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Militarização da política

Por que há tantos policiais militares disputando as eleições no ES?

“Eles estão organizados, têm discussões internas, têm uma estratégia eleitoral, têm partidos políticos. E vão crescer”, avalia João Gualberto Vasconcellos. Para nosso entrevistado, fenômeno veio para ficar e vai além de Bolsonaro

Publicado em 20 de Setembro de 2020 às 12:49

Públicado em 

20 set 2020 às 12:49
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

João Gualberto Vasconcellos analisa o fenômeno de ascensão dos militares na política e nas eleições brasileiras
João Gualberto Vasconcellos analisa o fenômeno de ascensão dos militares na política e nas eleições brasileiras Crédito: Amarildo
Max; Wagner, Nylton, Estéfane e Paulo Sérgio; Sousa, Tristão, Joel e Ferrari; no ataque, Assis e Assumção. Em patentes que vão de cabo a coronel da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) e dos Bombeiros Militares, todos os “jogadores fardados” relacionados na escalação acima entrarão em campo daqui a uma semana no jogo eleitoral.
Serão candidatos a prefeito ou vice-prefeito nos respectivos municípios: Vitória, Vila Velha, Cariacica, Viana, Cachoeiro, Guarapari, entre outros. E essa é uma lista sucinta, só para exemplificarmos o fenômeno assinalado aqui neste sábado: a “invasão” de militares nas eleições municipais de novembro.
Como diria certo presidente abominado pela maioria deles, “nunca antes na história deste país” tivemos tantos candidatos com origem militar disputando ao mesmo tempos mandatos em eleições democráticas. Como podemos explicar esse fenômeno?
Ok, há obviamente a presença de um capitão da reserva do Exército na Presidência, com um general na Vice-Presidência, o que certamente estimula mais e mais candidatos com origem militar a se candidatarem Brasil agora. Mas que outras causas podemos apontar?
Autor do livro “A Invenção do Coronel”, o cientista político João Gualberto Vasconcellos nos ajuda a encontrar as respostas para isso. Há, por um lado, o recrudescimento, na sociedade, de um discurso que valoriza conceitos como ordem e disciplina, associados a essas instituições militares no imaginário popular.
Mas há, acima de tudo, um movimento que tem se operado, de maneira quase silenciosa, dentro dos quartéis e batalhões das polícias militares nos Estados desde 2013: desde os grandes protestos de rua no segundo governo Dilma, essas corporações passaram a se organizar politicamente visando ampliar sua inserção em espaços de poder político. E hoje estão muito mais politicamente organizadas do que supõe a sociedade civil.
“Eles estão organizados. Eles têm discussões internas. Eles têm uma estratégia eleitoral. Eles têm partidos políticos. E eles vão crescer”, vaticina Gualberto.
No Espírito Santo em particular, desde o governo passado de Renato Casagrande (PSB), houve uma mudança substancial no perfil dos soldados que ingressaram na PMES, com predomínio de jovens de classe média baixa com ensino superior completo. Nesse segmento, a ideologia pregada por formuladores de extrema-direita como Olavo de Carvalho encontrou solo fértil para prosperar. Esse movimento ganhou expressão, por exemplo, na greve da PMES em 2017.
Faltava um personagem político nacional em torno do qual escoar esse movimento. Encontraram-no, ainda que provisoriamente, na figura do então deputado e presidenciável Jair Bolsonaro.
Hoje, com a ascensão de Bolsonaro ao poder central, está ainda mais entranhada nessas tropas a ideologia radical de direita simbolizada por Bolsonaro e que, por ter nele sua expressão acabada, convencionou-se chamar de “bolsonarismo”: armamentista, militarista, anti-direitos humanos, contra o "politicamente correto", contra movimentos sociais, contra o establishment cultural, acadêmico e midiático.
Em sua grande maioria, setores das polícias militares e muitos de seus representantes nestas eleições estão mesmo a serviço de um projeto mais amplo de poder político que hoje tem em Jair Bolsonaro seu líder e sua matriz e que objetiva, em última análise, ajudar o presidente a se reeleger em 2022. Mas esse projeto, avisa João Gualberto, vai muito além de Bolsonaro:
“O processo de 'direitização' e de militarização da sociedade brasileira é maior que Bolsonaro. [...] E esse movimento veio para ficar no Brasil, não tenha dúvida disso. Isso veio para ficar.”
Confira a entrevista completa:

Como podemos explicar esse número tão expressivo de candidatos a prefeito e vice-prefeito oriundos de forças militares nessa eleição municipal?

