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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Presidência da Assembleia: pode ter chegado a vez de Marcelo Santos

Atual presidente da Casa, Erick Musso, se articula visando à reeleição, mas Marcelo pode despontar como solução de consenso do governo Casagrande, num acordo em que Erick pode "perder ganhando"

Publicado em 07/01/2021 às 05h05
Atualizado em 07/01/2021 às 05h05
Marcelo Santos pode atropelar na reta final da eleição da Mesa Diretora da Assembleia
Marcelo Santos pode atropelar na reta final da eleição da Mesa Diretora da Assembleia. Crédito: Amarildo

A eleição é da Assembleia Legislativa, mas a escolha do próximo presidente da Casa de Leis, marcada para 1º de fevereiro, é sempre diretamente influenciada pela vontade do Palácio Anchieta, e dessa vez não será diferente. O governo Casagrande ainda não definiu o rosto que terá o seu apoio para presidir o Legislativo, mas já definiu o perfil buscado, assim resumido por um conselheiro do governador: “Tem que ser um deputado em quem ele possa confiar cegamente”. Outro auxiliar de Casagrande define assim: “O rosto será o daquele que der ao governador maior segurança para ‘flutuar’ ali na Assembleia como fez nos últimos dois anos, ou até melhor”.

O atual presidente da Casa, Erick Musso (Republicanos), trabalha para viabilizar sua reeleição para mais um biênio no cargo (seriam seis ao todo). Dois deputados do PSB, partido do governador, também são cotados: o ex-líder do governo, Eustáquio de Freitas, e principalmente o atual, Dary Pagung. Mas um rosto parece estar começando a se desenhar nos bastidores, com tinta invisível, porém mais forte e indelével: o do deputado Marcelo Santos (Podemos).

Discreto como é do seu feitio, sem fazer nenhum movimento brusco, Marcelo pode despontar como a grande aposta de Casagrande dessa vez, se este não quiser pagar para ver mais dois anos de Erick Musso na presidência (e, segundo conselheiros do Palácio, não o quer). Marcelo, assim, pode ser nessa corrida rumo ao comando da Casa aquele carro-fantasma que só vai aparecer atropelando na reta final, quando a vitória já estiver no papo. Mas por que Marcelo?

Para começarmos a responder a essa pergunta, temos que primeiro fazer outra: por que não Erick? Não é que Casagrande tenha veto ao atual presidente, com quem reatou e mantém boa relação. É que, basicamente, após o trauma imposto ao governo em novembro de 2019, com a frustrada tentativa de antecipar em mais de 400 dias essa eleição que só agora acontece, Erick deixou de cumprir aquele pré-requisito citado lá no início: não é enxergado de jeito nenhum por colaboradores de Casagrande como alguém “em quem ele possa confiar cegamente”. Afinal, dentro do Palácio, o episódio sempre foi tratado desde o primeiro instante, sem rodeios, como traição e quebra de acordo com o governador.

Se Erick conseguir se viabilizar por conta própria, independentemente da preferência do governo, bem, Casagrande não deve se opor. Mas, como assegura um conselheiro palaciano, o governador prefere um nome alternativo ao de Erick e, muito cuidadosamente, em suas conversas individuais inauguradas nesta quarta-feira (6) com os deputados sobre o tema, busca construir um presidente que lhe seja mais leal:

“O segundo tempo de governo [isto é, o segundo biênio] é sempre muito mais complicado no relacionamento com a Assembleia, porque já começa a entrar no radar dos deputados a própria reeleição ao fim do mandato. O projeto do Renato, então, é ter paz na Assembleia. Se ele perceber a possibilidade de ter paz na Assembleia, tendo ainda a chance de emplacar outro presidente que não o Erick, ele o fará”, garante o conselheiro.

E é aí que entra Marcelo Santos. Dentro do governo, nas reuniões de Casagrande com seu núcleo político, a carta com o rosto do deputado está na mesa (ou já na manga do governador) e seu nome é trabalhado seriamente como possibilidade. Mas Marcelo também é um ótimo aliado de Erick. O veterano deputado seria, então, candidato contra o atual presidente?

Não, nesse arranjo projetado, Marcelo não disputaria contra Erick, mas no lugar do atual presidente, numa grande “concertação” em que todos sairiam ganhando.

Marcelo pode ser bom para os dois lados, o que vem a ser, exatamente, seu maior trunfo nesse processo: muito hábil articulador de bastidores, o decano da Assembleia é, ao mesmo tempo, muito leal ao governo Casagrande e muito próximo a Erick na atual cúpula da Casa. Entre todos os deputados, é possivelmente o que melhor transita entre os dois lados, inclusive ajudando a fazer o meio de campo entre o chefe do Executivo e o do Legislativo.

Nessa condição, Marcelo pode se firmar na eleição da Mesa justamente como um candidato da conciliação, fazendo esse elo político entre o grupo de Casagrande e o de Erick (o mesmo de Lorenzo Pazolini e de Roberto Carneiro).

Marcelo pode liderar uma chapa única, de consenso, que agrade a todas as partes, garantindo governabilidade e paz para Casagrande nos próximos dois anos e não tirando de Erick os muitos cargos que o atual presidente mantém na Casa (mas que podem também ser compensados com sobras pelas centenas de cargos comissionados que o atual chefe da Assembleia e seu grupo têm a preencher agora na Prefeitura de Vitória). Ninguém se choca, todos chegam a um entendimento, preservam seus interesses e viram aliados político-eleitorais, visando a 2022.

Até porque, no fundo, o grupo de Erick não quer esticar a corda e bater de frente com Casagrande nos próximos dois anos, muito pelo contrário, ainda mais agora que Pazolini está recém-empossado, já disse (no ato de posse) que Vitória hoje tem capacidade próxima a zero de investimentos com recursos próprios e, portanto, precisará imensamente da mão amiga do governo estadual, por meio de convênios e repasses.

Ao mesmo tempo, ter Marcelo lá na presidência no lugar de Erick, zelando também por seus interesses, é, para esse grupo, muito melhor do que ter, por exemplo, um Dary Pagung ou um Freitas no comando do Legislativo estadual.

Enfim, passar o cajado na Assembleia para as mãos de seu também parceiro Marcelo Santos não é, para Erick, de modo algum, o pior dos cenários. De todo modo, não é um arranjo tão simples, pois, antes de qualquer outro passo, Erick teria que ser convencido a não concorrer de novo (o que na prática significa abdicar de muito poder). Tem que ser um acordo excelente para o próprio Erick, que faça os olhos dele brilharem. O que o Palácio pode oferecer a ele para compensar essa "renúncia" e conseguir convencê-lo? Resposta: a possibilidade de crescer eleitoralmente com vistas a 2022. E é aí que esse arranjo fica verdadeiramente interessante.

O “prêmio de consolação” para Erick, cogitado hoje dentro do Palácio Anchieta, pode ser maior do que se imagina. É o que você descobrirá na sequência desta coluna.

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