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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

O que o uso da cloroquina tem a ver com as eleições municipais no ES?

Não tem jeito: por esforço pessoal do próprio presidente, a cloroquina virou “a droga do Bolsonaro”. Com a campanha batendo à porta, políticos alinhados a ele “prescrevem” o medicamento, enquanto prefeitos que não são de direita temem perder votos entre eleitores bolsonaristas se não o adotarem

Publicado em 12/07/2020 às 06h03
Atualizado em 12/07/2020 às 09h04
Da esq. para a direita: Jair Bolsonaro, Marcos do Val, Magno Malta e Capitão Assumção
Da esq. para a direita: Jair Bolsonaro, Marcos do Val, Magno Malta e Capitão Assumção. Crédito: Montagem: Vitor Vogas

Por que prefeitos capixabas, inclusive os que não são de direita, estão se rendendo à "droga do Bolsonaro", isto é, adotando procedimentos que envolvem prescrição de cloroquina nas respectivas redes municipais de saúde? Há questões técnicas envolvidas, mas, para além de critérios médicos, a resposta também repousa em um calendário sobreposto ao da pandemia, aliás invadido por ela: o eleitoral.

Vejam que curioso. A pandemia foi declarada oficialmente pela OMS no dia 11 de março, há 123 dias neste domingo (12). Com o adiamento das eleições municipais, promulgado pelo Congresso, o 1º turno ocorrerá no dia 15 de novembro, daqui a 126 dias. Estamos basicamente no meio do caminho entre o início da pandemia e o pleito municipal no país.

Assim, é fácil deduzir que, no cálculo político dos prefeitos, estão entrando os potenciais ganhos eleitorais em “cloroquinar” e, principalmente, os potenciais prejuízos eleitorais em não “cloroquinar”. Presumivelmente, prefeitos que tentarão a reeleição ou que têm um candidato próprio à sucessão (e são quase todos) resolveram dar às pessoas o que elas querem. E, muito particularmente, dar o que querem os eleitores alinhados a Bolsonaro. Ainda que o que eles queiram, por estímulo direto do presidente, possa ser (ou não ser) um placebo.

O prefeito que negar esse “Santo Graal” a essas pessoas sedentas por ele poderá ser cobrado nas urnas… Será lembrado, por adversários, como o “esquerdista” que se recusou a oferecer ao povo esse remédio milagroso que “curou” o Bolsonaro e que estava aí, disponível…

É simplesmente inegável: para além de qualquer discussão técnica, a cloroquina, no Brasil, virou “o remédio do Bolsonaro”, ou, mais especificamente, por força do discurso maniqueísta mantido pelo próprio presidente, virou “o remédio da direita”. Essa discussão deveria passar totalmente ao largo de qualquer viés político, mas o presidente esforçou-se pessoalmente em afundá-la em ideologia.

Nos últimos dias, transformou até a própria doença em propaganda de cloroquina. Em maio, toscamente, declarou que “quem é de direita toma cloroquina, enquanto quem é de esquerda toma Tubaína”. Enfim, tanto fez que conseguiu: o uso ou não de um remédio tornou-se parte de sua cruzada ideológica e de sua estratégia inexaurível de polarização com “a esquerda”.

Pela “lógica” de Bolsonaro, após sua declaração bizarra, governantes e inclusive médicos que não se sintam seguros o bastante para prescrever uma droga fora da bula, sem eficácia cientificamente comprovada, podem ser tachados de “esquerdistas”. Isso também vale para pacientes, bolsonaristas ou não, que simplesmente se recusem a tomar um medicamento de eficácia ainda muito questionável. Da mesma forma, o médico que, segundo sua consciência, receitar a mesma droga ao paciente, corre o risco de ser rotulado de “direitista”.

E é curioso que apoiadores de Bolsonaro acusem adversários de “politizar” essa questão quando foi o próprio presidente quem se empenhou e segue a se empenhar muito para isso.

A PROPAGANDA EM MASSA DOS BOLSONARISTAS CAPIXABAS

Não por acaso, reforçando a ideia de que a cloroquina é a “droga da direita”, políticos alinhados a Bolsonaro passaram a bater com força na tecla da cloroquina como estratégia de tratamento precoce.

Sem ter mostrado até hoje um teste conclusivo de que pegou mesmo a doença, o senador Marcos Do Val (Podemos), em 29 de maio, divulgou um testemunho pessoal, em áudio que equivale a um comercial da hidroxicloroquina, com direito a frases no imperativo: “Procura o seu médico e fala pro seu médico que você quer tomar [...] Por favor, peçam aos médicos!”. Reclamando da politização em torno do medicamento, contou que contraiu o coronavírus e que, sob orientação médica, tratou-se com essa substância, combinada com a azitromicina, e observou “melhora expressiva” em poucos dias.