A desconstrução da esquerda e a construção de uma extrema-direita são um processo que começa a ficar muito claro a partir de 2013. Desde aquelas grandes manifestações e aquela não resposta do governo Dilma, depois aquela eleição ganha de uma forma esquisita em 2014… Enquanto isso acontecia, a extrema-direita foi se organizando no Brasil. As pessoas começaram a ler Olavo de Carvalho. Ele já era um fenômeno editorial antes de ser adotado pelo plano de Bolsonaro. Ele dava cursos presenciais, ele tinha adeptos…

Mas, até então, era um fenômeno sociocultural meio invisível, que não havia entrado no radar da grande mídia?

Exatamente. Eu só fui perceber isso depois da eleição de Bolsonaro. Aí essa coisa invisível começou a tomar conta de vários setores da sociedade. Entre eles, que é o que nos interessa, as polícias militares. Esses grupos estão se locomovendo, foram se enraizando, as discussões foram acontecendo, e as polícias militares então fizeram uma inflexão política bem sensível. Tanto é que isso está presente nessa greve que houve no Ceará [em fevereiro deste ano].

O senhor acha que esse movimento político no interior das polícias militares estaduais também se manifestou na greve da Polícia Militar do Espírito Santo, em fevereiro de 2017, porém, por ter sido antes da eleição presidencial do Bolsonaro no ano seguinte, as ligações com esse movimento político-eleitoral ainda estavam fora do nosso radar?

Eu acho. O fenômeno da crise da PMES em 2017 tem a ver com a própria ecologia interna da PMES. Na gestão anterior de Renato Casagrande [2011/2014], foram contratados muitos soldados. Pelos salários oferecidos e pela melhoria das condições, a PMES deixou de ter uma base nos mais pobres, que era a base dos anos 1950, 1960, 1970 (aquela Polícia Militar mais rústica), e passou a ser uma Polícia Militar formada por bacharéis de Direito. Hoje a base social da PMES são jovens, da pequena classe média, bacharéis em Direito, sobretudo formados em faculdades privadas. Eles começaram a absorver essa ideologia da extrema-direita. Desses grupos aí o mais explícito é Olavo de Carvalho, mas há muitos outros. Quando a greve da PMES explodiu, ela foi muito confundida com um fenômeno da política local. Eu acho que ela não tinha nada a ver com a política local. Nós não percebemos que essa base social de classe média universitária se “direitizou” no processo.

Ou seja, o que o senhor está me dizendo, em outras palavras, é que esse “regimento” de soldados recém-ingressos na PMES, com perfil de maior renda média e maior escolaridade, insere-se na corporação justamente num momento que coincide com a ascensão desse discurso político e de Jair Bolsonaro como líder político da direita no país. E então surge uma aderência entre eles…

Exatamente. E repare bem: eles organizaram-se para disputar a Associação de Cabos e Soldados do Espírito Santo (ACS). Perderam. E aí se organizaram numa outra associação, que acho que se chama Associação Geral dos Militares do Espírito Santo. E foi essa associação, com pessoas como o recém-falecido Cabo Porto na Serra, como Cabo Max em Viana… essas pessoas ascenderam. Houve uma modificação grande nos comandos. Velhos coronéis foram se reformando, pois reforma-se cedo nas polícias militares. E aí foi havendo uma ascensão desses setores. E essa associação, com esses jovens universitários, foi a massa que conduziu a greve no Espírito Santo. Isso politizou internamente a polícia. E a expressão disso, num primeiro movimento, se deu na eleição estadual de 2018…

Com a eleição de muitos deputados estaduais com origem na PMES, inclusive dois participantes diretos da greve: Capitão Assumção e Coronel Quintino.

