A eleição a prefeito de Vitória começa com dois corredores que largam muito à frente dos demais, já desgarrados do segundo pelotão. A distância aberta na largada por João Coser (PT) e Fabrício Gandini (Cidadania) para os outros concorrentes, todos embolados atrás, é até certo ponto surpreendente. Numa eleição com mais de dez candidatos, 12 pontos percentuais sobre o 3º colocado representam uma vantagem considerável. É o que mostra a primeira pesquisa Ibope sobre a disputa em Vitória: João Coser (PT) e Gandini (Cidadania) empatados com 22% na intenção estimulada, seguidos à distância por Pazolini (Republicanos), com 10%.
A principal informação que se pode tirar da pesquisa é que, neste ponto do processo, já está muito claro para todos quem são os dois “alvos a serem batidos” pelos outros competidores.
Para Pazolini, Neuzinha (PSDB), Assumção (Patriota), Sérgio Sá (PSB), Mazinho (PSD) e companhia, é preciso correr contra o tempo não só para melhorarem os próprios resultados, mas para tentarem diminuir o tamanho inicial do ex-prefeito petista e do candidato apoiado por Luciano Rezende (de preferência, “roubando” votos deles). Essa tarefa é urgente para todos que não se chamam Coser ou Gandini.
Antigamente podia-se dizer que a campanha eleitoral era uma maratona. O período de campanha começava no início de julho e se estendia por três meses, até o início de outubro. Agora não é mais assim. Temos, no máximo, uma corrida de 800 metros rasos: duas voltas na pista olímpica e pronto. Falta pouco mais de um mês até o 1º turno, marcado para 15 de novembro.
Assim, a questão que passa a povoar a mente dos adversários de Coser e Gandini e dos respectivos estrategistas é: o que fazer desde já para miná-los?
COMO MINAR JOÃO COSER?
Um dos flancos para se atingir Coser é o do discurso ideológico, levando o debate eleitoral para a polarização entre direita e esquerda e martelando de todas as formas no ex-prefeito a placa de PT e tudo de negativo que possa ser associado ao partido (mensalão, petrolão, corrupção no governo federal, recessão iniciada no governo Dilma etc.).
O problema dessa estratégia é que ela tem alcance limitado, além de ser uma faca de dois gumes. Forçar uma polarização ideológica pode acabar sedimentando, se não ampliando, o eleitorado (hoje acima de 20%) que já pretende votar em Coser. O PT mantém, na sociedade, aquela reserva de eleitores fiéis.
Sim, a rejeição de Coser (certamente pelo fator ideológico) é a mais alta de todas (35%), mas não é impeditiva. E, se candidatos de direita levarem a eleição para esse campo de embate ideológico, o número de eleitores dispostos a votar nele por ser do PT pode se aproximar dos que não votarão nele de jeito nenhum pelo mesmo motivo. Se a direita bater demais em Coser por ser de esquerda, a esquerda poderá se fechar ainda mais com ele, que dirá muito obrigado e carimbará o passaporte para o 2º turno.
De todo modo, orientado pela marqueteira Bete Rodrigues e vacinado após os péssimos resultados colhidos pelo PT nas últimas eleições, Coser está fugindo totalmente desse debate. Em entrevista à coluna em junho, disse que não acreditava em eleição “nacionalizada”, mas com predomínio de temas locais. Na convenção do PT, em setembro, o ex-prefeito disse à militância que eles não deveriam se preocupar em polarizar com bolsonaristas.
Já a propaganda de Coser em cadeia de rádio e TV resume-se a "legado, legado e legado". O petista fala das grandes obras que deixou para a cidade em sua gestão (Praça do Papa, Fernando Ferrari, Ponte da Passagem etc.) e é tratado, sem modéstia, como o melhor prefeito da história da cidade.
Um dado interessante sobre Coser é que ele “passa bem” e de maneira praticamente uniforme por todos os nichos de entrevistados pelo Ibope: independentemente de sexo, escolaridade, renda familiar, etnia, religião ou avaliação sobre a atual gestão, o ex-prefeito oscila muito pouco: seus eleitores sempre ficam entre 20% e 26%. Mais um sinal muito forte de eleitorado bem consolidado.
COMO MINAR GANDINI?
No caso de Gandini, discurso ideológico dificilmente vai pegar. Isso os oponentes podem reservar para Coser. Ok, ele é o presidente estadual do Cidadania (o outrora Partido Popular Socialista, que mudou de nome exatamente para fugir da “cruzada anti-esquerda” dos últimos anos).
Mas, em primeiro lugar, o Cidadania não é um PT ou um PSOL. Não me parece que habite o imaginário popular como um dos partidos execrados pela direita por serem de esquerda. Em segundo lugar, o próprio Gandini, atento a isso, tem se declarado de centro, levou o PSL para a chapa dele, tem o apoio de Do Val e Da Vitória… Em terceiro lugar, nem Luciano Rezende é tão identificado assim como um político de esquerda, muito menos Gandini…
Em seus anos de vereador, Luciano combateu a primeira administração de João Coser (2005/2008) na Câmara de Vitória. Depois passou o bastão para Gandini, que fez o mesmo no seu primeiro mandato de vereador (o segundo de Coser na prefeitura, de 2009 a 2012).
Dito isso, vejo que a estratégia mais óbvia, mais previsível, mas talvez mais eficaz por parte de adversários de Gandini é “trazer Luciano” para a campanha dele, a fim de miná-lo: bater na atual gestão, mostrar os seus problemas e associar Gandini de todas as maneira a Luciano (logo, a tais problemas). Em grande medida, Pazolini já está fazendo isso no horário eleitoral gratuito, inaugurado na última sexta-feira (9). É cedo para dizer se dará certo.
Gandini não renega Luciano, ao contrário, mas é interessante notar como o prefeito, ao menos até o momento, está "escondido" de sua propaganda eleitoral no rádio e na TV.
Essa estratégia de tratar Gandini como “uma extensão de Luciano” será tanto mais exitosa quanto pior for a avaliação dos eleitores sobre o trabalho do atual prefeito. O que podemos dizer por ora é que a pesquisa Ibope prova, inequivocamente, que a intenção de voto em Gandini está diretamente associada a uma avaliação favorável a Luciano.
Entre os eleitores que avaliam a atual administração como boa ou ótima, Gandini alcança seu ápice: 34%, na estimulada. Entre os que a consideram ruim ou péssima, não passa de 10%.