para o governo Casagrande, virou questão de honra política emplacar um presidente da Amunes que seja filiado ao PSB, marcado a ferro em brasa com o emblema e o brasão do governo.
É aí que entra Victor Coelho.
DE CACHOEIRO, VICTOR COELHO
Com perdão pelo trocadilho infame, Coelho ainda não saiu da toca nesse processo, mas pode ser questão de tempo: ele é o “nome natural” a ser apoiado pelo governo Casagrande à presidência da Amunes.
Além de estar com o capital político em alta, após ter sido reeleito com votação expressiva em 2020, Coelho é, nos 10 maiores municípios capixabas, o único prefeito eleito pelo PSB. Cachoeiro é a maior cidade do sul e a 5ª mais populosa do Espírito Santo. Até por eliminação, por sua filiação partidária e pelo tamanho do município governado, Victor Coelho faz total sentido como aposta do governo Casagrande.