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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

O que pode levar Meneguelli a desistir da reeleição em Colatina?

Concorrer à reeleição em Colatina pode não ser tão bom negócio para ele considerando seu potencial de crescimento político. Perdendo ou ganhando o pleito, sua participação nesse processo pode trazer-lhe mais prejuízos que benefícios políticos

Publicado em 17/08/2020 às 05h00
Atualizado em 17/08/2020 às 05h04
Sérgio Meneguelli ainda não confirmou candidatura à reeleição em Colatina
Sérgio Meneguelli ainda não confirmou candidatura à reeleição em Colatina. Crédito: Amarildo

Fenômeno de popularidade nas redes sociais, o prefeito de ColatinaSérgio Meneguelli (Republicanos), ainda não decidiu se disputará ou não a reeleição em novembro. Deve estar refletindo muito se vale a pena. Concorrer à reeleição em Colatina pode não ser tão bom negócio para ele considerando o seu potencial de crescimento político.

Perdendo ou ganhando o pleito, sua participação nesse processo pode trazer-lhe mais prejuízos do que benefícios na perspectiva de um “plano de voo político”. É o que explicaremos detidamente nesta análise.

Para bem ou para o mal, o fato é que Meneguelli consolidou-se como uma celebridade midiática nesta era do YouTube, do Instagram e do WhatsApp. Independentemente de méritos e deméritos administrativos, o prefeito de Colatina domina e sabe usar a seu favor como poucos essas novas formas de se comunicar diretamente com o público, dispensando a mediação da imprensa e de meios de comunicação tradicionais.

Some-se a isso o perfil singular do prefeito de 64 anos (não aparentados), flertando um pouco com o folclórico, que faz dele um personagem carismático e imensamente popular no interior do universo das redes sociais.

Como consequência, durante a apuração desta coluna, ouvimos de alguns políticos colatinenses a mesma constatação: graças às redes sociais (que transcendem fronteiras e sempre maquiam ou falseiam em alguma medida a realidade objetiva), Meneguelli é hoje mais popular fora dos limites de Colatina (e, inclusive, das divisas do Estado) do que dentro do próprio município governado por ele.

“Ele hoje tem uma marca muito forte no Espírito Santo. Construiu uma marca mais forte no âmbito estadual do que no municipal”, atesta um líder político local.

Eis o paradoxo de Meneguelli.

PREFEITO VIRAL X PREFEITO REAL

Em outras cidades e até em outros Estados (especialmente entre grupos de direita), Meneguelli é “o melhor prefeito do Brasil”, “o prefeito que eu queria ter na minha cidade”, entre outros epítetos, por causa dos vídeos e imagens virais no estilo “gente como a gente” nos quais ele aparece em situações muito singelas, mas raríssimas para um governante brasileiro: jogando capoeira, indo trabalhar de bicicleta ou literalmente arregaçando as mangas para plantar canteiros e pintar muros na cidade. Ali ele alcançou status de celebridade.

Nos limites de Colatina, porém, Meneguelli é o “prefeito real”, “o prefeito que eu realmente tenho na minha cidade”, com as suas virtudes certamente, mas também com os seus defeitos e com os problemas e dificuldades de gestão inerentes a toda a administração pública brasileira, ainda mais em um período tão particularmente complexo e desafiador de nossa história.

Resultado: fora das bolhas virtuais e dentro de Colatina (isto é, dentro da vida real da Colatina real), Meneguelli não é propriamente um fenômeno de popularidade nem tampouco a unanimidade que às vezes parece ter se tornado na dimensão paralela criada pelas redes sociais. É um prefeito comum, de carne e osso. Um bom prefeito para alguns; não tão bom para outros. Aprovado e querido por parte da população colatinense; reprovado e criticado por outros setores da cidade.

CRÍTICAS RECORRENTES NA COLATINA REAL

Um exemplo de crítica comum a Meneguelli em Colatina, mantida não só por adversários como também por alguns empresários e outros agentes políticos da cidade: embora muito simpático, carismático e correto no uso do dinheiro público, o prefeito não tem nem jamais teve cacoete de gestor. Nos campos técnico e administrativo, deixaria muito a desejar.

Além disso, por seu estilo autossuficiente (que alguns não hesitam em chamar de “individualista”), o prefeito não teria construído as relações institucionais necessárias, em nome da prefeitura, para Colatina recuperar o terreno perdido nos últimos anos para cidades vizinhas ao norte da Grande Vitória. Como resultado, o município do Noroeste tem ficado ainda mais para trás de Linhares e até de Aracruz em matéria de desenvolvimento econômico.

