O que o uso da cloroquina tem a ver com as eleições municipais no ES?
Polarização fármaco-ideológica
O que o uso da cloroquina tem a ver com as eleições municipais no ES?
Não tem jeito: por esforço pessoal do próprio presidente, a cloroquina virou “a droga do Bolsonaro”. Com a campanha batendo à porta, políticos alinhados a ele “prescrevem” o medicamento, enquanto prefeitos que não são de direita temem perder votos entre eleitores bolsonaristas se não o adotarem
Da esq. para a direita: Jair Bolsonaro, Marcos do Val, Magno Malta e Capitão AssumçãoCrédito: Montagem: Vitor Vogas
Por que prefeitos capixabas, inclusive os que não são de direita, estão se rendendo à "droga do Bolsonaro", isto é, adotando procedimentos que envolvem prescrição de cloroquina nas respectivas redes municipais de saúde? Há questões técnicas envolvidas, mas, para além de critérios médicos, a resposta também repousa em um calendário sobreposto ao da pandemia, aliás invadido por ela: o eleitoral.
Assim, é fácil deduzir que, no cálculo político dos prefeitos, estão entrando os potenciais ganhos eleitorais em “cloroquinar” e, principalmente, os potenciais prejuízos eleitorais em não “cloroquinar”. Presumivelmente, prefeitos que tentarão a reeleição ou que têm um candidato próprio à sucessão (e são quase todos) resolveram dar às pessoas o que elas querem. E, muito particularmente, dar o que querem os eleitores alinhados a Bolsonaro. Ainda que o que eles queiram, por estímulo direto do presidente, possa ser (ou não ser) um placebo.
O prefeito que negar esse “Santo Graal” a essas pessoas sedentas por ele poderá ser cobrado nas urnas… Será lembrado, por adversários, como o “esquerdista” que se recusou a oferecer ao povo esse remédio milagroso que “curou” o Bolsonaro e que estava aí, disponível…
É simplesmente inegável: para além de qualquer discussão técnica, a cloroquina, no Brasil, virou “o remédio do Bolsonaro”, ou, mais especificamente, por força do discurso maniqueísta mantido pelo próprio presidente, virou “o remédio da direita”. Essa discussão deveria passar totalmente ao largo de qualquer viés político, mas o presidente esforçou-se pessoalmente em afundá-la em ideologia.
Pela “lógica” de Bolsonaro, após sua declaração bizarra, governantes e inclusive médicos que não se sintam seguros o bastante para prescrever uma droga fora da bula, sem eficácia cientificamente comprovada, podem ser tachados de “esquerdistas”. Isso também vale para pacientes, bolsonaristas ou não, que simplesmente se recusem a tomar um medicamento de eficácia ainda muito questionável. Da mesma forma, o médico que, segundo sua consciência, receitar a mesma droga ao paciente, corre o risco de ser rotulado de “direitista”.
E é curioso que apoiadores de Bolsonaro acusem adversários de “politizar” essa questão quando foi o próprio presidente quem se empenhou e segue a se empenhar muito para isso.
A PROPAGANDA EM MASSA DOS BOLSONARISTAS CAPIXABAS
Não por acaso, reforçando a ideia de que a cloroquina é a “droga da direita”, políticos alinhados a Bolsonaro passaram a bater com força na tecla da cloroquina como estratégia de tratamento precoce.
Sem ter mostrado até hoje um teste conclusivo de que pegou mesmo a doença, o senador Marcos Do Val (Podemos), em 29 de maio, divulgou um testemunho pessoal, em áudio que equivale a um comercial da hidroxicloroquina, com direito a frases no imperativo: “Procura o seu médico e fala pro seu médico que você quer tomar [...] Por favor, peçam aos médicos!”. Reclamando da politização em torno do medicamento, contou que contraiu o coronavírus e que, sob orientação médica, tratou-se com essa substância, combinada com a azitromicina, e observou “melhora expressiva” em poucos dias.
Na mesma linha “propagandística”, o antecessor de Do Val no Senado, Magno Malta (PL), postou na última terça-feira (7) fotos em que aparece segurando e beijando caixas de ivermectina, com a legenda também prescritiva (e também no imperativo): “Faça raiva ao governador esquerdista ou oportunista de seu estado ou prefeito! Vamos tomar esse remédio oh! Glória!”. Exemplo cabal da “polarização fármaco-política” ditada por Bolsonaro.
Enquanto isso, na Assembleia Legislativa, o deputado Capitão Assumção (Patriota) chegou a aconselhar policiais militares a se automedicarem com cloroquina ante a aparição dos primeiros sintomas, mesmo sem indicação médica. E por aí vai…
E aí voltamos ao cálculo eleitoral dos prefeitos que têm se curvado à estratégia ditada pelo presidente. Com a propaganda do remédio feita, ainda que sem autoridade no assunto, por Bolsonaro e por bolsonaristas, aumentam a cada dia o clamor e a busca por essas drogas, em postos de saúde, por parte de uma população cansada, angustiada, desorientada, desesperançosa e, em alguns casos, desesperada.