Na mesma linha “propagandística”, o antecessor de Do Val no Senado, Magno Malta (PL), postou na última terça-feira (7) fotos em que aparece segurando e beijando caixas de ivermectina, com a legenda também prescritiva (e também no imperativo): “Faça raiva ao governador esquerdista ou oportunista de seu estado ou prefeito! Vamos tomar esse remédio oh! Glória!”. Exemplo cabal da “polarização fármaco-política” ditada por Bolsonaro.

Enquanto isso, na Assembleia Legislativa, o deputado Capitão Assumção (Patriota) chegou a aconselhar policiais militares a se automedicarem com cloroquina ante a aparição dos primeiros sintomas, mesmo sem indicação médica. E por aí vai…

CÁLCULO POLÍTICO-ELEITORAL

E aí voltamos ao cálculo eleitoral dos prefeitos que têm se curvado à estratégia ditada pelo presidente. Com a propaganda do remédio feita, ainda que sem autoridade no assunto, por Bolsonaro e por bolsonaristas, aumentam a cada dia o clamor e a busca por essas drogas, em postos de saúde, por parte de uma população cansada, angustiada, desorientada, desesperançosa e, em alguns casos, desesperada.

Sem perspectiva de vacina ou cura real tão cedo para o novo coronavírus, as pessoas estão prontas para se apoiarem em qualquer coisa que lhes dê alguma esperança e segurança. Especialmente entre as pessoas que se identificam com Bolsonaro, a cloroquina virou uma panaceia, o “elixir da vida” do presidente, disponível para todos que quiserem…

Sim, porque o Ministério da Saúde, controlado pessoalmente pelo presidente como ele sempre quis desde o início - através do ministro-marionete eternamente interino - tem distribuído as doses para os Estados, e a Sesa já informou, desde 19 de junho, que as repassará, sem óbice (mas também sem concordância) a todos os municípios que pedirem oficialmente a sua cota. A droga existe e está acessível. Se funciona mesmo é outras discussão… Mas pode funcionar eleitoralmente.

Para os prefeitos de direita, pedir e usar a cloroquina nas respectivas redes de saúde é quase uma “imposição política”. Se apoiam Bolsonaro, até por coerência, veem-se compelidos a seguir essa estratégia. Já para os de esquerda, ou centro-esquerda, o que deve pesar mais é o receio de serem atacados pela oposição direitista e de que esta use eventual “não à cloroquina” contra eles na campanha, acusando-os de negligência ou omissão num quadro calamitoso de crise sanitária: “Olha, tinha o remédio disponível, mas negou-o às pessoas por ideologia”...

Ao adotarem a cloroquina, tais prefeitos neutralizam preventivamente essa acusação. E, de quebra, ainda podem angariar alguma simpatia entre eleitores de direita e/ou simpáticos ao presidente.

CASOS CONCRETOS: VITÓRIA

Há exemplos concretos no Estado. Entre os que decidiram usar cloroquina, estão os de Nova Venécia (Barrigueira Lubiana), Cachoeiro (Victor Coelho) e Vitória (Luciano Rezende). Todos são de centro-esquerda. Os dois primeiros são do PSB, partido do governador Renato Casagrande.

Victor Coelho e Luciano Rezende, prefeitos, respectivamente, de Cachoeiro de Itapemirim e de Vitória
Victor Coelho e Luciano Rezende, prefeitos, respectivamente, de Cachoeiro de Itapemirim e de Vitória. Crédito: Amarildo

Já Luciano (Cidadania), que não pode tentar a reeleição, tem um candidato do mesmo partido, o deputado estadual Fabrício Gandini. Presidente estadual do Cidadania, Gandini deve enfrentar nas urnas adversários de direita que fazem oposição pesada ao governo Casagrande, como Assumção (Patriota) e o também deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos, atual partido de Flávio e de Carlos Bolsonaro no Rio).

Isso além do engenheiro Halpher Luiggi (PL), cuja candidatura está sendo preparada por Magno Malta. Se já estão batendo em Casagrande pelo não uso da cloroquina na rede estadual, alguém tem dúvida de que o farão na campanha municipal contra o representante de uma prefeitura que também não a tenha utilizado?