E, na prática, as atitudes pessoais que viralizam nas redes (e que alguns não hesitam em tachar de “teatrais”, “populistas” e “auto-promocionais”) podem até ser simbolicamente legais, mas em nada ajudam a alavancar o desenvolvimento da cidade.

“Há a consciência de que a gestão dele deixa a desejar em muitos pontos, mas ele compensa isso com uma excelente estratégia de marketing e de autopromoção nas redes sociais. Ele é um gênio nisso”, reconhece outro experiente político colatinense.

SER OU NÃO SER… CANDIDATO NO PÓS-PANDEMIA?

E é esse “paradoxo de Meneguelli” que na certa reforça o seu dilema entre ser ou não ser candidato à reeleição. Considerando o status de celebridade adquirido por ele fora de Colatina - contrastante com a dura realidade de ter que governá-la -, talvez não seja tão interessante assim para ele amarrar-se à cadeira de prefeito por mais quatro anos e ter que continuar governando a cidade, em um momento, repita-se, particularmente difícil para ser prefeito de qualquer município brasileiro.

Em vez disso, se pensarmos em suas invejáveis possibilidades de crescimento político, pode ser muito mais conveniente para ele tirar dois aninhos sabáticos (mantendo-se em alta nas mídias sociais durante esse período como YouTuber, blogueiro ou coisa que o valha), para daqui a dois anos lançar-se a um cargo eletivo de maior visibilidade política e muito menor dor de cabeça; um cargo como o de deputado federal, que lhe permita ser votado em todo o Estado e, o que é mais importante, obter projeção nacional durante o cumprimento do mandato.

Para alguns aliados de Meneguelli, com a popularidade que ele concentra hoje para além de Colatina graças às redes sociais, ele pode não só aspirar como eleger-se tranquilamente, no mínimo, a deputado federal em 2022. Isso livre do ônus do desgaste que será praticamente inevitável para qualquer prefeito que tenha que governar Colatina (ou qualquer outra cidade) nesta quadra particularmente desafiadora do pós-pandemia que se anuncia.

Por outro lado, se decidir concorrer à reeleição e vencer novamente a disputa municipal em novembro, ele estará praticamente “preso” à prefeitura por mais quatro anos, o que, para alguns, pode até representar o risco de enterro da sua hoje promissora carreira política: em um período que exigirá mais que nunca capacidade gerencial, suas falhas e debilidades administrativas tendem a sobressair muito mais que nos últimos quatro anos.

Mais apertada, a população será mais exigente e, após o primeiro mandato, menos complacente com o prefeito. Uma vitória eleitoral, por essa ótica, pode ser suicídio político e autossabotagem de uma carreira ascendente. Um erro de cálculo terrível.

O RISCO DE ENTRAR… E PERDER

Mas existe outro risco, e esse é ainda maior: o de ele pleitear a reeleição e vir a perder a disputa (o que não é de todo impossível). A eleição em Colatina será difícil. A cidade não tem segundo turno. Há muitos concorrentes na disputa. Se for candidato, Meneguelli, com a máquina na mão, será sem dúvida o favorito, mas sua vitória não é garantida.

E uma derrota em um pleito local, além de manchar seu currículo e minar seu capital político (pondo abaixo o mito de “melhor prefeito do Brasil”), também pode lhe dificultar voos mais altos e ambiciosos nos pleitos vindouros.

A reeleição, enfim, por essa linha de raciocínio, pode ser um prejuízo para ele. Perdendo ou ganhando, ele pode ter mais a perder do ponto de vista político.

O PRECEDENTE DITADO POR AMARO

Pelo mesmo motivo (mas não só por isso), como também analisamos aqui no sábado (15), o deputado federal Amaro Neto, também do Republicanos, desistiu de entrar na disputa a prefeito da Serra, preservando-se eleitoralmente para a próxima eleição estadual, em 2022.

A NÃO SER QUE…

A não ser que o verdadeiro plano de Serginho, como é mais conhecido, seja conseguir a reeleição para deixar o mandato pela metade, nas mãos do vice eleito com ele, em abril de 2022, e concorrer à Câmara Federal (ou outro cargo) alegando para seus eleitores que isso será melhor para a cidade. Essa hipótese desconstrói todo o raciocínio exposto acima.

OLHO NA ESCOLHA DO VICE

Uma pista nesse sentido é o favoritismo de Junior Zaché, presidente do PSDB em Colatina, para ser vice na chapa do prefeito. Zaché é membro da família Dalla, tradicionalíssima em Colatina e preceptora política de Serginho. Ainda adolescente, ele começou a trabalhar em um cartório da família. Antes dos 30 anos, chegou a ser assessor de Moacir Dalla no Senado.

O político colatinense (falecido em 2006) foi senador de 1979 a 1987 e presidiu a Casa de 1983 a 1985.

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