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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Protagonista improvável pode decidir quem comandará o PT no ES

Vereador de Cariacica, André Lopes e seu pequeno grupo têm o poder de decidir a próxima eleição interna do partido, para o lado de Helder Salomão ou para o de Jackeline Rocha. Disputa está acirradíssima

Publicado em 11/09/2019 às 15h56
Atualizado em 13/09/2019 às 10h01

“Nós somos o fiel da balança”, afirma, com todas as letras, o vereador de Cariacica André Lopes, sobre o processo de eleição do próximo presidente estadual do PT. E ele não está enganado. Da noite para o dia, o vereador de 32 anos, em 1º mandato, tornou-se o protagonista improvável da disputa interna do partido, com o poder de decidir quem comandará o PT no Estado pelos próximos quatro anos.

A disputa está entre o deputado federal Helder Salomão e Jackeline Rocha, candidata ao governo em 2018. Os dois são os únicos candidatos à presidência.

Mas há quatro chapas envolvidas no processo, incluindo a de Helder e a de Jackeline. A terceira é a da corrente do atual presidente estadual, João Coser, que apoia a eleição de Jackeline.

A quarta é a menor de todas, mas é a que pode decidir a parada. Trata-se de um pequeno agrupamento de jovens que reúne uma tendência trotskista chamada O Trabalho, além de dissidentes da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB). O líder dessa chapa é, justamente, André Lopes.

O presidente que comandará o PT pelos próximos quatro anos será escolhido pelo voto dos 250 delegados que participarão do congresso estadual marcado para outubro. No último domingo, petistas de todo o Estado votaram em uma das quatro chapas. A votação obtida no domingo determina o número de delegados que cada uma delas poderá enviar ao congresso decisivo. Pois bem.

A chapa de Helder foi de longe a mais votada, chega ao congresso com larga vantagem, mas não conseguiu a maioria absoluta dos delegados (caso esse em que a fatura estaria praticamente liquidada de antemão). Com 124 delegados, ficou por dois de alcançar a metade mais um.

Já as chapas de Jackeline e de Coser, somadas, totalizam 112 delegados.

Finalmente, a de André Lopes garantiu 14 delegados. São esses que, no congresso de outubro, podem decidir a eleição para um lado ou para o outro. Se todos os 14 forem para o lado de Jackeline/Coser, estes perfazem exatamente 126 votos: maioria, por margem mínima. Mas, se os 14 forem para Helder, o petista garante, no mínimo, 138 votos.

É bom lembrar que, na verdade, para formar maioria, Helder só precisa atrair mais dois votos, além de garantir que todos os seus 124 delegados votem mesmo nele para presidente.

De todo modo, desde o término da contagem de votos, na última segunda-feira, André Lopes passou a ser a noiva do momento entre os petistas das outras chapas. Em conversa com a coluna, o próprio vereador confirma que o assédio sobre ele cresceu enormemente desde que o resultado da votação de domingo começou a circular extraoficialmente entre petistas. “Meu telefone não para.”

O vereador afirma que, até o congresso, vai negociar com os dois lados e definir quem seu grupo apoiará a partir dessa negociação. A priori, ele tem ligação com os dois candidatos. Com Jackeline porque, além da idade próxima (ela tem 36), os dois, originalmente, fazem parte da mesma corrente do PT: a CNB.

Já com Helder, a ligação é ainda mais forte: além de também ser de Cariacica, Lopes foi gerente da Juventude no segundo mandato do atual deputado na prefeitura da cidade (2009-2012). O vereador nega, porém, de maneira categórica, que hoje tenha tendência maior de apoio a Helder para a presidência por sua proximidade “histórico-geográfica” com ele.

Na verdade, o interesse maior de Lopes nesse processo é muito claro e, inclusive, explicitado por ele mesmo à coluna: conseguir se tornar presidente do PT em Cariacica. No último domingo, os petistas também votaram nos candidatos à presidência municipal do partido em 52 cidades. Em Cariacica, Lopes avançou para o segundo turno, marcado para 22 de setembro, contra o candidato apoiado por Helder, Jorge Davel.

Sem rodeios, o vereador adianta: se Helder remover a única pedra no caminho dele, isto é, se convencer Davel a retirar a candidatura contra ele em Cariacica, o apoio dele a Helder é praticamente certo no congresso estadual de outubro. “Por que vamos dar voltas se a vida é assim?”, justifica-se Lopes, dando a deixa para o deputado.

Confira, abaixo, a entrevista completa do vereador André Lopes à coluna, cheia de declarações bem diretas, no estilo "a política como ela é":

A sua chapa é o fiel da balança na eleição do próximo presidente estadual do PT?

Sim. Nossa força vai decidir o congresso do PT. Sem falsa modéstia, somos os principais vitoriosos desse processo. Não tínhamos nada e vamos passar a ter algumas coisas consideráveis. E nós somos o fiel da balança, tanto no congresso como seremos na gestão também. Qualquer um dos dois lados que ganhar terá que conversar com a gente para fazer a gestão. Posso ter três delegados no congresso, mas, se os meus delegados forem necessários para eleger o presidente, é óbvio que eu vou querer Tesouraria, a Organização, a não sei o quê, não sei o quê, o que eu achar que é importante. O número de delegados agora é o menos importante do ponto de vista do tamanho. O que é importa é do ponto de vista do que eu posso fazer: se eu for para o Helder eu dou a vitória pra ele; se eu for para a Jackeline, dou a vitória para ela.

Qual é sua tendência hoje?

Até a inscrição das chapas, eu era da corrente da Jackeline. Então, a tendência natural poderia ser essa. Mas, porém, contudo, todavia, o meu objetivo é a presidência do PT de Cariacica. Hoje, quem pode me dar ela sem disputar eleição é o Helder.

Como?

Ué, eu estou no segundo turno em Cariacica contra um candidato dele. Se ele retirar o candidato dele e eu me eleger por aclamação...

O senhor apoia o Helder para presidente estadual, automaticamente?

Claro que não é só isso, né? Eu vou querer um espaço no PT estadual, porque eu tenho consciência do tamanho que eu tenho hoje no processo. Mas é um sinal. É um sinal. Se nós entrarmos num consenso em Cariacica, é um sinal.

Vocês já abriram conversas sobre isso?

Olha, não. Não vou mentir para você. Não.

Mas vai chegar o momento em que o senhor vai colocar isso às claras na mesa para ele?

Não, eu não. Eu não. Se ele não me procurar, eu vou tocar minha vida, porque eu acho que tenho condições de ganhar o segundo turno lá. Perceba: se o Helder não me chamar, o outro lado não resta outra coisa para eles. E, juntando os votos dos outros candidatos, a gente derrota o Davel. Então, hoje estou numa situação muito confortável em Cariacica. Dos dois lados que eu for, ou um ou outro vai ter que garantir a minha vitória em Cariacica. Aí o futuro…

Aí o senhor se refere à chapa do Helder e à da Jackeline, não é?

Isso.

Quem o ajudar mais ou de maneira mais efetiva em Cariacica terá então uma vantagem na sua escolha em apoiar a chapa A ou B no congresso estadual?

Aí eu posso afirmar que sim.

Direto, hein, vereador?

Ué, mas por que nós vamos dar voltas se a vida é assim?

É a política, né?

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É a política, uai!

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