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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Quem é o candidato a prefeito de Vila Velha pelo Novo?

Procurador da AGU e professor de Direito, Dalton Morais acredita que eleitor canela-verde está cansado de “mais do mesmo” e de "políticos profissionais desconectados da sociedade"

Publicado em 03/03/2020 às 05h00
Atualizado em 03/03/2020 às 05h03
Dalton Morais, pré-candidato a prefeito de Vila Velha pelo Novo. Crédito: Amarildo
Dalton Morais, pré-candidato a prefeito de Vila Velha pelo Novo. Crédito: Amarildo

Seu pai era um humilde morador de Jerônimo Monteiro, no sul do Espírito Santo, que, aos 18 anos, foi tentar a vida no Rio de Janeiro, como ajudante de pedreiro, e instalou-se no Complexo do Alemão, um dos maiores conjuntos de favelas do mundo. Ali, na humildade, nasceu e cresceu Dalton Morais. O ano era 1969. O filho de pedreiro cursou todo o ensino básico em colégios municipais do Rio, até que, por sugestão de uma professora de música, fez a prova e foi aprovado para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas. Terminou o curso, mas não quis seguir para a academia de formação de oficiais do Exército (Aman), em Resende, no sul do Rio. “O ensino militar realmente é de alta qualidade. Porém eu tinha algumas dificuldades com a filosofia do mando, de você não poder contestar nenhuma ordem”, explica.

Passou então por alguns empregos – inclusive com o pai, numa empresa de construção civil – até encontrar a sua vocação e concluir, aos 31 anos, o curso de Direito da Uerj. Ainda durante a graduação, começou a ser aprovado em uma série de concursos. Logo após se diplomar, tomou posse, em 2002, como procurador federal da Advocacia Geral da União (AGU). Em 2006, foi transferido do Rio para o Espírito Santo. Desde a mudança, fixou-se em Vila Velha, onde continua morando até hoje – especificamente, na Praia da Costa. Além do cargo na AGU, é professor no curso de Direito da Faesa, onde leciona Direito Administrativo e Direito Constitucional.

Hoje, com meio século redondo de vida, Morais é o improvável candidato a prefeito da cidade na eleição deste ano – a primeira que ele disputará –, representando o partido Novo. Ainda pouco conhecido pelo grande eleitorado, o procurador e professor aposta na “fadiga de material” das velhas e mesmas figuras que habitam o cenário político de Vila Velha. “A população está saturada de políticos profissionais que estão desconexos com os interesses reais da sociedade.” E acredita, acima de tudo, nos princípios e propostas do partido, com os quais se sente muito identificado, como o liberalismo econômico, a meritocracia e a busca por eficiência na administração pública. “Foi o que pratiquei a minha vida inteira.”

Apoiador de João Amoêdo na eleição presidencial de outubro de 2018, Morais participou, espontaneamente, de sua primeira reunião do Novo no mês seguinte àquele pleito. No mesmo mês filiou-se. Em 2019, foi aprovado e realizou o curso do movimento RenovaBR para formação de líderes políticos. Decidiu, então, participar do processo seletivo interno do Novo para ser o representante do partido na eleição a prefeito de Vila Velha. No país inteiro, o partido decidiu só lançar candidatos em 65 cidades. No Espírito Santo, serão somente duas. A outra é Vitória, onde o candidato do partido será o coronel Nylton Rodrigues.

A seleção interna envolveu análise de currículo, comprovação de pelo menos oito anos de experiência em gestão pública ou privada, uma bateria de entrevistas e a apresentação de um projeto inicial com propostas para duas áreas da cidade. “Apresentei para quatro: educação, segurança, aumento de produtividade no serviço público e melhoria do ambiente de negócios”, conta ele.

Após passar por todas as etapas do processo, Morais recebeu, em dezembro, a notícia de que fora aprovado. Entre os postulantes à vaga em Vila Velha, ele foi o único considerado apto para ser candidato a prefeito. A legenda é sua, portanto. Em torno dele, já há uma equipe de 80 voluntários trabalhando na pré-campanha. E ele afirma: não quer vencer a qualquer custo, mas acredita ser possível ganhar de verdade a eleição, derrotando todos os Golias, inclusive a máquina da atual gestão – já que o prefeito Max Filho (PSDB) deverá buscar a reeleição. “Essa eleição de 2020 será disruptiva, assim como foi a de 2018”, projeta.

Na entrevista completa de Morais, você pode conhecer melhor o que pensa o pré-candidato a prefeito de Vila Velha. Confira abaixo:

Como o senhor define o Novo e o que o atraiu no partido?

