A Gazeta portal de notícias do Espirito Santo

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Vitor Vogas

O raio-X do "liberou geral" dos assessores de gabinete na Assembleia

Ou: como chutar a transparência para fora do estádio em oito passos

Publicado em 22 de Março de 2019 às 23:24

Públicado em 

22 mar 2019 às 23:24
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Prédio da Assembleia Legislativa, na Enseada do Suá Crédito: Marcelo Prest

O Ministério Público Estadual (MPES), com razão, está cobrando mais transparência da Assembleia Legislativa na publicação das atividades cumpridas pelos assessores parlamentares que atuam nos chamados "gabinetes externos" – uma invencionice instituída por meio de resolução aprovada em 2011.

Antes disso, o que valia era outra resolução, datada de 1998, que disciplinava e especificava a função de cada assessor de gabinete. No caso de muitos cargos, as atribuições se limitavam expressamente a atividades administrativas e internas.

De lá para cá, por meio de uma sucessão de outras resoluções, as regras originais foram sendo transfiguradas, e a disciplina gradualmente deu lugar ao "liberou geral".

Confira, abaixo, essa retrospectiva que mostra como instituir o "liberou geral" e chutar a transparência para fora do estádio em sete passos:

1. Resolução 1905/1998

Editada em 1998, a resolução vigorou até 2011 e definia claramente as atribuições específicas dos até 18 comissionados que podem ser nomeados em cada gabinete. No caso de muitos cargos, as atribuições se limitavam expressamente a atividades administrativas e internas.

2. Resolução 2890/2011

Em janeiro de 2011, a Casa publica a resolução conhecida como "reforma administrativa da Assembleia", prevendo a criação de "gabinetes externos", nas bases eleitorais dos deputados.

3. PR 032/2011

Para regular o funcionamento dos tais "gabinetes externos", o corpo técnico do Legislativo elabora o Projeto de Resolução 032/2011, estabelecendo um limite: a metade dos 18 assessores de cada gabinete poderia atuar externamente, desde que comprovassem os serviços realizados mediante relatórios diários, semanais e mensais. Em tese, era um projeto razoável, mas foi completamente desfigurado no passo seguinte:

4. Resolução 3.123/2011

No apagar das luzes de 2011, a Casa publica a Resolução 3.123/2011, em detrimento do projeto anterior, engavetado. Em vez de prever regras mais duras, o novo texto começa a legalizar a moleza. Suprime a necessidade de indicação formal e precisa dos assessores que exerceriam "serviços externos", bem como a limitação do número de assessores dessa natureza e o controle das atividades efetivamente realizadas por cada um.

No lugar dessas restrições, institui que os 18 cargos de assessores podem ser indicados "para o exercício de atividades internas e externas" e "pressupõem o exercício de qualquer atribuição". Além disso, tais funções seriam desempenhadas “com relativa autonomia em todo o território estadual". Difícil ser mais vago.

5. PR 017/2012

Diante da aprovação da resolução acima, o MPES protesta junto à Assembleia. Externa à Mesa que as expressões genéricas usadas ferem o próprio conceito de cargo público. Também alerta para o risco de que a ausência de detalhamento das atribuições de cada cargo e de fiscalização da carga horária dos servidores desse margem a funcionários fantasmas.

Em setembro de 2012, já presidindo o Poder, o deputado Theodorico Ferraço (DEM) cria uma comissão encarregada de analisar e propor aperfeiçoamentos na estrutura da Casa. Os técnicos chegam a elaborar novo Projeto de Resolução (o 017/2012), com restrições muito maiores, assim como as do sepultado PR 032/2011, e o acréscimo de importante melhoria: os relatórios mensais de atividades deveriam ser publicados no Portal da Transparência.

6. Resolução 3.366/2013

Como de praxe, contudo, os deputados voltam a sabotar a regulamentação dos "gabinetes externos" e fazem cortes radicais que desvirtuam o projeto da comissão. Em seu lugar, aprovam a Resolução 3.366/2013, que mantém quase tudo como antes, mas pelo menos impõe um limite: até 8 dos 18 assessores poderiam atuar fora da sede do Legislativo.

7. Resolução 3.994/2015

Em maio, a nova Mesa Diretora, ainda comandada por Theodorico, libera a farra de uma vez. Ignorando as recomendações do MP, escarnecendo da opinião pública e enterrando de vez a esperança de adoção de regras mais transparentes, aprova nova resolução, com amplo apoio do plenário, e libera todos os 18 assessores de gabinete de... trabalhar no gabinete.

Obs: Depois disso, já na gestão do atual presidente, Erick Musso (Republicanos), a Assembleia ainda conseguiu a proeza de aumentar o número máximo de assessores de gabinete de 18 para 19.

8. Resolução 6.360/2019

Em 16 de julho de 2019, em plena gestão Erick Musso, a Assembleia aprovou o projeto de resolução 44/2019 que,  no artigo 21 (o último), extinguiu, em definitivo, a obrigatoriedade de apresentação dos relatórios semanais de atividades por partes dos "assessores de gabinete externo".

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Foto da fachada Sicoob
Confira quais são os 10 maiores grupos empresariais do ES
Imagem de destaque
Os animais que você pode vencer em uma corrida — e os que são invencíveis
Golpe de R$ 1 milhão com boletos de planos de saúde é alvo de operação no ES
Golpe de R$ 1 milhão com boletos de planos de saúde é alvo de operação no ES

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.