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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

O óleo de Lorenzo Pazolini e a água de João Coser não se misturam

O bom debate promovido por A Gazeta e CBN Vitória serviu para acentuar diferenças entre candidatos no 2° turno e provou que Pazolini fará tudo para evitar um debate no campo ideológico

Publicado em 23/11/2020 às 22h11
Atualizado em 23/11/2020 às 23h34
Debate entre os candidatos a prefeito de Vitória
Água e óleo: Cose e Pazolini não se misturaram. Crédito: Vitor Jubini

O óleo de Lorenzo (nada a ver com aquele do filme) não se mistura com a água de João. Isso ficou muito claro no debate A Gazeta e CBN Vitória promovido na noite desta segunda-feira (23). Outro ponto evidenciado no enfrentamento direto dos dois candidatos que disputam o 2º turno da eleição a prefeito de Vitória é que Lorenzo Pazolini, quando precisa, recorre mesmo ao tal óleo e consegue ser um debatedor escorregadio, para fugir das investidas do adversário (e não foram poucas).

Antes de entrar no auditório da Rede Gazeta, Pazolini “aplicou seu óleo”, benzeu-se (aqui não é metáfora, ele de fato fez o sinal da cruz antes do início de cada bloco) e tratou de se esquivar das estocadas de um afiado Coser, sobretudo as que levavam o debate para uma disputa político-ideológica que, como já analisamos aqui, Pazolini deve mesmo evitar a todo custo. Esse tipo de discussão, que o associa a Jair Bolsonaro e a aliados bolsonaristas, como Damares Alves e Magno Malta, não interessa nem um pouco ao deputado, que tem muito mais a perder com isso.

Plenamente consciente disso e animado pela pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada uma hora antes do debate e que aponta seu crescimento em relação ao 1º turno, Coser foi para o debate com a estratégia de vincular Pazolini a Bolsonaro e ao bolsonarismo, especialmente quando trouxe à tona (e não tardou muito) o protagonismo do deputado do Republicanos no episódio em que ele e outros deputados de oposição ao governo Casagrande foram fazer uma “visita técnica” ao hospital estadual Dório Silva, na Serra, no dia 12 de junho.

Coser lembrou que, na véspera, o próprio presidente, em uma de suas lives de quinta-feira, havia exortado seus apoiadores a inspecionarem hospitais destinados ao tratamento de pacientes com a Covid-19. Disse que Pazolini fez a “ocupação” do hospital “a mando de Bolsonaro”, mas teve o cuidado de usar a palavra “ocupação”, e não “invasão” (o MST agradeceria).

Em resposta, Pazolini disse que não houve “invasão” alguma e que ele e os outros deputados, na realidade, foram apurar in loco denúncias recebidas sobre desvio de recursos públicos no hospital e sobre a falta de equipamentos adequados, inclusive de proteção para os próprios profissionais de saúde. Que, na verdade, estavam preocupados com a defesa da vida, inclusive dos profissionais. Nenhuma menção a Bolsonaro e à fala do presidente na véspera.

“Falta de humildade não é um problema. Mas a arrogância é terrível”, replicou Coser, destacando que denúncias poderiam ter sido apuradas de outras formas, por outros canais, e reuniões com entidades deveriam ter sido realizadas fora do hospital. “Insistir no erro é um equívoco”, condenou o petista. “Poderia ter aproveitado a oportunidade para admitir o erro e se desculpar com a sociedade.” E assim ficou.

MAGNO MALTA

Em outro momento, Pazolini também mostrou uma boa esquiva, dessa vez não respondendo a uma pergunta direta de Coser, mas formulada pelos jornalistas de A Gazeta e repassada a ele pela mediadora do debate, Fernanda Queiroz. O questionamento não tinha a ver diretamente com Bolsonaro, mas com um aliado notório do presidente da República: o ex-senador Magno Malta (PL).

A jornalista lembrou a Pazolini que, em 2018, ele esteve em palanques com Magno e que, em 2019, chegou a homenagear, na Assembleia, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, ex-assessora parlamentar de Magno no Senado e suposto elo político entre o candidato, o presidente e o ex-senador.

“Não há vinculação ideológica”, disse Pazolini, explicitando, mais uma vez, sua determinação em não permitir que o debate enveredasse por esse caminho arriscado para ele. “Não tenho grupo político. Sou um deputado independente. [...] A diferença é que estamos do lado da vítima”, respondeu Pazolini, acrescentando que o mais importante é "cuidar das pessoas, sem viés ideológico".