Primeiro ponto: liberalismo. Não liberalismo libertário ou anarco-capitalista. O Novo para mim pratica um liberalismo clássico. O que é um liberal clássico? É quem acredita que o poder estatal precisa ser limitado e contido. Daí porque nós temos o sistema de checks and balances, ou freios e contrapesos. É quem acredita na liberdade individual e principalmente no cidadão como vetor motriz de modificação da realidade social. E é quem acredita em meritocracia e eficiência pública. Isso é o que eu sempre fiz na minha vida toda. Eu sou um liberal, em primeiro lugar, porque sou um constitucionalista. Para mim, a democracia casa de maneira super adequada com você ter os mecanismos institucionais de solução da decisão pela maioria, mas precisando respeitar as minorias. E o liberalismo prega isso. Há os canais de decisão institucional, mas preservando as liberdades individuais, sejam elas majoritárias ou minoritárias. Isso é muito o que eu sempre preguei a minha vida inteira. E a parte da meritocracia e da eficiência estatal é algo que eu fiz a minha vida inteira. Sempre fiz mais com menos. Sempre fui um procurador preocupado em saber qual é o custo do processo. Como é que eu posso diminuir essa condenação? Como é que eu posso fazer com que o Estado gaste menos? Dá para eu gerir esse pessoal de uma maneira mais eficiente? Dá para eu entregar a informação de maneira mais rápida? Dá para entregar realmente o que é necessário? Então, para mim, o Novo é um projeto político-partidário de pessoas comuns. Todos que estão hoje dentro do Novo têm suas profissões e estão por um determinado período de tempo participando de um projeto político-partidário, e inevitavelmente voltam para a sua atividade produtiva depois. Então é um projeto feito por pessoas comuns, para pessoas comuns, e com base em aumento de eficiência do Estado, respeito à Constituição e liberdade econômica. Ou seja, aumento de riqueza por participação crescente da iniciativa privada, deixando o Estado em seu papel subsidiário, que é educação, saúde, segurança e outras coisas que a iniciativa privada não pode fazer, por evidente, porque sua finalidade é o lucro, enquanto a do Estado é levar serviços públicos essenciais à população ainda quando não tenha uma perspectiva de lucro nisso.

E para Vila Velha, o que o senhor propõe? Objetivamente, de toda essa filosofia do Novo, o que é possível transpor para a prática política e administrativa da cidade?

Eu sempre faço uma dinâmica que me parece interessante. A nossa filosofia hoje é de que pessoas comuns participem do pleito. E a dinâmica que sempre peço às pessoas é: pense em um político qualquer que te venha imediatamente à mente. Qual é a profissão desse político? Qual é a participação dessa pessoa no ambiente produtivo privado ou público? Quando essas pessoas saem da política ou não conseguem um mandato, onde elas estão contribuindo no setor privado ou no setor público? Invariavelmente, a resposta das pessoas é: não sei. E a questão do Novo é a seguinte: todos têm uma profissão e encaram a política como um encargo público temporário, em que você precisa entregar alguma coisa à sociedade em determinado período de tempo e depois voltar à sua profissão. Para mim, só gerar esse tipo de discussão em uma cidade como Vila Velha já é absolutamente importante. Então a nossa perspectiva é de participar [da eleição] de maneira qualitativa, com base em diagnósticos, propostas de governança técnica, propostas técnicas para a melhoria dos diversos setores da sociedade, mas fazendo um debate se a gente realmente vai continuar na base da política tradicional, que nós temos hoje, ou se nós vamos querer na verdade pessoas comuns, que sentem as dores cotidianamente e que querem participar do debate para mudar a realidade para outras pessoas que sentem as dores cotidianamente. Vou te dar um exemplo: hoje [segunda-feira, 2] é um dia de muita chuva em Vila Velha. E a gente está vivendo um drama hoje na minha cidade. Qual é o problema das enchentes hoje em Vila Velha? Não tem solução técnica? Eu custo a acreditar nisso. Não tem dinheiro no Ministério das Cidades para você ter um investimento federal em infraestrutura na cidade? Também custo a acreditar nisso. O que é que falta? Prioridade. Eu preciso ter prioridade política no combate às enchentes em Vila Velha. A partir do momento em que eu tiver prioridade política para combater esse problema, eu vou gastar menos com comissionados, vou gastar menos com show em praia, vou gastar menos dinheiro com contratação de servidores públicos desnecessariamente porque não informatizo uma rotina em um procedimento público sequer na prefeitura. Vou te dar outro exemplo: hoje temos uma demanda reprimida de creche, em Vila Velha, de cerca de 8 mil vagas. Eu precisaria imediatamente, até 2024, criar esse número de vagas para cumprir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE). Cada matrícula em Vila Velha custa aproximadamente R$ 3.690,00 por ano. Isso significa que nós precisamos de R$ 31 milhões por ano, para criar 8 mil vagas de creche, para que a mulher possa sair para trabalhar e ser produtiva. Eu te pergunto: esse dinheiro virá de onde, se não formos criativos e se não trabalharmos com base em políticas públicas por evidência? Onde eu estou gastando? Como eu estou gastando? Onde eu posso reduzir privilégios? Onde posso reduzir despesas? Onde posso aumentar a arrecadação sem aumentar tributos? Onde posso ter melhor relação institucional com o poder público federal para trazer investimentos para a cidade? Onde posso chamar o setor produtivo para que ele faça canais de desenvolvimento? Com todo o respeito, isso não existe em Vila Velha. Então o que a gente quer para Vila Velha? É concorrer com base em governança técnica, com ética, e tentar ser um canal de reverberação de toda essa agonia da população de Vila Velha.

