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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Quem é o militar que pretende ser candidato a prefeito de Vila Velha?

Assessor de Comunicação do Corpo de Bombeiros do ES, o tenente-coronel Wagner Borges pôs seu bloco eleitoral na rua, para valer, no último domingo. Embora negue o óbvio, seu discurso, seus gestos, sua estratégia e até sua negação são típicos de quem é pré-candidato

Publicado em 22/07/2020 às 05h03
Atualizado em 22/07/2020 às 19h16
Coronel Wagner se lançou na corrida pela Prefeitura de Vila Velha
Coronel Wagner se lançou na corrida pela Prefeitura de Vila Velha. Crédito: Amarildo

A lista de pré-candidatos a prefeito de Vila Velha na eleição de novembro já era grande, mas acaba de ficar ainda maior. Num movimento ostensivo, o tenente-coronel Wagner Borges (sem partido), assessor de Comunicação do Corpo de Bombeiros do Espírito Santo, colocou o seu bloco eleitoral na rua, para valer, no último domingo (19).

Muita gente recebeu um material disparado em larga escala por WhatsApp pelo próprio Wagner e por pessoas ligadas a ele, no qual, em texto e vídeo, sem dizer que quer ser candidato, o militar passa exatamente esse recado para todos. O discurso é de pré-candidato, o gestual é de pré-candidato, a estratégia é de pré-candidato e até a maneira de negar que seja pré-candidato… é típica de quem o é.

A fala de 5min30s gravada por Wagner é, do início ao fim, um discurso muito característico de quem está se colocando na disputa pela prefeitura. Ele começa o vídeo sublinhando que tem sido procurado por muitas pessoas, incluindo dirigentes partidários, e que todos querem saber e lhe perguntam se será candidato. Também enfatiza a sua conexão com Vila Velha (onde nasceu e vive), afirmando que tem andado há muito tempo por toda a cidade, que a conhece bem não como “alguém que está atrás de uma mesa”, mas a serviço dos Bombeiros, e que tem visto “a angústia do povo”.

O tenente-coronel usa expressões como “somar forças”, “unir forças”, “juntar todas as pessoas de bem” e “formar uma corrente de bem”. Fala mais de uma vez em “construir um projeto para a cidade”. Declina seis vezes o substantivo “transformação” e o verbo “transformar” em várias conjugações. Disponibiliza um número de WhatsApp como canal direto para qualquer pessoa entrar em contato com ele e contar os problemas cotidianos enfrentados por sua comunidade (“Alô, Wagner”). No fim, o vídeo é assinado com duas frases que mais lembram slogans de campanha: “Por uma nova Vila Velha” e “Vamos juntos construir o melhor programa para Vila Velha”.

No conjunto, enfim, o material corresponde ao lançamento extra-oficial de uma típica campanha eleitoral. Mas aí vem o paradoxo: não obstante o somatório de sinais, fortes sinais, fornecidos por ele próprio, o tenente-coronel se furta a assumir a pré-candidatura: “O momento não é de falar sobre candidatura, o momento não é de falar sobre política. Mas nós precisamos, sim, começar a conversar com Vila Velha sobre aquilo que a cidade realmente precisa, para que haja a construção de uma grande transformação”, diz ele, no vídeo. Aliás, repete isso mais duas vezes na mesma gravação.

Procurado pela coluna, Wagner reiterou a negativa paradoxal: “Ainda não me decidi sobre candidatura. Decidi conversar com a sociedade. Vou escutar gente de todos os bairros e vou construir um projeto como nunca foi feito na cidade”. Também voltou a frisar a abordagem crescente que tem sofrido por parte de dirigentes e o assédio de pessoas que o incentivam a ser candidato. Na sequência, repetiu o discurso do vídeo.

É óbvio que isso não passa de estratégia, legítima, para entrar na disputa como se não estivesse entrando, para não parecer afoito, não correr o risco de se queimar antes da hora, proteger-se dos adversários e, acima de tudo, preservar aquela aura de quem “não é político”, mas decidiu se colocar à disposição da cidade para colaborar com ela sem nunca ter sido “contaminado” pela política – ativo em que a sua equipe aposta.