A mediadora então insistiu, sendo ainda mais assertiva: quis saber se Magno participará da administração de Pazolini na Capital, em caso de êxito nas urnas no domingo, ou se ao menos será um conselheiro político para ele. O candidato, então, também foi mais assertivo, com uma negativa categórica:

“Não será um conselheiro e não participará do meu governo”, afirmou Pazolini, destacando o ponto que foi o seu mote principal ao longo do debate: o de que seu governo será formado por uma equipe técnica e qualificada, “enfrentando os problemas sem viés ideológico”.

Para completar, se restava alguma dúvida quanto à sua predisposição de não cair na “armadilha" da disputa ideológica, Pazolini rechaçou esse tipo de questão como uma discussão menor. “Esse é um debate pueril, rasteiro, que não nos leva a lugar algum”, encerrou, tratando de “escorregar”, de uma vez por todas, de uma polarização ideológica em que a ele coubesse o personagem do “candidato bolsonarista” em oposição a um adversário, obviamente, petista.

EQUIPE TÉCNICA

O ponto mais enfatizado por Pazolini ao longo do duelo (o qual dialoga com sua preocupação em evitar sua “bolsonarização”) foi o compromisso, repetido por ele pelo menos cinco vezes, em escalar um secretariado com perfil eminentemente técnico. “Vamos à Ufes, vamos buscar as melhores cabeças pensantes, pessoas boas, quadros técnicos, preservando a política, a boa política, mas valorizando acima de tudo a competência.”

Em muitos momentos da contenda, Pazolini também ressaltou a sua própria formação técnica, como auditor concursado do Tribunal de Contas de Estado (TCES) e, posteriormente, delegado de carreira da Polícia Civil do Espírito Santo, por mais de dez anos, até chegar à Assembleia Legislativa.

Em contraponto, em sua principal estocada no oponente, Pazolini pôs em Coser a pecha, associada a governos de esquerda (e, particularmente, do PT), de formar equipes priorizando critérios político-partidários em detrimento da capacidade técnica. “Colocar a companheirada pra dentro” foi a expressão usada por ele, em indireta a Coser, duas vezes.

Em outra passagem, o delegado também mencionou a “barganha político-eleitoral” e a “troca de favores”, sem atribuí-las diretamente a Coser, mas “entendedores entenderam”.

Sem vestir essa carapuça, Coser citou com destaque a professora Ana Maria Petronetto Serpa, secretária municipal de Assistência Social durante seus oito anos de administração e, conforme suas palavras, uma grande referência na área (o que realmente ela é, muito embora filiada ao PT e candidata a vereadora, pela primeira vez, na eleição deste ano).

Minimizando o currículo de Pazolini, o petista afirmou, mais para o fim do debate, que “um prefeito não precisa fazer muito concurso. Precisa ter coração e precisa ter caridade. Tem que olhar com caridade e com solidariedade. Não só com os números e não só com os concursos.”

Em outro trecho, em debate específico sobre segurança pública, Coser lembrou que a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) chegou a ser assaltada quando o tinha no comando. Também criticou a retórica de Pazolini, que, no início do debate, usou a frase “Eu enfrento e eu resolvo”: “Não é bater no peito e dizer que vai resolver. Não se faz nada sozinho”.

APÓS A “CORAGEM E CORAÇÃO”... “CARIDADE E CORAÇÃO”

Por sinal, “coração”, “caridade” e “solidariedade” foram algumas das palavras mais repetidas pelo ex-prefeito ao longo do enfrentamento, numa evidente tentativa de se contrapor a Pazolini como um candidato pretensamente mais humano, ou, digamos, mais humanizado.

Isso foi externado, principalmente, quando Pazolini destacou uma fala atribuída por ele ao oponente. Segundo o deputado do Republicanos, Coser teria dito, em dois debates anteriores, que, se eleito, não pretende “investir um real na zona continental da cidade” (a mais rica, onde estão, por exemplo, os bairros Jardim da Penha, Mata da Praia e Jardim Camburi).

“Temos que cuidar das duas partes da cidade. Isso não é ser gestor, isso não é isonomia, isso não é equidade, isso não é igualdade”, criticou Pazolini. “Vamos cuidar de todas as regiões com sensibilidade”, completou, no que pode ser lido como um forte aceno aos eleitores dessa região, sobretudo os de Jardim Camburi, reduto de Fabrício Gandini (Cidadania). Um reduto onde, portanto, há muitos votos agora “sem dono”.