Acho inclusive que eles não tiveram um candidato ao governo do Estado que os expressasse. O [Carlos] Manato não era produto desse movimento. Se eles tivessem, assim, um coronel, uma forte liderança na corporação, eles poderiam ter tido mais votos na eleição estadual…

E aí teriam ameaçado muito mais o retorno de Casagrande ao Palácio Anchieta…

Sim. Mas na verdade hoje eles estão representados em deputados estaduais e deputados federais. E agora eles querem se representar nas eleições a prefeito e vereador.
"Eles estão organizados. Eles têm discussões internas. Eles têm uma estratégia eleitoral. Eles têm partidos políticos. E eles vão crescer."
João Gualberto Vasconcellos - Cientista político

Agora eles têm o próprio PTB, que abrigou esse movimento, não? Em grande medida, virou um partido militar bolsonarista.

É isso aí. E você pode ter certeza que o Roberto Jefferson perderá o controle desse processo rapidamente. A filha dele está lá na cadeia. É só o PTB eleger aí um prefeito de cidade grande, um militar que ganhe ascendência política, eleger daqui a dois anos dois ou três senadores. Não tenha dúvida de que eles vão tomar o partido de Roberto Jefferson.

E pensando em 2022, o senhor entende que esse movimento, que está aí traduzido na forma de dezenas de candidaturas de militares bolsonaristas só no Espírito Santo, está inserido também num projeto político mais amplo, visando ajudar a pavimentar a permanência de Bolsonaro no poder central?

Eu não tenho dúvida. Eu não tenho dúvida que a militarização do governo federal é de quadros que ajudem a governar, mas o mais importante nesse movimento político é a Polícia Militar.
"As polícias militares serão a base importante da reeleição de Bolsonaro, eu não tenho dúvida disso. Elas estão suficientemente politizadas para ocupar esse papel."
João Gualberto Vasconcellos - Cientista político

E quanto mais prefeitos e vereadores eles conseguirem eleger nesse processo eleitoral, evidentemente mais fortes eles estarão para ajudar a reeleger o presidente em 2022, na medida em que estarão mais espalhados em espaços de poder pelo país…

É isso. Eu acho que às vezes nós confundimos o movimento da extrema-direita brasileira com apoio a Bolsonaro. Bolsonaro é o cara que surfou nessa onda, mas ele não é obrigatoriamente o líder para sempre desse processo. O processo de "direitização" e de militarização da sociedade brasileira é maior que Bolsonaro. Esse processo, evidentemente, vai sustentar Bolsonaro no curto prazo. Mas penso que esse clã Bolsonaro, tão atrapalhado, vai acabar sendo superado nesse processo por alguém oriundo mesmo desse processo, mais puro-sangue.
"É um movimento que veio para ficar no Brasil. Acabou aquele negócio de hegemonia da esquerda, das universidades, da imprensa, dos intelectuais. Quem é mais à esquerda terá que disputar o espaço com esses grupos. Isso veio para ficar na política brasileira."
João Gualberto Vasconcellos - Cientista político

Até agora nos ativemos ao ponto de vista dos candidatos militares, dos participantes desse movimento e desse projeto político. Mas e do ponto de vista do eleitor brasileiro? A massa do nosso eleitorado claramente encampou esse discurso "militarista" em 2018. Por que esse discurso ganha cada vez mais apelo entre os eleitores?

Porque nós somos um país conservador, um país racista, um país machista, e nós temos agora um movimento que articula aquilo que se discutia.
"O que era invisível e vergonhoso agora passou a ser trunfo político. A única coisa que está acontecendo é a organização política e partidária desse movimento desde sempre existente em nossa sociedade."
João Gualberto Vasconcellos - Cientista político

Então estamos diante de um movimento com caráter militar que dá vazão a esse sentimento que estava meio reprimido durante os anos de hegemonia da esquerda?

Sim. Era meio invisível, era meio vergonhoso. Agora não. Agora o cara fala a barbaridade que tem que falar na lata e acabou. Então esse movimento veio para ficar. Eu não sei se ganha a eleição de 2022, isso vai depender de muita coisa. Mas a base militar do Bolsonaro será sobretudo nas polícias. E isso veio para ficar, eu não tenho dúvida.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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