CASOS CONCRETOS: CACHOEIRO

Candidato à reeleição, o prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho, chegou a divulgar com entusiasmo em suas redes a chegada das caixas de cloroquina repassadas pela Sesa, enquanto o próprio governo Casagrande mantém-se impassível na política de não endossar o uso da substância contra a Covid-19.

Post do prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho, sobre a chegada de doses de cloroquina repassadas pela Sesa
Post do prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho, sobre a chegada de doses de cloroquina repassadas pela Sesa. Crédito: Reprodução Facebook

Apesar da vitória consagradora de Coelho em 2016, Cachoeiro é, no interior do Estado, um dos maiores redutos de conservadorismo bolsonarista, como ficou cabalmente demonstrado em outubro de 2018: na cidade, Bolsonaro teve 66,9% dos votos válidos no 1º turno e incríveis 75,3% no 2º turno.

Para completar, o vice-prefeito de Coelho, um bolsonarista convicto, é seu potencial adversário nas urnas em novembro.

Muito ligado a Carlos Manato, Jonas Nogueira era do PSL, mas, sem legenda para disputar a prefeitura pelo ex-partido de Bolsonaro, migrou para o PL, sigla presidida no Estado por Magno Malta. Assim como o ex-senador, tem feito campanha em prol da massificação da cloroquina. Indo além, chegou a incitar moradores de Cachoeiro a lavrar boletins de ocorrência e acionar a Justiça para obrigar médicos a lhes prescrever a droga, passando por cima da autoridade médica e investindo-se de autoridade jurídica. Ouviu de respeitado médico da cidade um pito na linha “mantenha-se no seu quadrado”.

“A situação da cloroquina é de responsabilidade dos médicos. A prescrição no Brasil é um ato médico. Juiz não prescreve, advogado não prescreve, presidente da República não prescreve”, lembrou ao vice-prefeito o cardiologista Marlus Thompson, coordenador da UTI do hospital do Aquidaban.

A discussão poderia (e deveria) se encerrar aí. Mas parece impossível quando o que está em jogo é também outra decisão: aquela de natureza eleitoral.

O CASO DE MARCOS DO VAL

Acerca do caso do senador Marcos do Val, não é possível dizer que ele tenha se curado da Covid-19, pois, tecnicamente, não se pode afirmar com segurança nem que ele tenha contraído a doença. Aliás, não se pode dizer nem que ele pegou nem que não pegou. Só podemos afirmar que ele afirma ter se contagiado.

Os dois primeiros testes apresentados por ele, via assessoria, no fim de maio, foram inconclusivos. Do Val chegou a apresentar sintomas da doença e tomou medicamentos sob orientação médica. Seu diagnóstico clínico o indicou como caso “de moderado risco para Covid-19”. Seu tratamento foi preventivo.

No dia 30 de maio, o intensivista Marcio Henrique de Alvarenga Nascimento, responsável pelo tratamento clínico do senador (que incluiu a combinação de hidroxicloroquina com azitromicina), foi muito objetivo em entrevista à coluna: “Diante dos sintomas que ele apresentava e por ter tido contato próximo com indivíduos positivos, ele apresentava pontuação de moderado risco para Covid-19, baseado no critério do Ministério da Saúde. Nesses casos tratamos baseados no critério clínico. Afirmar com certeza [se pegou o coronavírus], só após o exame positivo.”

Desde então, não foi mostrado mais nenhum laudo pelo senador.

LIGAÇÃO ENTRE REBLIN E JOÃO COSER

O subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, número 2 da hierarquia da Sesa, fez ressalvas contundentes à decisão da Prefeitura de Vitória relativa ao uso da cloroquina.

Tem motivos técnicos para isso, certamente. Mas só para jogar mais pimenta nesse caldo: não se pode ignorar que Reblin é filiado ao PT desde 2008 e foi secretário municipal de Saúde na administração de João Coser (2005/2012), do mesmo partido, que agora se apresenta como adversário do candidato de Luciano Rezende na corrida à Prefeitura de Vitória.

PERVERSIDADE PARA O MÉDICO

A ideologização de um tratamento medicamentoso, iniciada pelo presidente da República, é uma perversidade sobretudo para os próprios profissionais da saúde. A partir das declarações do presidente (Tubaína etc.), o médico que, seguindo sua consciência e critérios médicos, se recusar a receitar a cloroquina, pode ser acusado de “matar o paciente” por “ideologia de esquerda”. Já o que, também seguindo sua consciência, receitar a droga a um paciente que venha a evoluir a óbito, pode ser acusado de tê-lo matado por “ideologia de direita”.

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