Na resposta, subindo o tom (mas sem alterar a voz), Coser acusou o adversário de ser "desonesto" e "desleal". E disse que era mentira, que jamais deu tal declaração. “Quando o candidato falta com a verdade é difícil… [...] Vamos cuidar de todas as cidades. Mas o que eu disse é que vou fazer muito mais da Leitão da Silva para cá [região insular de Vitória], porque precisa muito mais. [...] Qualquer cidadão de bem que tenha generosidade, caridade e coração sabe que esse cidadão é o que mais precisa do Estado.”

Pazolini insistiu e, ante a negativa de Coser, afirmou que sua equipe (em ato certamente combinado antes) estava publicando, naquele momento, em suas redes sociais, o vídeo que provaria a declaração de Coser. Este, na réplica, pediu atenção para eventuais montagens e retomou aquele discurso que fala, por assim dizer, diretamente ao “coração” do público (especificamente, ao das pessoas de renda mais elevada):

“Precisamos da ajuda de vocês, do coração de vocês e do amor de vocês, para fazer mais para quem precisa. Qualquer pai vai cuidar com mais carinho e com mais generosidade do filho que precisa mais”, afirmou o petista, cunhando uma metáfora meio lulista ou, se preferirem, bolsonarista (também dado a metáforas familiares).

“E conto com a ajuda e com a compreensão dos que vivem aqui [na região continental]”, prosseguiu o ex-prefeito. “É isso que tem que fazer o prefeito: tem que cuidar das pessoas, cuidar de gente. Quero cuidar de todos. Mas como qualquer pai, quero tratar com mais carinho e com mais generosidade o filho mais necessitado e mais vulnerável.”

ACENOS DE COSER A GANDINI E LUCIANO

Em um debate proposto por ele mesmo sobre mobilidade urbana, Pazolini reafirmou sua promessa, constante em seu plano de governo, de extinguir a Linha Verde (faixa exclusiva para ônibus instituída pela gestão de Luciano Rezende no início do atual mandato, em algumas partes da cidade). “A Linha Verde deu errado, gerou transtorno e caos”, condenou o deputado, pondo ênfase em suas propostas de interligação das ciclovias e das linhas de ônibus municipais com as do Transcol.

Coser rebateu, pegando a deixa para fazer um senhor aceno ao prefeito Luciano Rezende e a Gandini (em busca de apoio, é claro, ainda que não declarado): “Olha, estou aqui neste debate há mais de uma hora e não abri a boca pra falar mal dos outros, porque não ajuda. [...] Não tem sentido chegar à prefeitura e desmontar o que o outro fez. Quero avançar em tudo o que Luciano fez. Eu tenho diferenças com ele. Mas, na gestão da cidade, ele se esforçou para fazer o que achava que podia fazer”, disse o ex-prefeito, citando méritos de todos os prefeitos, nome por nome, desde seu então correligionário Vitor Buaiz (prefeito pelo PT de 1989 a 1992) até Luciano.

Pouco tempo depois, num aceno específico para Gandini (derrotado por ele por pouco mais de 1 mil votos, no 1º turno), Coser declarou, até meio fora de contexto, como não deixou passar Pazolini, que incorporou ao seu plano de governo uma das propostas do plano de Gandini, citado por Coser pelo nome: a da criação de um hospital veterinário na cidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na sua última intervenção, Pazolini reiterou a sua linha mestra no debate: formar uma equipe técnica, sem compromissos partidários e político-ideológicos. “Vamos cuidar das pessoas, mas com uma equipe técnica. Temos independência. O prefeito será independente. O prefeito não terá compromisso com grupo político, mas com seu desejo e sua vontade”, afirmou, dirigindo-se diretamente ao eleitor que o ouvia.

Quanto a Coser, seguiu a linha “não troque a experiência pela aventura” e acrescentou um elemento curioso, também de fundo político-ideológico. Nas entrelinhas, lembrou que, mesmo tendo votado em peso em Bolsonaro na última eleição presidencial (2018), Vitória, historicamente, só elege prefeitos “progressistas” (ou seja, de esquerda):

“Quero reafirmar meu compromisso com a democracia, com a vida e com a dignidade. Vitória não arrisca. Acredita nas pessoas que têm serenidade, experiência. [...] A cidade de Vitória não se aventura [...], sempre apostando em uma linha progressista, mais avançada. É o perfil da cidade de Vitória.”

A conferir.

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