ASSINE
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Pazolini e Gandini estão pintando duas Vitórias no horário nobre na TV

Os primeiros programas levados ao ar pelos dois candidatos a prefeito de Vitória são absolutamente contrastantes. Primeiro vem Pazolini, expondo um quadro de terra arrasada. Em seguida surge Gandini, apresentando uma cidade sem problemas

Publicado em 14/10/2020 às 05h02
Atualizado em 14/10/2020 às 11h06
Pazolini e Gandini estão pintando duas Vitórias na TV
Pazolini e Gandini estão pintando duas Vitórias na TV. Crédito: Amarildo

No horário eleitoral gratuito, os deputados estaduais Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Fabrício Gandini (Cidadania), candidatos a prefeito de Vitória, parecem estar falando de duas cidades diferentes. Os primeiros programas levados ao ar pelos dois adversários na disputa pela prefeitura são absolutamente contrastantes.

Na propaganda de Pazolini, aparece uma Vitória repleta de problemas, vítima, por exemplo, de uma recente onda de violência urbana “fora de controle”. Na de Gandini, descortina-se uma cidade praticamente sem problemas, onde tudo funciona bem e a violência está contida graças a medidas adotadas pela atual gestão, com participação direta dele enquanto secretário municipal de Planejamento, de 2017 a 2018. Enquanto Pazolini pinta um quadro caótico, calamitoso etc., Gandini desenha uma ilha de paz e eficiência.

Logicamente, os dois candidatos estão exagerando, cada um para o seu lado: Pazolini nas dificuldades; Gandini, na tranquilidade. Era algo até certo ponto previsível, já que estamos falando, respectivamente, de um candidato da oposição ao prefeito Luciano Rezende (Cidadania) e do candidato da situação. Mas a cidade real não será encontrada na propaganda de nenhum dos dois: nem tanto ao mar de serenidade de Gandini nem tanto à terra arrasada de Pazolini.

Faz parte do jogo e, desde que não haja mentiras nem ataques baixos, são estratégias legítimas. Cada um defende o seu. Mas esse contraste chama a atenção também por espelhar um pouco o que foi, há quatro anos, a disputa entre o prefeito Luciano Rezende (Cidadania) e o deputado Amaro Neto (Republicanos) em 2016, no horário eleitoral.

Naquele pleito, como registramos em mais de uma ocasião, a propaganda de Luciano apresentava uma cidade serena e uma gestão eficiente, praticamente sem problemas, enquanto Amaro martelava um problema atrás do outro e reclamações de moradores. Agora, Gandini é apoiado por Luciano, enquanto Pazolini tem o apoio de Amaro.

Um lance do acaso acentua essa impressão de antagonismo entre os programas de Pazolini e de Gandini, como se um fosse feito sob medida para rebater o outro. A ordem de veiculação dos programas nos blocos do horário eleitoral foi definida por sorteio, pela Justiça Eleitoral.

Os de Pazolini e Gandini, nesta ordem, são exibidos praticamente em sequência, separados apenas pelo de Gilbertinho Campos, do PSOL, que dura uns dez segundinhos. Assim, o programa de Gandini sempre vem logo em seguida ao de Pazolini, com um rapidíssimo intervalo para o PSOL.

Na última sexta-feira, os dois resolveram falar de segurança pública, mas com abordagens completamente destoantes.

Pazolini abriu seu programa (repetido algumas vezes depois) com reportagens televisivas sobre troca de tiros de bandidos com policiais em avenidas movimentadas de Vitória e os recentes episódios da chacina de quatro jovens em uma ilha da Grande Santo Antônio e do ataque com mortes no Centro de Vitória. Logo depois, entra em cena o candidato, com duras críticas:

“Infelizmente, Vitória está passando por um dos períodos mais violentos de sua história recente, resultado da omissão, falta de planejamento e capacidade do atual grupo que está há muito tempo no poder.”

Em seguida, aparecem na tela números da violência em Vitória, os quais, nas palavras do locutor, “estão fora de controle”. Os letreiros destacam palavras como “narcotráfico”, “insegurança”, “assalto” e “latrocínio”. Sem perder o fôlego, Pazolini passa a falar da Guarda Municipal – segundo ele, “sub-utilizada, mal equipada e desmotivada”.

Então, não satisfeito, emenda que “a educação de Vitória está entre as piores do Estado, fora o cuidado com pessoas em situação de rua, que”, sempre segundo o candidato, “foi abandonado pela atual gestão”. Veja bem: estamos no mesmo programa. E ainda dá tempo de ele criticar os “prêmios maquiados”, a “má utilização de recursos” e “a precariedade da saúde, da segurança e da educação”.

