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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Pazolini: de “ameaça” segundo Gandini a candidato de aliados dele

Gandini passou o 1° turno associando Pazolini até ao crime organizado. Ou ele se equivocou e se excedeu em seu juízo sobre o adversário, ou poucos ao seu redor estão ligando agora para o que ele disse

Publicado em 26/11/2020 às 10h55
Atualizado em 26/11/2020 às 12h03
Após ter criticado pesadamente Pazolini no 1º turno, Gandini decidiu ficar neutro no 2º turno entre Pazolini e Coser em Vitória
Após ter criticado pesadamente Pazolini no 1º turno, Gandini decidiu ficar neutro no 2º turno entre Pazolini e Coser em Vitória. Crédito: Amarildo

Alguma coisa está errada, não está batendo, não está fechando. No grande “quebra-cabeça” que é esse processo eleitoral em Vitória, uma peça importantíssima do 1º turno não se encaixa com a do 2º turno: ou, no 1º tempo da partida, o candidato Fabrício Gandini (Cidadania) estava errado e exagerou em seus alertas acerca do adversário Lorenzo Pazolini (Republicanos), ou, no 2º tempo da partida, poucos em torno dele estão preocupados com isso.

Quem antes era apontado como “ameaça à cidade de Vitória” virou, da noite para o dia, candidato de aliados de Gandini, que lavou as mãos nesta reta final.

É preciso rememorar, porque foi logo ali, no início deste intenso mês de novembro, mas muita gente, inclusive ao redor do candidato do Cidadania a prefeito, 3º colocado no 1º turno, parece ter se esquecido com espantosa velocidade.

No auge do duelo particular do 1º turno em Vitória entre ele mesmo e Pazolini, o candidato apoiado pelo prefeito Luciano Rezende (Cidadania) enunciou palavras pesadíssimas a respeito de Pazolini, gravadas para a posteridade. Para dar um só exemplo, eis abaixo, na íntegra, um depoimento de um minuto publicado por Gandini a cerca de 10 dias do 1º turno, logo após cumprimento de um mandado de busca e apreensão pela Polícia Federal, para apurar uma denúncia feita contra ele pela coligação do deputado do Republicanos:

“Eu preciso falar uma coisa para vocês. Eu venho denunciando o maior grupo criminoso que já colocou as garras na política do Espírito Santo. Eu já imaginava: eles revidaram. Hoje invadiram o local onde fica o estúdio de gravação dos meus programas eleitorais. E o pedido partiu exatamente do Delegado Pazolini, o que não nos impressiona. Sabemos como esse grupo político age. Sempre agiram assim: na base da truculência, invadindo hospitais, tentando ganhar na base da ignorância. Vitória não é uma delegacia. Não tenho medo e não tenho o que esconder, nem meu trabalho nem meus aliados. Continuaremos com nossa campanha e não vamos nos intimidar. Quem quer paz de verdade não invade hospital, não nomeia filha de Magno Malta no gabinete e depois vai dizer que fez processo seletivo e, principalmente, não recorre a favor político de criminoso e bicheiro.”

Repito: ou Gandini estava equivocado em seu juízo sobre Pazolini ou poucos em torno dele estão ligando muito para as afirmações feitas por ele.

Gandini passou boa parte do 1º turno acusando Pazolini de ter ligação com Gratz, com o crime organizado etc., de representar a volta do crime organizado “com uma carinha nova”...

Sobre Coser, não fez quase nenhuma crítica, salvo por uma ou outra referência de leve ao PT e ao metrô de superfície em sua propaganda de rádio. Mas, no geral, no que dependeu do candidato do prefeito Luciano Rezende, o ex-prefeito atravessou quase ileso o 1º turno inteiro, muito diferentemente de Pazolini, alvo regular de suas críticas e "alertas" a respeito de uma possível ameaça para a cidade.