Mas o senhor acha que é possível ganhar? Acha que sua candidatura pode crescer e sair vitoriosa desse pleito, ou na verdade a principal motivação do Novo é participar do processo justamente para apresentar as principais ideias do partido e qualificar esse debate eleitoral?

Acredito que é possível ganhar. Tem um livro que é muito interessante, “A eleição disruptiva” [de Maurício Moura e Juliano Corbellini], que trata da eleição de 2018. É a primeira eleição onde a moeda cai de pé. O autor traz lá uma questão da decisão do Campeonato Paulista. E aí se falava de Corinthians, se falava de Palmeiras, mas ninguém falava do São Paulo. E aí se falava que ia dar cara ou coroa, ou Corinthians ou Palmeiras, mas aí o dirigente do São Paulo disse assim: “Vocês se esqueceram do São Paulo. Nessa decisão, a moeda vai cair em pé”. E realmente deu São Paulo no Campeonato Paulista. Essa eleição de 2020 vai ser tão disruptiva quanto foi a de 2018. Por quê? Porque a população está saturada de políticos profissionais que estão desconexos com os interesses reais da sociedade. E aí te digo por que podemos ser competitivos. Hoje não é necessário muito dinheiro para se fazer uma campanha competitiva. Se fosse assim, o Henrique Meirelles teria ganhado a eleição para presidente e o Geraldo Alckmin também. É mais fácil, hoje, você se comunicar com o cidadão por Whatsapp, por redes sociais, com investimento nesse canal direto de comunicação com o eleitor. E a gente tem muita gente legal na nossa equipe, cerca de 80 voluntários hoje trabalhando em todos os setores da pré-campanha porque têm vontade de ajudar. E nem todos são filiados ao Novo. E aprendi no RenovaBR que você sabe se vai ganhar a eleição é na conversa do bar, é na conversa na festa de aniversário, é na conversa dos grupos. E esses relatos começam a nos chegar. Nessas conversas em Vila Velha, quando a política vem à mesa, as pessoas já começam a falar: “Olha, mas tem uma alternativa. Tem um procurador federal...”

O senhor acha que há uma fadiga de material? O eleitor de Vila Velha está cansado de ser governado pelos políticos tradicionais e de só ter como opções para voto aqueles velhos e conhecidos candidatos já testados nas urnas da cidade?

Eu acho que a população de Vila Velha está cansada de não ter os seus reclamos representados por quem está no poder. E não é de agora. A partir do momento em que você é político profissional e o seu interesse é na reeleição porque quer se manter no cargo e não porque você quer fazer um mandato importante para a cidade, é claro que você tem uma fadiga nessa ausência de representatividade adequada. Porque a eleição é basicamente isso: escolher alguém que represente o seu interesse. E a partir do momento em que a eleição, como mecanismo, não é suficiente para representar o seu interesse, e você não enxerga o seu interesse representado por quem você elege, o que acontece hoje? A gente começa a ver as pessoas desinteressadas no processo eleitoral, que é o único canal democrático para a gente escolher líderes. E por que as pessoas estão cansadas e estão desmotivadas? Porque elas não enxergam mais a eleição como a possibilidade de escolherem alguém que represente o interesse social delas. E isso pode mudar, desde que pessoas comuns comecem a participar do pleito, que é o que nós estamos fazendo aqui. Agora, só uma complementação: queremos ganhar a eleição e vamos lutar para ganhar a eleição da forma como nós achamos que devemos ganhar a eleição. Não para ganhar a eleição a qualquer custo. Às vezes é melhor você perder a eleição do que ganhar, porque ganhar a eleição com todas as amarras que a política profissional normalmente faz, é mais do mesmo. E não é isso que a gente quer. A gente quer, sim, ser bem-sucedido no pleito eleitoral, ter independência e ter diálogo institucional para de fato poder exercer o mandato com qualidade na busca do interesse do representado e não propriamente do meu interesse como mandatário. Queremos fazer uma gestão pública com governança técnica, ética, desenvolvimento e inclusão das pessoas que realmente precisam ser incluídas.

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