Sem perspectiva de vacina ou cura real tão cedo para o novo coronavírus, as pessoas estão prontas para se apoiarem em qualquer coisa que lhes dê alguma esperança e segurança. Especialmente entre as pessoas que se identificam com Bolsonaro, a cloroquina virou uma panaceia, o “elixir da vida” do presidente, disponível para todos que quiserem…
Para os prefeitos de direita, pedir e usar a cloroquina nas respectivas redes de saúde é quase uma “imposição política”. Se apoiam Bolsonaro, até por coerência, veem-se compelidos a seguir essa estratégia. Já para os de esquerda, ou centro-esquerda, o que deve pesar mais é o receio de serem atacados pela oposição direitista e de que esta use eventual “não à cloroquina” contra eles na campanha, acusando-os de negligência ou omissão num quadro calamitoso de crise sanitária: “Olha, tinha o remédio disponível, mas negou-o às pessoas por ideologia”...
Ao adotarem a cloroquina, tais prefeitos neutralizam preventivamente essa acusação. E, de quebra, ainda podem angariar alguma simpatia entre eleitores de direita e/ou simpáticos ao presidente.
CASOS CONCRETOS: VITÓRIA
Há exemplos concretos no Estado. Entre os que decidiram usar cloroquina, estão os de Nova Venécia (Barrigueira Lubiana), Cachoeiro (Victor Coelho) e Vitória (Luciano Rezende). Todos são de centro-esquerda. Os dois primeiros são do PSB, partido do governador Renato Casagrande.
Victor Coelho e Luciano Rezende, prefeitos, respectivamente, de Cachoeiro de Itapemirim e de VitóriaCrédito: Amarildo
Já Luciano (Cidadania), que não pode tentar a reeleição, tem um candidato do mesmo partido, o deputado estadual Fabrício Gandini. Presidente estadual do Cidadania, Gandini deve enfrentar nas urnas adversários de direita que fazem oposição pesada ao governo Casagrande, como Assumção (Patriota) e o também deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos, atual partido de Flávio e de Carlos Bolsonaro no Rio).
Candidato à reeleição, o prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho, chegou a divulgar com entusiasmo em suas redes a chegada das caixas de cloroquina repassadas pela Sesa, enquanto o próprio governo Casagrande mantém-se impassível na política de não endossar o uso da substância contra a Covid-19.
Post do prefeito de Cachoeiro, Victor Coelho, sobre a chegada de doses de cloroquina repassadas pela SesaCrédito: Reprodução Facebook
Apesar da vitória consagradora de Coelho em 2016, Cachoeiro é, no interior do Estado, um dos maiores redutos de conservadorismo bolsonarista, como ficou cabalmente demonstrado em outubro de 2018: na cidade, Bolsonaro teve 66,9% dos votos válidos no 1º turno e incríveis 75,3% no 2º turno.
Para completar, o vice-prefeito de Coelho, um bolsonarista convicto, é seu potencial adversário nas urnas em novembro.
“A situação da cloroquina é de responsabilidade dos médicos. A prescrição no Brasil é um ato médico. Juiz não prescreve, advogado não prescreve, presidente da República não prescreve”, lembrou ao vice-prefeito o cardiologista Marlus Thompson, coordenador da UTI do hospital do Aquidaban.
A discussão poderia (e deveria) se encerrar aí. Mas parece impossível quando o que está em jogo é também outra decisão: aquela de natureza eleitoral.
O CASO DE MARCOS DO VAL
Acerca do caso do senador Marcos do Val, não é possível dizer que ele tenha se curado da Covid-19, pois, tecnicamente, não se pode afirmar com segurança nem que ele tenha contraído a doença. Aliás, não se pode dizer nem que ele pegou nem que não pegou. Só podemos afirmar que ele afirma ter se contagiado.
Os dois primeiros testes apresentados por ele, via assessoria, no fim de maio, foram inconclusivos. Do Val chegou a apresentar sintomas da doença e tomou medicamentos sob orientação médica. Seu diagnóstico clínico o indicou como caso “de moderado risco para Covid-19”. Seu tratamento foi preventivo.
A ideologização de um tratamento medicamentoso, iniciada pelo presidente da República, é uma perversidade sobretudo para os próprios profissionais da saúde. A partir das declarações do presidente (Tubaína etc.), o médico que, seguindo sua consciência e critérios médicos, se recusar a receitar a cloroquina, pode ser acusado de “matar o paciente” por “ideologia de esquerda”. Já o que, também seguindo sua consciência, receitar a droga a um paciente que venha a evoluir a óbito, pode ser acusado de tê-lo matado por “ideologia de direita”.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.