O MENTOR POLÍTICO

A estratégia, por sinal, é ditada pelo empresário e consultor Aldeci Carvalho, também mentor, coordenador e estrategista político do então instrutor de segurança Marcos do Val (Podemos) em sua exitosa campanha ao Senado em 2018. Do Val, a propósito, é o principal apoiador de Wagner – e sua campanha há dois anos também foi muito calcada nesse perfil de outsider e nesse modelo “não sou político, mas alguém apartidário que veio de fora para contribuir”. A fórmula que deu certo há dois anos pode agora ser reeditada.

O próprio Wagner define Aldeci Carvalho como “amigo e estrategista político”. “Se eu vier, ele será o coordenador da minha campanha”, adianta. Em conversa com a coluna sobre a candidatura (desculpe: a “não candidatura”) de Wagner, Aldeci seguiu a mesma linha “ele não é pré-candidato, está conversando com a cidade, construindo um projeto planejado etc.”... “Meu papel é convencê-lo a ser candidato.” Ok.

Mas resta evidente o seguinte: ao dizer que o momento não é de falar de política, de partidos e de candidaturas, o oficial dos Bombeiros está exatamente começando a procurar viabilizar candidatura e se apresentando enfaticamente ao mercado político de Vila Velha como potencial candidato a prefeito. O movimento agora foi feito com o objetivo estratégico de mostrar à imprensa, aos moradores, dirigentes partidários e agentes políticos da cidade que ele decididamente está no jogo, também é um player político e não pode ser ignorado nesta fase de afunilamento do processo eleitoral.

Aliás, com esse movimento de Wagner, seu nome deve passar a ser considerado para valer em sondagens e simulações de cenário. Desse ponto em diante, os dirigentes não poderão deixar de incluí-lo em pesquisas internas de intenções de voto encomendadas pelos partidos. Nem a imprensa. E assim, exatamente como almeja, ele passará a ter o nome testado e o tamanho político medido também pelas réguas de terceiros. Se mostrar potencial de crescimento eleitoral, e os dirigentes perceberem isso, ele valoriza o próprio passe para negociar sua filiação partidária na hora de a onça beber água: a reta final da pré-campanha, em setembro.

E aí entra no raciocínio um privilégio de que goza o tenente-coronel, por ser militar, em relação aos potenciais concorrentes diretos (todos civis) nesse jogo da eleição à Prefeitura de Vila Velha: o de poder escolher o partido pelo qual disputará o pleito só lá no período das convenções partidárias e registro de candidaturas (até 26 de setembro), o que lhe confere tempo muito maior que o dos demais para “negociar seu passe”, sem ficar preso de antemão a nenhuma sigla. “No fim de agosto para início de setembro, tomarei essa decisão [sobre ser ou não candidato]”, diz Wagner. Até lá, ele seguirá buscando um partido.

Mas o que é um privilégio também não deixa de ser um problema.

A qual partido Wagner poderá se filiar? Será que, a esta altura do processo, todas as portas já estão fechadas, ou será que, como todo bom bombeiro, ele conseguirá abrir um caminho para si ou até arrombar portas, se necessário for? É o tema da próxima coluna, ainda nesta quarta-feira (22).

A MENSAGEM DO (NÃO) PRÉ-CANDIDATO

Vejam a reprodução da mensagem de Wagner disparada por ele mesmo e seus colaboradores pelo WhatsApp no domingo. Se isso não é discurso de pré-candidato a prefeito, não sei mais o que é:

“O momento atual e futuro é desafiador, mas juntando os conhecimentos e as experiências com a vontade de fazer e a coragem para tomar as decisões que precisam ser tomadas, com honestidade, gestão, estratégia, planejamento, visão, sabedoria na condução, responsabilidade e respeito com o dinheiro público, tenho certeza que transformaremos desafios em oportunidades e faremos de Vila Velha a melhor cidade do Brasil para se viver. Por uma nova Vila Velha! Participe! Vamos Juntos! Conto com Você!”

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