Respiro de dez segundos para Gilbertinho e Munah Malek e, logo na sequência, começa o programa de Gandini. E na tela um candidato muito calmo aparece para nos falar sobre o Cerco Inteligente, o moderno sistema de videomonitoramento implantado na cidade durante sua passagem pela prefeitura como o “super-secretário” de Luciano. Enquanto Pazolini fala “de números fora de controle”, Gandini quer nos falar de uma “revolução” proporcionada pelo programa:

Após a deixa do locutor (“Gandini fez, Gandini sabe fazer”), o candidato afirma que “a implantação do Cerco Inteligente de Segurança é uma revolução no combate ao crime em Vitória”. “Eu trouxe a ideia do interior de São Paulo e, como secretário de Planejamento, trabalhei para transformá-la em realidade. As câmeras já ajudaram a evitar e a desvendar centenas de crimes”.

Corta para um exemplo de um cidadão que teve a moto recuperada. Volta para Gandini, que anuncia o passo seguinte: “Agora vamos investir na tecnologia de reconhecimento facial, detector de tiros e de armas e o que tem de mais moderno no mundo”. E emenda com a promessa de tornar Vitória “a capital mais segura do país”. Encerra assumindo o compromisso de abrir concurso para aumentar o efetivo da Guarda Municipal no primeiro dia de governo.

E aí? Muito ou pouco diferente?

DO SOCO NO ESTÔMAGO AO CORAÇÃOZINHO NO PEITO

Em horário eleitoral mais recente, Pazolini repetiu o programa sobre a violência. O horror, o horror… Mas, após o break para Gilbertinho, um Gandini sorridente aparece na tela fazendo com as mãos o gesto de coração (sobre o próprio coração). O cantor entoa o jingle: “Orgulho de viver, nessa cidade linda, sol e mar. Quem sabe fazer vai conseguir avançar”...

O tom predominante é o verde, cor da campanha, que, na metáfora do trânsito, simboliza a ideia de andar para a frente, isto é, “avançar” (lema do candidato). “Eu estudei e me preparei para ser prefeito de Vitória”, diz Gandini, prometendo “cuidar da nossa cidade” e afirmando que “hoje, Vitória é uma das melhores cidades para se viver no país”. “Ganhamos vários prêmios nacionais e com certeza vamos avançar.” Aqueles prêmios que, de acordo com Pazolini, seriam “maquiados”.

Já no horário eleitoral de segunda-feira (12), Pazolini voltou ao tema da violência, fez nova menção à chacina em Santo Antônio e mirou diretamente em Gandini: “Ninguém viu o prefeito e seu candidato junto à comunidade”.

Gandini, em seu programa, também tornou ao tema, mas para falar de evolução. Disse que, há oito anos, Vitória era uma cidade escura e a capital mais violenta do Brasil, com 34 homicídios por 100 mil habitantes. “Hoje”, diz o narrador, dando um número que merece checagem, “Vitória já tem o índice mais baixo de assassinatos do país”.

Segundo Gandini, essa redução se deve em parte ao projeto Bairro Iluminado, também conduzido por ele, com implantação de lâmpadas de LED ou vapor metálico e substituição da antiga luz amarela por luz branca no sistema de iluminação pública da cidade.

OS DOIS TÊM A SUA RAZÃO

O problema é o seguinte: exageros à parte, os dois estão certos. A Vitória real não se extrai de nenhum dos dois programas. Encontra-se em algum ponto no meio do caminho dos dois (e não estamos falando do programa de Gilbertinho Campos).

Sim, Vitória é uma cidade boa para se viver, com IDH elevado. É uma das capitais do país com mais alta qualidade de vida. Não há “maquiagem” no mundo que pudesse simular isso. Analisando friamente, quem troca uma Vitória por uma Cariacica ou uma Serra em termos de qualidade de vida?

Mas a Capital também é uma cidade com problemas, como todo grande centro urbano brasileiro – com destaque, recentemente, para a área da segurança pública. Problemas que não podem ser escondidos nem varridos para baixo do tapete verde.

CONSTATAÇÃO 1: NÃO ABRIU A BOCA

Até agora, João Coser (PT) não abriu a boca no próprio programa. São só depoimentos de pessoas e imagens (sobretudo aéreas, das grandes obras de sua gestão) cobertas pelo texto do locutor.

CONSTATAÇÃO 2: NÃO ABRIU OS TRABALHOS

Já Capitão Assumção (Patriota) nem apareceu para a festa: ainda não exibiu nenhum programa no horário eleitoral. Segundo sua assessoria, o problema foi falta de recursos, mas os programas estão em produção.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.