Encerrado o 1º turno, Gandini ficou de fora do 2º e, na última quinta-feira (19)... anunciou a neutralidade. Um primeiro questionamento que muita gente está se fazendo é: se Pazolini é de fato tudo isso que Gandini passou boa parte do 1º turno sublinhando, por que a neutralidade? Se ele efetivamente representa, para a cidade que ele queria governar, uma ameaça perigosa conforme ele próprio alardeou, por acaso ele não deveria se posicionar contra essa suposta ameaça também no 2º turno, para evitar sua chegada ao poder?

Noutros termos, não seria então o caso de ele declarar apoio crítico ao outro candidato, não por alinhamento político a João Coser, mas por rejeição a Pazolini?

São interrogações que pairam no mercado político da ilha e da região continental, enquanto Pazolini e Coser, que nada têm a ver com isso, disputam voto a voto o espólio eleitoral do deputado estadual do Cidadania.

ALIADOS DE GANDINI LOGO SE ALIARAM A PAZOLINI

Tem mais: enquanto Gandini decidiu manter-se neutro, muitos dos seus principais aliados no 1º turno, incluindo todos os três vereadores eleitos pelo seu partido, não pensaram duas vezes em passar para o palanque de Pazolini agora, no 2º turno: Luiz Emanuel, Denninho e Maurício Leite anunciaram sua tripla adesão ao grande antagonista de Gandini, antes mesmo do anúncio de neutralidade por parte do candidato do Cidadania derrotado no 1º turno, que vem a ser também o presidente estadual do partido.

Denninho, por exemplo, o candidato a vereador mais votado da cidade (título que pertenceu a Gandini em 2012 e 2016), está andando com Pazolini para cima e para baixo, como “abre-alas” da caravana de Pazolini em algumas comunidades onde tem influência política. A rede social de Pazolini foi inundada por postagens em que ele mesmo aparece ao lado do vereador reeleito pelo Cidadania.

Vejam bem, não estou aqui, de modo algum, a dizer que as afirmações de Gandini acerca de Pazolini no 1º turno estivessem corretas, o que seria extremamente leviano da minha parte. Estou apenas propondo um raciocínio lógico a partir do que efetivamente foi dito pelo candidato do Cidadania no 1º turno e o que efetivamente foi feito no 2º turno por ele próprio e por muitos aliados dele, incluindo candidatos do mesmo partido, pois existe um visível descolamento entre o discurso até o dia 15 de novembro e ações e posições tomadas poucos dias depois.

Das duas, uma:

Ou Gandini estava equivocado, exagerando etc. (e, nesse caso, ao tomarem partido de Pazolini tão sem cerimônia, apoiadores do próprio Gandini sinalizam tacitamente que Pazolini nunca foi nada daquilo falado sobre ele durante o 1º turno).

Ou Gandini estava certo, existe mesmo alguma “ameaça”, existe mesmo algum “risco” à cidade, mas os candidatos que o apoiavam até, literalmente, dia desses, simplesmente não estão dando a mínima para isso.

Uma coisa é certa: do jeito que tudo evoluiu, a partir da neutralidade de Gandini e, sobretudo, do cavalo de pau dado por muitos de seus correligionários tão logo começou o 2º turno, ficou, no mercado político, uma muito forte sensação de que, ao longo de todo o 1º turno, houve erro na estratégia discursiva do candidato oficial e, no mínimo, alguns excessos em sua retórica de campanha.

Em outras palavras, falando em hipótese, ainda que haja algum fundamento em algo do que disse Gandini sobre Pazolini enquanto candidato, agora ficou parecendo que tudo não passou de retórica de campanha para minar o deputado do Republicanos, uma vez que pouca gente ali no Cidadania parece estar mais se preocupando tanto com o que alegadamente, até o dia 15, seria uma "enorme ameaça".

EXCEÇÕES

Um dos aliados mais próximos de Gandini, o vereador Vinícius Simões (Cidadania), não reeleito, declarou apoio a Coser no 2º turno. O mesmo fez, nesta quarta-feira (25), o vereador Nathan Madeiros (PSL, ex-PSB), que foi candidato a vice-prefeito na chapa derrotada de Gandini. 

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