Desde a primeira eleição de Luciano Rezende em Vitória, em 2012, o Partido Progressista (PP) e o Partido Popular Socialista (PPS) eram grandes aliados na política estadual, principalmente na Capital. Eram.
“Hoje a relação com o PPS não é boa”, resume o novo presidente da Câmara de Vitória, Cleber Felix, o Clebinho (PP) – um dos pivôs desse distanciamento.
Já um dirigente do PPS, que prefere não se identificar, vai além. Para ele, não há que se falar em desgaste, turbulência ou estremecimento na relação. A palavra é rompimento mesmo. “Com o PP acabou. Não existe mais relação. A aliança política está rompida.”
Em 2012, ao lado do PR, o PP foi fundamental para garantir a Luciano (PPS) as condições para lançar e sustentar a candidatura a prefeito, em um movimento conduzido por Renato Casagrande (PSB), então governador, que dividiu os partidos de sua base entre Luciano e Iriny Lopes (PT). Deu certo, Luciano ganhou, e o PP se tornou sócio da administração. Na primeira gestão de Luciano, o partido chegou a ocupar secretarias. O presidente municipal do PP, Marcos Delmaestro, foi secretário de Direitos Humanos (interino) e de Assistência Social. Pelo comando desta última também passou o advogado Délio Prates (PP), morto em julho de 2018.
Na reeleição de Luciano, em 2016, o prefeito também pôde contar com o PP em sua coligação. Mas, nesta segunda gestão, os progressistas deixaram de ocupar espaço no secretariado, em um primeiro sinal de que a relação já não era a mesma. Na eleição de 2018, PP e PPS foram os primeiros partidos a embarcar na coligação de Casagrande ao governo. As duas siglas, inclusive, dividiram a mesma chapa de candidatos a deputado federal. E, justamente em torno dessa chapa, deu-se o episódio que foi o primeiro grande abalo na relação entre os partidos: a tentativa frustrada do PPS de emplacar Lenise Loureiro (PPS), braço direito do prefeito, como vice de Casagrande.
Lenise era candidata a deputada federal na chapa PP-PPS-PROS-PHS-PCdoB. As versões aqui são conflitantes. Integrantes do PPS não hesitam em afirmar que o deputado federal Marcus Vicente, presidente estadual do PP, meteu o pé na porta e vetou a mudança de posição de Lenise. Candidato à reeleição, Vicente não queria ter a própria chapa desfalcada dos votos dela, de acordo com essa versão. Integrantes do PP, contudo, afirmam que não houve veto algum, que essa foi uma decisão estritamente de Casagrande e que cabia ao PPS resolver com ele essa questão. O socialista ao fim optou pela correligionária Jacqueline Moraes, a vida seguiu, mas a aliança ficou abalada.
Para aumentar o desgaste, nesse mesmo momento delicado de definição de chapas e candidaturas (julho para agosto), PP e PPS colidiram na eleição à presidência da Câmara de Vitória. O PPS queria emplacar o líder de Luciano, Leonil (PPS), para suceder Vinícius Simões (PPS). Só não contava com a astúcia de Clebinho e outros sete vereadores, que lançaram chapa própria e formaram maioria, alegando necessidade de alternância no comando da Casa e quebra do “monopólio” do PPS. No fim os dois lados fizeram uma composição, Simões foi absorvido na chapa como 2º secretário da Mesa e todos adotaram o discurso da conciliação em nome da cidade. Mas o fato é que o movimento liderado por um vereador do PP impôs uma sonora derrota a Luciano.
CALDO ENTORNA DE VEZ
Aí veio o resultado das eleições em 7 de outubro, e uma relação que já estava muito desgastada se deteriorou de vez. Com 44.285 votos, Marcus Vicente não conseguiu se reeleger – ficou a 4.127 de Evair de Melo, o último candidato da coligação a entrar (filiado ao PP pelo próprio Vicente). Segundo a versão do PPS, o deputado passou a buscar culpados por seu insucesso nas urnas. Um deles seria Luciano, acusado por Vicente de ingratidão, por não ter movido um dedo para ajudá-lo na campanha, apesar do apoio prestado a ele pelo PP em suas duas eleições. Segundo uma fonte ligada ao PP, faltou mesmo uma contrapartida maior por parte de Luciano, e Vicente de fato se ressente da inércia do prefeito.
Fato é que, após o pleito, o presidente estadual do PP passou a dar sinais de que o partido não mais seguirá com o PPS em 2020. Assim como muitos aliados do PPS, o PP está irritadíssimo com o lançamento precoce de Gandini (PPS), por parte de Luciano, como seu candidato à sucessão. Se restava alguma dúvida de que a parceria chegou ao fim, o próprio Clebinho, contrapondo-se a Gandini, passou a se apresentar publicamente como pré-candidato a prefeito. “Sou candidato”, confirma ele à coluna.
Para completar, mal assumiu a presidência da Câmara, em 1º de janeiro, Clebinho promoveu uma exoneração em massa de comissionados que haviam sido indicados pelo PPS ou aliados do partido do prefeito. O recado não podia ser mais claro: a Casa tem novo chefe. Em contrapartida, Luciano dispensou quadros do PP que tinham cargos na prefeitura. Um deles, o próprio Delmaestro, exonerado no último dia 9 do cargo de assessor especial. O dirigente do PP ocupava uma sala a poucos metros do gabinete do próprio Luciano. Mas esses metros viraram quilômetros entre as siglas.